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No sábado, 2 de maio, noticiámos que se tinha realizado a visita do presidente Orsi ao porta-aviões nuclear USS Nimitz, da Marinha dos Estados Unidos (US Navy), acompanhado por uma comitiva que incluiu o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mario Lubetkin, bem como outras autoridades governamentais e chefias militares. O grupo foi transportado num Grumman C-2 Greyhound do próprio porta-aviões e contou ainda com a presença do embaixador dos Estados Unidos no Uruguai, Lou Rinaldi, além de outras altas entidades civis e militares norte-americanas da Embaixada.
Surpresa política: visita discreta ao USS Nimitz, no dia seguinte ao 1.º de maio.
A deslocação do presidente Orsi e do chanceler ao porta-aviões nuclear USS Nimitz mexeu com o panorama político uruguaio. A confirmação surgiu em cima da hora, sem aviso prévio à imprensa, e deixou tanto a oposição como o próprio oficialismo visivelmente surpreendidos.
A visita ocorreu apenas um dia após o tradicional acto de 1.º de maio, promovido pelo PIT-CNT, a central sindical uruguaia com ligações estreitas à esquerda e à Frente Ampla. Este ano, o governo concedeu transmissão obrigatória em cadeia nacional de rádio e televisão para divulgar o evento. Nessa ocasião, o secretário-geral do PIT-CNT dirigiu críticas directas à política dos Estados Unidos na América Latina, acusando-a de recuperar elementos da Doutrina Monroe e de consolidar mecanismos de domínio, como as intervenções na Venezuela, as pressões sobre Cuba e outros episódios na região.
Ainda com os ecos desse discurso no ar, a manhã tranquila do sábado seguinte foi interrompida por uma notícia inesperada: o presidente Orsi e o chanceler estavam a bordo do USS Nimitz, um porta-aviões nuclear de 100.000 toneladas - um dos símbolos mais claros do poderio militar dos EUA - posicionado a cerca de 150 quilómetros de Montevideu, dentro da Zona Económica Exclusiva (ZEE) do Uruguai.
As reacções do PIT-CNT não tardaram. A central sindical condenou com firmeza a visita do presidente ao USS Nimitz, afirmando que o gesto de saudar “o porta-aviões nuclear da marinha ianque” evocava atitudes antes adoptadas por governos de extrema-direita do Chile e da Argentina.
Também a partir do próprio gabinete surgiram críticas. O ministro do Trabalho, em declarações à rádio Carve, recordou que o Uruguai tem, historicamente, uma posição contrária às guerras e à violação de soberanias, e alertou: “parece difícil de explicar que, ao mesmo tempo que sustentamos esse discurso, visitemos um navio de guerra”.
Já a oposição concentrou a contestação no plano constitucional. O debate centrou-se no artigo 85 da Constituição e na questão de saber se seria necessária autorização expressa do Poder Legislativo para a entrada da aeronave norte-americana que transportou a comitiva presidencial. Responsáveis do governo defenderam que o caso se enquadrava no regime de excepção previsto, por se tratar de forças que entravam apenas para prestar honras, o que permitiria ao Poder Executivo decidir sem passar pelo Parlamento.
Este tipo de controvérsia, recorrente na política uruguaia, tende a ser filtrado pelo alinhamento de cada campo - governo versus oposição. Aqui, o Executivo optou deliberadamente por não abrir uma discussão parlamentar - e muito menos pública - consciente de que a maior resistência poderia surgir dentro da sua própria força política. Daí a opção por gerir a visita com discrição e apenas confirmar a agenda no último momento.
Realismo de Estado face à retórica partidária
Como Zona Militar assinalou, as visitas dos presidentes do Chile e da Argentina ao navio emblemático estabeleceram um enquadramento de actuação complexo - “marcando o terreno” - para o governo uruguaio. Essa circunstância colocou, de certa forma, uma encruzilhada: como equilibrar os impactos na política externa com os custos na política interna, sobretudo no que toca à coesão dentro da Frente Ampla.
Do ponto de vista das relações internacionais, o facto de dois chefes de Estado da região não só aceitarem o convite como o fazerem com elevada visibilidade criou uma pressão difícil de contornar. A menos que existissem razões de Estado de peso, agir de forma diferente seria lido como um sinal inequívoco de afastamento da relação bilateral com os Estados Unidos. No contexto geopolítico actual, isso comportava riscos relevantes, dada a sensibilidade da administração Trump a sinais de alinhamento por parte dos países da região.
No plano interno, o episódio encaixa na dialéctica política uruguaia. O discurso anti-imperialista tradicional do oficialismo colidiu com a imagem do presidente a visitar um porta-aviões, um gesto que já tinha sido feito pelos seus homólogos do Chile e da Argentina. A coincidência com líderes de direita acrescentou carga simbólica ao momento. Ainda assim, este tipo de pragmatismo não é novo: a experiência da Frente Ampla no governo inclui antecedentes de moderação, sendo a relação Vázquez–Bush o exemplo mais citado. Mais uma vez, a retórica partidária seguiu por uma via diferente da acção presidencial, na qual Orsi escolheu o realismo de Chefe de Estado acima da sua condição de dirigente partidário.
A decisão do presidente Orsi, na prática, foi uma manobra de último recurso com peso estratégico. Embora o anúncio do deslocamento do USS Nimitz tenha surpreendido pelo curto prazo de coordenação face aos padrões do Pentágono, o resto da região reagiu rapidamente. Países com governos de orientação ideológica semelhante, como o México ou a Colômbia, não só autorizaram e realizaram exercícios militares, como também embarcaram os seus próprios oficiais navais a bordo do porta-aviões. O Uruguai, por outro lado, não respondeu aos convites para exercícios de passagem (PASSEX) nem para embarcar oficiais navais. Neste cenário - e depois de o porta-aviões ter passado pelas águas (ZEE) do México, El Salvador, Panamá, Colômbia, Equador, Peru, Chile e Argentina, com resultados bilaterais considerados bem-sucedidos - a visita oficial de Orsi surgiu como a última alternativa disponível para sinalizar um posicionamento internacional do país e evitar um desaire injustificado perante Washington.
O espelho brasileiro e o pragmatismo de Lula
Estas decisões, porém, não devem ser avaliadas apenas pelo impacto imediato, mas também pelos seus efeitos a médio e longo prazo. E, apenas dez dias depois, as medidas adoptadas pelo governo brasileiro acrescentaram novos elementos à leitura estratégica do gesto do presidente uruguaio.
No âmbito da operação Southern Seas 2026, o Brasil adoptou um realismo político claro. Vale a pena observar como o governo de Lula da Silva, apesar da sua retórica confrontacional e de ter chamado Donald Trump de ‘Senhor da Guerra’, colocou os interesses estratégicos acima das divergências ideológicas. Tendo em conta atritos anteriores - que incluíram a revogação de vistos a funcionários e a expulsão de um diplomata norte-americano -, Brasília não só autorizou a escala do USS Nimitz no Rio de Janeiro, como a sua marinha se integrará nos exercícios militares com o porta-aviões dos EUA. O auge desse pragmatismo ocorreu a 7 de maio: no momento em que o porta-aviões entrava na Baía de Guanabara, o presidente brasileiro dialogava na Casa Branca com o seu homólogo norte-americano, numa reunião que Lula descreveu como um avanço substancial para a relação bilateral.
À luz do comportamento do Brasil e da posição assumida por outras nações do continente - incluindo governos de esquerda -, a visita de Orsi ao USS Nimitz deve ser entendida como um acto pragmático. Ainda que tenha sido utilizada como último recurso, a manobra alinhou-se com a dinâmica regional. Recusar o convite teria colocado o Uruguai numa posição diplomática excepcional e isolada. Assim, enquanto o oficialismo preservou a sua retórica histórica de confronto, Orsi escolheu actuar como Chefe de Estado, privilegiando a estabilidade da relação bilateral com Washington.
Fotografias da Marinha dos EUA.
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