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O esperma de homens mais velhos tem mais mutações, que podem ser prejudiciais.

Mãos de cientista com luvas seguram tubos de ensaio perto de portátil com imagens de DNA em laboratório.

As mutações do ADN potencialmente nocivas podem acumular-se no esperma dos homens à medida que envelhecem, conclui uma nova investigação - o que, por sua vez, pode influenciar o número de mutações transmitidas aos filhos e o risco de doença na geração seguinte.

As mutações surgem no ADN quando as células se replicam e podem aparecer por mero acaso ou como resposta a pressões ambientais. Umas podem afectar o funcionamento do organismo, enquanto outras não produzem qualquer efeito observável. Tal como o desgaste de um automóvel ao longo do tempo, estas alterações genéticas vão-se acumulando - mas não era claro até que ponto esses “erros” influenciam o esperma em homens mais velhos.

NanoSeq e mutações do ADN no esperma: o que foi analisado

Uma equipa do Instituto Wellcome Sanger e do King's College London, no Reino Unido, recorreu a uma técnica recente de análise de alta resolução chamada NanoSeq para observar, em detalhe, as mutações presentes no esperma de homens entre os 24 e os 75 anos, bem como os genes afectados por essas alterações.

Os investigadores estudaram 81 amostras de esperma recolhidas a 57 homens saudáveis. Alguns participantes eram gémeos - um pormenor importante, porque ajuda a distinguir o impacto da idade nas mutações do ADN do esperma face ao que pode ser explicado por factores genéticos herdados.

Mutações “egoístas” nos testículos e selecção positiva

Os dados mostraram não só que as mutações ocorrem a taxas mais elevadas em homens mais velhos, como também que algumas delas são “egoístas”: conferem uma vantagem de crescimento às células que as transportam, permitindo-lhes replicar-se mais depressa do que outras ou sobreviver durante mais tempo nos testículos. Com o passar do tempo, estas células podem tornar-se predominantes. Muitas dessas mutações já tinham sido associadas, em trabalhos anteriores, a perturbações do desenvolvimento e a cancros.

"Esperávamos encontrar alguma evidência de selecção a moldar as mutações no esperma", afirma o geneticista Matthew Neville, do Instituto Wellcome Sanger.

"O que nos surpreendeu foi até que ponto isso aumenta o número de espermatozoides que transportam mutações associadas a doenças graves."

Percentagens de mutações causadoras de doença com a idade

Ao quantificar o fenómeno, a equipa estimou que cerca de 2 por cento do esperma de homens na casa dos 30 anos apresentava mutações causadoras de doença. Em homens de meia-idade e mais velhos (com mais de 43 anos), esse valor subiu para 3-5 por cento. Aos 70 anos, uma média de 4,5 por cento do esperma tinha mutações potencialmente prejudiciais.

O estudo também permitiu identificar 40 genes afectados pela vitória destas células mutantes “egoístas” na competição de selecção positiva dentro dos testículos. Este mapeamento deverá facilitar, em investigações futuras, a ligação entre mutações específicas e riscos de doença concretos.

"Algumas alterações no ADN não só sobrevivem como prosperam dentro dos testículos, o que significa que pais que concebem mais tarde na vida podem, sem o saber, ter um risco mais elevado de transmitir uma mutação nociva aos seus filhos", afirma o geneticista Matt Hurles, do Instituto Wellcome Sanger.

Nem todas as mutações passam à geração seguinte

Ainda assim, importa ter presente que nem todas estas mutações serão necessariamente transmitidas à geração seguinte. Algumas podem até diminuir as probabilidades de reprodução de alguma forma - por exemplo, ao interferirem com o desenvolvimento do embrião.

Será necessário mais trabalho para perceber, com precisão, como este aumento gradual de mutações do ADN nos homens se reflecte na saúde dos seus filhos. Por agora, porém, existe uma visão muito mais clara dos processos envolvidos.

Estes resultados também dão aos cientistas uma perspectiva bastante mais próxima sobre a cadeia de células conhecida como linhagem germinal masculina: células reservadas para a tarefa de transmitir material genético à geração seguinte - com consequências potencialmente positivas e negativas.

"A linhagem germinal masculina é um ambiente dinâmico onde a selecção natural pode favorecer mutações nocivas, por vezes com consequências para a geração seguinte", afirma a geneticista Raheleh Rahbari, do Instituto Wellcome Sanger.

A investigação foi publicada na Nature.

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