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Dia Mundial da Tuberculose: Nova descoberta traz esperança contra a infeção mais mortal

Cientista em bata branca examina placa de petri num laboratório com modelos moleculares e raio-x à frente.

A tuberculose (TB) voltou a aumentar nos países desenvolvidos depois de décadas de queda e, além disso, está a tornar-se cada vez mais resistente aos melhores antibióticos disponíveis.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já a classifica como uma crise de saúde pública - mas poderá haver novidades no horizonte para travar a doença infecciosa que mais mata em todo o mundo.

Ecumicin, ilamycins e cyclomarins: compostos antibióticos experimentais contra a tuberculose (TB)

Uma equipa internacional de investigadores analisou três compostos antibióticos experimentais considerados promissores - ecumicin, ilamycins e cyclomarins - para perceber de que forma conseguem derrubar a Mycobacterium tuberculosis, a bactéria responsável pela TB.

Estes compostos e o seu potencial como tratamentos para a tuberculose não são uma descoberta recente para a comunidade científica. Ainda assim, permaneciam dúvidas importantes sobre o mecanismo exacto pelo qual poderiam incapacitar a M. tuberculosis - um pormenor essencial para transformar estes candidatos em terapêuticas aplicáveis em larga escala.

O complexo ClpC1–ClpP1P2 na Mycobacterium tuberculosis e a reciclagem de proteínas

Em ensaios laboratoriais, os cientistas demonstraram que os três compostos actuam sobre uma “máquina” molecular no interior da bactéria, conhecida como complexo ClpC1–ClpP1P2. Esta estrutura é crítica para a M. tuberculosis, pois permite-lhe eliminar proteínas residuais que já não são necessárias ou que ficaram danificadas.

"TB bacteria depend on this recycling system to stay alive, particularly under stressful conditions inside the human body," says immunologist Warwick Britton of the University of Sydney in Australia.

"Os nossos resultados mostram que estes compostos não se limitam a desligar o sistema. Em vez disso, cada um interfere de forma diferente, desencadeando desequilíbrios generalizados em toda a bactéria. Esta perturbação enfraquece a sua capacidade de funcionar e sobreviver."

Mais de 3.000 proteínas analisadas para mapear o impacto dos antibióticos

Para chegar a estas conclusões, a equipa recorreu a técnicas de análise que quantificaram mais de 3.000 proteínas na M. tuberculosis. Em seguida, cada composto antibiótico foi testado separadamente para observar como alterava este vasto conjunto de proteínas.

Embora ecumicin, ilamycins e cyclomarins provoquem todos perturbações no sistema de reciclagem de proteínas da bactéria, não o fazem exactamente da mesma forma. Entre os três, o ecumicin foi o que provocou o maior impacto, levando a um aumento acentuado de uma proteína de stress protectora chamada Hsp20 - um indicador claro de que a bactéria estava sob forte pressão.

Implicações para desenvolver terapêuticas anti-TB mais precisas

Na prática, estes dados permitem avançar no desenvolvimento de antibióticos que incluam estes compostos com um grau de precisão muito maior - agora com uma visão mais nítida do tipo de dano que causam na M. tuberculosis e de como poderão ser combinados da forma mais eficaz.

"By tracking changes across most of the bacterium's protein network, we were able to see how disrupting a single essential complex can reshape the bacterium's entire internal protein landscape," says chemical biologist Isabel Barter of the University of Sydney.

"Este conhecimento mais profundo dá-nos informação valiosa sobre como poderemos optimizar estes compostos e conceber tratamentos anti-TB mais exactos e eficazes."

Uma doença que mata mais de um milhão por ano e favorece resistências

A tuberculose está actualmente a causar bem mais de um milhão de mortes por ano e transmite-se através de gotículas no ar (por exemplo, ao tossir ou ao respirar). Apesar de ser uma doença curável, os tratamentos eficazes não estão disponíveis de forma universal. Além disso, um ciclo completo de medicamentos contra a TB pode demorar meses a fazer efeito total - um factor que poderá contribuir para o aparecimento de estirpes resistentes a antibióticos.

A probabilidade de uma pessoa sobreviver à TB depende em grande medida das condições socioeconómicas, assim como do grau de robustez do seu sistema imunitário. Acresce que se trata de uma infecção que permanece latente em muitas pessoas: estima-se que até um quarto da população mundial tenha sido infectada pela bactéria da TB, embora isso nem sempre evolua para doença.

Cada avanço no entendimento de como a TB se instala no organismo e de como pode ser combatida com fármacos modernos aproxima-nos da sua erradicação definitiva.

Este trabalho aponta um alvo promissor - o sistema de eliminação de proteínas residuais da própria bactéria - e identifica três compostos com potencial para o atingir, o que poderá ajudar a manter-nos à frente das estirpes resistentes a antibióticos.

"Our study highlights the potential of directly targeting this protein degradation system," says chemical biologist Richard Payne of the University of Sydney.

"Ao compreendermos de que forma diferentes compostos interagem com este sistema e perturbam o seu funcionamento normal, conseguimos desenhar de forma mais estratégica a próxima geração de fármacos anti-TB."

A investigação foi publicada na Nature Communications.

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