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Estudo de Dr. James Hansen liga aerossóis de navios ao recente aquecimento global

Homem a analisar gráficos num tablet a bordo de navio com contentores no mar ao fundo.

Nos últimos anos, os cientistas têm acompanhado um aumento evidente da temperatura média da Terra. Enquanto os especialistas procuram perceber porque é que o aquecimento está a acelerar, um novo estudo aponta para uma possível peça do puzzle: alterações nos aerossóis associados à navegação marítima.

Para investigar as ligações entre a atividade humana e o sistema climático, os investigadores recorrem a registos de gases com efeito de estufa, partículas em suspensão e mudanças nos padrões oceânicos.

A análise mais recente apresenta uma leitura inesperada dos picos de temperatura observados e do papel dos aerossóis na poluição gerada pelos navios.

O trabalho foi liderado pelo Dr. James Hansen, diretor do Programa de Ciência do Clima, Consciência e Soluções da Universidade de Columbia, em conjunto com os seus coautores.

Compreender o salto de temperatura

O estudo descreve um aumento súbito de mais de 0,7 °F (cerca de 0,4 °C) ao longo dos últimos dois anos - aproximadamente o dobro do que os especialistas previam que um episódio moderado de El Niño, por si só, conseguiria explicar.

Em janeiro deste ano, a NASA confirmou este salto, assinalando 2024 como o “ano mais quente de que há registo”.

Segundo os autores, este aquecimento reforçado está associado a mudanças na poluição por aerossóis. Em particular, chamam a atenção para regulamentos mais recentes sobre combustíveis marítimos que reduzem as emissões de enxofre.

Aerossóis de navios: um arrefecimento que existia

Os aerossóis são partículas minúsculas no ar capazes de refletir parte da luz solar recebida. Em muitas zonas oceânicas, estas partículas ajudavam a compensar uma fração do aquecimento provocado pelos gases com efeito de estufa.

Como os navios eram uma fonte importante de aerossóis à base de enxofre, a redução desta poluição diminuiu a “névoa” refletora. De acordo com o artigo, menos névoa significa que fica mais energia solar retida no sistema atmosférico.

Terra mais quente à medida que desaparecem os aerossóis de navios

Para que a temperatura à superfície se mantenha estável, a energia solar que entra e o calor que sai precisam de se equilibrar. O estudo sublinha que, pelo menos desde o início dos anos 2000, o planeta tem absorvido mais energia do que aquela que perde.

Os investigadores concluíram que a maior parte deste calor excedente é armazenada nos oceanos, o que alimenta tempestades e aumenta o risco de intensificação rápida em sistemas tropicais.

Este aquecimento também agrava fenómenos meteorológicos extremos, como secas repentinas ou precipitação recorde.

Possíveis implicações para políticas públicas

A investigação sugere que o mundo poderá ter subestimado o grau de sensibilidade do clima ao aumento do dióxido de carbono. Se o efeito dos aerossóis for maior do que se pensava, então torna-se ainda mais urgente reduzir o uso de combustíveis fósseis.

As novas restrições à poluição emitida pelos navios melhoram, de facto, a qualidade do ar para as pessoas. No entanto, os autores do estudo salientam que a remoção destes aerossóis com efeito de arrefecimento dá um impulso adicional ao aquecimento global, a menos que as emissões de gases com efeito de estufa diminuam.

Preocupações com o degelo

As latitudes elevadas enfrentam riscos particulares. Correntes oceânicas mais quentes podem desgastar as margens das camadas de gelo na Gronelândia e na Antártida, elevando o nível do mar em vários pés (cerca de alguns metros) ao longo do tempo.

Embora o artigo alerte para a possibilidade de um ponto de não retorno em plataformas de gelo-chave, existe ainda uma janela de oportunidade para estabilizar a situação.

Os investigadores sublinham que reduções mais rápidas dos gases com efeito de estufa, juntamente com um acompanhamento mais robusto das mudanças no oceano e na atmosfera, podem ajudar a evitar perdas em grande escala.

Correntes oceânicas e extremos climáticos

As tempestades tropicais obtêm frequentemente energia a partir de temperaturas oceânicas elevadas. Isto pode levar a que furacões ou tufões intensifiquem rapidamente, resultando em impactos costeiros mais destrutivos.

Temperaturas mais altas à superfície do mar também alargam a área onde as tempestades se podem fortalecer. Isso aumenta a probabilidade de acontecimentos inesperados em locais que, anteriormente, se consideravam protegidos de ciclones severos.

Equilibrar preocupações locais e globais

Em várias regiões, os decisores têm privilegiado a redução da poluição para proteger a saúde pública. A diminuição dos aerossóis de enxofre provenientes de navios é apenas um exemplo de como limitar contaminantes atmosféricos nocivos.

Ainda assim, estas escolhas podem trazer consequências globais não intencionais se os gases com efeito de estufa continuarem sem controlo. Os cientistas esperam que os ganhos locais não desviem a atenção da necessidade mais ampla de cortar emissões de carbono.

Os autores recomendam uma monitorização mais precisa do armazenamento de calor nos oceanos e do comportamento das camadas de gelo. Satélites e flutuadores capazes de mergulhar a grande profundidade podem esclarecer a rapidez com que os mares estão a aquecer e a velocidade a que o gelo em terra está a enfraquecer.

É igualmente essencial aprofundar o entendimento da dinâmica entre aerossóis e nuvens. Observações mais contínuas destas partículas em diferentes latitudes ajudariam a reduzir as incertezas sobre o seu impacto climático.

Ajustar-se à perda de aerossóis de navios

Especialistas têm defendido que as principais organizações climáticas, incluindo o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas, devem continuar a aperfeiçoar os seus modelos.

As conclusões recentes mostram que fontes de arrefecimento que passam despercebidas - como os aerossóis de navios - podem ocultar a verdadeira tendência de aquecimento.

Tendo em conta que poderemos ultrapassar marcos críticos de temperatura mais cedo do que o previsto, torna-se urgente integrar estes novos dados na definição de políticas e nas medidas de resiliência climática.

As próximas décadas indicarão se os países conseguem adaptar-se e reduzir emissões com a rapidez necessária. O debate sobre rotas marítimas, políticas de aerossóis e preço do carbono está agora sob forte escrutínio.

É possível ver aqui uma conversa entre os autores.

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