A preocupação faz sentido?
Muita gente usa colírios várias vezes por dia - por receio de olhos secos, para sentir a visão mais “nítida” ou para reduzir vermelhidões incómodas. E, com isso, surge depressa a dúvida: será que se pode ficar “dependente”, como acontece com alguns sprays nasais descongestionantes? Um oftalmologista explica em que produtos esse medo é exagerado - e em que tipos de colírios pode mesmo aparecer um efeito de habituação.
Como é que os olhos secos aparecem
Hoje em dia, os olhos secos estão entre as queixas mais comuns nas consultas de oftalmologia. Normalmente não há um único culpado: é um conjunto de factores que se vai somando no dia a dia.
Entre os desencadeadores mais frequentes estão:
- ar quente do aquecimento no inverno
- temperaturas baixas no exterior, que também sobrecarregam as mucosas
- calor no verão e ar condicionado a funcionar continuamente
- longas horas de ecrã (computador, tablet ou smartphone)
- envelhecimento, com diminuição da produção de lágrimas
- alterações hormonais, por exemplo durante a menopausa
Quando se passa muito tempo a olhar para um monitor, tende-se a pestanejar muito menos. Isso faz com que a película lacrimal se espalhe pior pela superfície do olho e evapore mais depressa. Resultado: o olho fica com sensação de secura, cansaço e irritação.
Em casos marcados e crónicos, os médicos referem-se muitas vezes à síndrome sicca. Aqui, a lubrificação da superfície ocular está continuamente alterada. Ou as glândulas lacrimais produzem pouca lágrima, ou a composição não é a ideal - e a película lacrimal rompe-se mais rapidamente.
As queixas típicas na síndrome sicca incluem:
- ardor ou dor em picada
- vermelhidão conjuntival
- sensação de pressão ou de corpo estranho (“areia no olho”)
- olhos cansados, que “cedem” rapidamente
- visão turva, sobretudo ao fim do dia
- maior sensibilidade à luz
Se o olho permanecer demasiado seco por muito tempo, a superfície pode inflamar. Nessa fase, já não chega pingar ocasionalmente - é necessária uma abordagem terapêutica dirigida.
Os colírios “normais” causam dependência?
“Os substitutos lacrimais para olhos secos não causam dependência, mesmo quando usados durante anos - mas a escolha do tipo certo é decisiva.”
A mensagem principal é clara: lágrimas artificiais (os clássicos substitutos lacrimais vendidos em farmácia) não levam a vício. Limitam-se a repor a falta de lágrima e/ou a estabilizar a película lacrimal. Quando existe realmente secura ocular, muitos oftalmologistas recomendam-nos até para utilização prolongada.
Estes produtos costumam incluir substâncias como ácido hialurónico, carbómero ou compostos hidratantes semelhantes. Humedecem a superfície do olho sem alterar mecanismos do organismo de forma a criar dependência.
Ainda assim, a escolha do produto faz diferença. Para uso continuado, especialistas aconselham colírios ou gel sem conservantes. Os conservantes podem irritar a superfície ocular, favorecer alergias e até agravar os sintomas quando se aplicam gotas repetidamente.
Quando alguém diz sentir “dependência” destes colírios, na maior parte das vezes trata-se de um fenómeno psicológico: como as gotas trazem alívio, a pessoa recorre mais vezes ao frasco. Não é uma dependência física como a da nicotina ou de sedativos; é antes um comportamento aprendido - semelhante a usar automaticamente creme de mãos quando a pele fica repuxada.
Com estes colírios pode surgir um ciclo perigoso
Com alguns produtos específicos, o cenário muda. Nesses casos, pode ocorrer um verdadeiro efeito de habituação, levando a pessoa a pingar cada vez mais.
Colírios “branqueadores”: efeito rápido, risco elevado
Oftalmologistas são particularmente críticos em relação aos chamados colírios “branqueadores”. O objectivo é fazer olhos vermelhos parecerem rapidamente mais claros e “frescos”. O mecanismo lembra o de sprays nasais descongestionantes - e os problemas também.
- Contraem os pequenos vasos sanguíneos do olho.
- Assim, durante algumas horas, o olho parece mais branco e “saudável”.
- Quando o efeito passa, os vasos voltam a dilatar.
- A vermelhidão regressa - muitas vezes mais intensa do que antes.
Quem não conhece este efeito tende a aplicar mais gotas. Forma-se um círculo vicioso: sem colírio, os olhos parecem constantemente vermelhos; com colírio, ficam “normais” por pouco tempo. Entretanto, a causa real - por exemplo inflamação, sobrecarga ocular ou lentes de contacto irritativas - continua sem ser tratada.
“Os ‘branqueadores’ podem atrasar a cicatrização, piorar os olhos secos e, no pior dos casos, contribuir para uma conjuntivite crónica.”
Estes produtos, quando muito, servem para um uso muito curto e pontual, por exemplo antes de um compromisso importante - e mesmo assim idealmente após aconselhamento do oftalmologista. Usá-los de forma regular leva facilmente a uma espiral de vermelhidão, gotas e nova vermelhidão ainda mais marcada.
Colírios com cortisona: eficazes, mas não para uso prolongado
Outro caso particular são os colírios com cortisona. São utilizados em inflamações importantes, como numa conjuntivite alérgica intensa ou noutras doenças inflamatórias oculares.
A cortisona consegue reduzir a inflamação de forma rápida e clara. Por isso, estes colírios costumam ser prescritos por tempo limitado e com vigilância próxima da evolução.
Quando a cortisona é usada no olho por demasiado tempo ou sem controlo, podem surgir efeitos adversos sérios:
- aumento da pressão intra-ocular, com risco de glaucoma
- infecções, porque a defesa local fica suprimida
- úlceras ou lesões na córnea
- opacificação do cristalino (catarata)
No sentido clássico, estes colírios não criam dependência. No entanto, quem se “habituar” ao alívio forte pode tender a prolongar o uso ou a pedi-los sempre que aparece comichão - com consequências para a saúde ocular.
Que colírios são, em geral, seguros para o dia a dia?
Para utilização diária em olhos secos, estes produtos são habitualmente considerados opções relativamente seguras:
- substitutos lacrimais com ácido hialurónico ou substâncias semelhantes
- gel ou colírios mais espessos para a noite
- formulações sem conservantes, idealmente em unidoses
Se alguém precisa de os usar com frequência, vale a pena encará-los como uma espécie de “óculos em forma de gotas”: uma ajuda para compensar um problema existente, sem causar dependência. Ainda assim, é sensato consultar o oftalmologista se a necessidade aumentar ou se os sintomas persistirem apesar das gotas - podem existir doenças associadas, medicamentos a contribuir ou alterações hormonais.
O que pode fazer por si para aliviar olhos secos
“Com algumas regras simples do quotidiano, muitas vezes é possível pegar muito menos vezes no frasco de colírio.”
Para além do colírio adequado, pequenas mudanças de hábitos podem reduzir a irritação e ajudar a estabilizar a película lacrimal.
Dicas práticas para ter menos olhos secos
- Melhorar o ar interior: arejar com regularidade, usar humidificador ou colocar uma taça com água em cima do aquecedor.
- Evitar correntes de ar: não apontar ar condicionado, ventoinha ou ventilação do carro directamente para a cara e os olhos.
- Gerir melhor o tempo de ecrã: baixar ligeiramente o monitor e pestanejar de forma consciente com mais frequência.
- Aplicar a regra 20-20-20: a cada 20 minutos, olhar cerca de 20 segundos para um ponto a aproximadamente 6 metros.
- Incluir higiene das pálpebras: fazer compressas mornas, massajar suavemente a margem palpebral e limpar com uma cotonete húmida.
- Beber líquidos suficientes: ao longo do dia, ingerir água ou chá sem açúcar em quantidade adequada.
- Não fumar: o fumo irrita a superfície ocular e piora significativamente a película lacrimal.
Quando faz sentido ir ao oftalmologista
Nem todos os casos de olho seco se resolvem com gotas e alguns truques. Em determinadas situações, é necessária avaliação médica:
- dor persistente que não melhora mesmo em repouso
- pioria súbita e marcada da visão
- grande sensibilidade à luz
- vermelhidão muito intensa apenas num dos olhos
- pus, secreções ou sensação de que algo ficou preso no olho
O oftalmologista pode confirmar se há uma lesão da córnea, uma infecção bacteriana ou outra doença de base. Nesses cenários, os substitutos lacrimais por si só não chegam.
Porque vale a pena olhar para os ingredientes
Quem aplica colírios com regularidade deve ler a embalagem com atenção. Três aspectos são especialmente relevantes: o princípio activo, a presença de conservantes e a duração de uso recomendada.
| Tipo de colírio | Indicação | Risco de habituação / problemas |
|---|---|---|
| Substituto lacrimal sem conservantes | olhos secos, uso prolongado | baixo, com diagnóstico adequado |
| Substituto lacrimal com conservantes | utilização ocasional | podem ocorrer irritações com uso continuado |
| Colírios “branqueadores” | redução pontual de vermelhidão | elevado efeito de habituação, risco de irritação crónica |
| Colírios com cortisona | doenças inflamatórias | efeitos adversos graves com uso prolongado |
Sobretudo nos produtos sem receita, a facilidade de compra pode levar a prolongar a utilização para lá do que era suposto. Uma verificação rápida com o farmacêutico ou o oftalmologista ajuda a perceber se o produto é realmente adequado para uso continuado.
Exemplos práticos do quotidiano
Um cenário comum: alguém trabalha 8 horas por dia ao computador, quase não areja a sala e bebe pouca água. Ao fim do dia, os olhos estão vermelhos e secos - e o frasco de colírio está sempre à mão. Aqui, o pingar constante não reflecte um vício; reflecte um dia de trabalho que sobrecarrega os olhos de forma repetida. Ao melhorar o ambiente e os hábitos, a necessidade de gotas tende a baixar por si.
Já num caso diferente, uma pessoa usa colírios “branqueadores” antes de cada videochamada porque, sem eles, os olhos parecem “demasiado cansados”. Passadas algumas semanas, sem o colírio, os olhos ficam quase sempre vermelhos. As gotas só corrigem o aspecto por momentos e pioram a situação a longo prazo. Aqui, a solução é: parar de forma consistente, esclarecer a causa e mudar para alternativas mais bem toleradas.
Quem percebe como funcionam os vários tipos de colírios consegue lidar com o frasco com muito mais tranquilidade. As lágrimas artificiais são uma ajuda, não um produto de dependência. O problema começa quando os colírios apenas escondem a vermelhidão em vez de tratar a causa - ou quando se usam substâncias fortes sem acompanhamento médico.
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