Saltar para o conteúdo

Estudo em França com 2009 carraças revela o risco real da Doença de Lyme

Homem sentado na floresta a usar aplicação no telemóvel para detetar um carrapato na perna.

Investigadores analisaram mais de 2000 carraças que já estavam presas à pele de pessoas. A partir dessas amostras, foi possível criar um mapa muito mais preciso: que zonas são particularmente afectadas, quais parecem menos expostas e onde também circulam outros agentes patogénicos que, até aqui, muitas médicas e muitos médicos tendiam a subestimar.

Porque é que este estudo é um ponto de viragem na investigação sobre carraças

Em muitos estudos, as carraças são recolhidas em florestas e prados, passando panos brancos pela vegetação. Esse método ajuda a perceber onde existem carraças, mas diz pouco sobre quais os agentes causadores de doença que elas transportam exactamente no momento em que picam um ser humano.

No projecto agora analisado, o procedimento foi outro: cidadãos e cidadãs de toda a França enviaram para análise as carraças que os tinham acabado de morder. Os espécimes foram guardados numa espécie de “colecção nacional de carraças” e examinados em laboratório. O resultado é um retrato directo do risco real de infecção para as pessoas - e não apenas uma fotografia do que está escondido no mato.

"Foram analisadas 2009 carraças enviadas após uma picada em humanos - cada uma delas esteve, portanto, em contacto real com uma pessoa."

Entre essas carraças, 94% pertenciam à espécie Ixodes ricinus. Na Europa, esta é a espécie mais importante na transmissão da borreliose de Lyme (Doença de Lyme), uma infecção bacteriana que, sem tratamento, pode afectar articulações, sistema nervoso e coração.

Uma em cada seis carraças está infectada com agentes da Doença de Lyme

Em média, 15,4% das carraças estudadas tinham pelo menos uma espécie de Borrelia - o conjunto de bactérias responsável pela Doença de Lyme. Em termos estatísticos, isto significa que aproximadamente uma em cada seis carraças que pica uma pessoa em França pode ser potencialmente infecciosa.

Ainda assim, a média esconde diferenças grandes: consoante a região, a proporção sobe ou desce de forma marcada. Em algumas áreas, a percentagem de carraças infectadas fica claramente acima do valor nacional; noutras, a situação parece comparativamente mais favorável.

  • Regiões com risco elevado: no leste de França, por exemplo em Bourgogne–Franche-Comté, surgem particularmente muitas carraças infectadas.
  • Risco intermédio: em várias regiões turísticas clássicas, a proporção oscila em torno da média nacional.
  • Risco mais baixo: algumas zonas costeiras e áreas com forte presença urbana apresentam taxas de infecção bastante inferiores.

Para viajantes vindos da Alemanha, a implicação é simples: quem planeia fazer caminhadas, campismo ou passar muito tempo em espaços verdes em França deve ter o destino em conta. Nem todas as carraças são iguais - e nem todas as florestas representam o mesmo risco.

Nem todas as Borrelia provocam os mesmos sintomas

Nas carraças enviadas, os investigadores detectaram 15 espécies diferentes de Borrelia. Três delas estão associadas a uma grande parte dos casos humanos. Um dado relevante é que essas espécies não se distribuem de forma uniforme: variam bastante de região para região.

Na Normandia, por exemplo, predomina Borrelia garinii, mais frequentemente associada a queixas neurológicas. Já na área de Paris (Île-de-France), é mais comum Borrelia afzelii, que tende a manifestar-se com sintomas sobretudo cutâneos. Estas diferenças têm impacto directo no dia a dia clínico.

"Consoante a região, outros quadros clínicos ganham destaque - desde vermelhidões migratórias na pele até inflamações dos nervos."

Para médicas e médicos, isto significa que saber onde ocorreu a picada ajuda a orientar melhor as perguntas sobre sintomas e a acelerar a escolha da terapêutica mais adequada. A localização passa a ser uma peça importante do puzzle diagnóstico.

Carraças com múltiplos agentes: um risco subestimado

O trabalho revelou ainda um segundo resultado relevante: 27% das carraças enviadas transportavam pelo menos um agente patogénico - e nem sempre era apenas um. Alguns espécimes estavam carregados com vários microrganismos.

Para além das Borrelia, apareceram outros agentes que podem desencadear, por exemplo, febre, cansaço invulgar ou outras queixas pouco específicas. Quando entram no organismo vários agentes em simultâneo, podem ocorrer as chamadas coinfeções. E estas combinações tornam diagnóstico e tratamento consideravelmente mais difíceis:

  • Os sintomas sobrepõem-se e parecem “pouco claros”.
  • Os testes habituais podem detectar apenas um agente, enquanto outros ficam inicialmente por identificar.
  • As pessoas podem sentir-se doentes durante mais tempo, mesmo já estando em tratamento.

Surpresa no laboratório: até larvas de carraça podem já ser infecciosas

A ideia mais difundida é que as fases mais perigosas são as ninfas e as carraças adultas, porque já se alimentaram de sangue anteriormente e, nesse processo, podem ter adquirido agentes infecciosos. A nova análise coloca esta lógica parcialmente em causa.

No laboratório, também foram encontradas larvas infectadas - isto é, carraças no seu primeiro estádio de desenvolvimento. Estas larvas ainda não tinham picado nenhum hospedeiro antes e, apesar disso, já apresentavam Borrelia. O mecanismo exacto de como ocorre uma infecção tão precoce continua pouco claro, mas o achado alarga o conjunto de estádios potencialmente de risco.

"A ideia de que as larvas minúsculas são, por regra, inofensivas já não se sustenta de forma tão inequívoca à luz destes dados."

Na prática, isto quer dizer que, após um dia ao ar livre, pequenos pontos de carraça na pele devem ser levados tão a sério como exemplares maiores - e, em caso de sintomas típicos, deve procurar-se aconselhamento médico.

O que estes novos dados significam para a prevenção e para as viagens

O novo mapa de risco, muito mais detalhado, altera a forma como se pode actuar em saúde pública. As autoridades passam a poder ajustar avisos e recomendações por região: em áreas de risco conhecido, pode reforçar-se a sensibilização para detecção precoce e o apoio a médicos de família; noutras zonas, poderá bastar uma estratégia centrada em informação geral.

Tipo de região Medidas recomendadas
Elevada presença de carraças e Borrelia Informação intensiva, avaliação médica mais apertada após picadas, formações mais frequentes para profissionais de saúde
Risco intermédio Prevenção padrão, avisos a associações de caminhadas e turismo, listas de verificação para consultórios
Risco mais baixo Transmitir conhecimentos básicos, dar a conhecer sintomas, estar atento a viajantes que regressam

Também é relevante o papel dos participantes: sem os envios feitos por cidadãos e cidadãs, este tipo de cartografia não teria sido possível. Um modelo semelhante poderia ser aplicado noutros países - incluindo destinos de férias frequentemente procurados por pessoas que viajam a partir da Alemanha.

O que viajantes e pessoas que fazem actividades ao ar livre podem fazer, na prática

Independentemente da região, há regras base que continuam a ser úteis - em França, tal como na Floresta Negra ou nos Alpes. Quem passa muito tempo no exterior pode reduzir o risco individual com medidas simples:

  • Usar roupa clara e, de preferência, comprida; enfiar as calças dentro das meias.
  • Aplicar repelentes anti-carraças em zonas de pele exposta e na roupa.
  • Ao fim de cada dia ao ar livre, examinar o corpo, sobretudo atrás dos joelhos, virilhas, axilas e couro cabeludo.
  • Retirar as carraças o mais cedo possível com um extractor de carraças ou uma pinça e vigiar a pele.
  • Se surgir vermelhidão em anel, febre, dores de cabeça ou dores articulares migratórias, procurar ajuda médica - e indicar o local onde ocorreu a picada.

Para muitas pessoas, uma picada de carraça parece um incómodo menor. Os novos dados recolhidos em França mostram, porém, como o tema pode ser complexo: agentes diferentes, grandes variações regionais, larvas por vezes já contaminadas e um número considerável de coinfeções.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário