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Synthetic Human Genome (SynHG): cientistas pretendem reconstruir o genoma humano

Equipe de cientistas em laboratório a analisar uma representação digital da molécula do ADN.

Sequenciar um genoma humano completo já é, por si só, um desafio enorme; ainda assim, há investigadores a tentar ir mais longe e reconstruir o material genético da nossa espécie desde a base.

O projecto Synthetic Human Genome (SynHG): uma nova tentativa de construir ADN humano

Essa aposta, ambiciosa e polémica, chama-se Synthetic Human Genome (SynHG) project, e o trabalho para uma prova de conceito já arrancou.

A meta desta fase inicial é partir do “mapa” do genoma humano para escrever, de forma artificial, o código genético de uma única cadeia de ADN extremamente longa, correspondente a apenas um dos nossos cromossomas - o que representa cerca de 2% de todo o genoma.

Antes de ser produzido em laboratório, o ADN será desenhado integralmente em formato digital.

Para quem defende a iniciativa, o SynHG pode abrir caminho a uma verdadeira revolução na genética: ajudar a transformar a compreensão do ADN humano e, potencialmente, permitir terapias baseadas em células concebidas à medida e transplantes de tecidos resistentes a vírus.

Impulsionado por estas promessas de futuro, o Wellcome Trust - uma das maiores fundações de investigação científica do mundo - anunciou esta semana que vai financiar a iniciativa SynHG com £10 milhões (aproximadamente US$13.7 milhões).

Os investigadores por detrás do projecto, oriundos das Universidades de Oxford, Kent, Manchester e Cambridge, bem como do Imperial College London, disseram à BBC que "o céu é o limite". O objectivo é construir um cromossoma humano totalmente sintético nos próximos cinco a 10 anos.

"A capacidade de sintetizar genomas de grande dimensão, incluindo genomas para células humanas, pode transformar a nossa compreensão da biologia do genoma e alterar profundamente os horizontes da biotecnologia e da medicina", afirma o líder do projecto e biólogo molecular Jason Chin, do Ellison Institute of Technology e de Oxford.

"Com o SynHG estamos a construir as ferramentas para tornar a síntese de genomas de grande dimensão uma realidade."

O que pode permitir - e os obstáculos científicos

Ainda assim, alguns cientistas independentes questionam se o SynHG conseguirá chegar tão longe, mesmo recorrendo às tecnologias mais avançadas de IA generativa e a sistemas sofisticados de montagem robótica.

O geneticista Robin Lovell-Badge, premiado e investigador do Francis Crick Institute, que não participa no SynHG, diz estar "muito entusiasmado" com a iniciativa, uma vez que "só é possível compreender verdadeiramente algo se o conseguirmos construir a partir do zero".

No entanto, acrescenta que, apesar de tudo o que foi aprendido desde que o genoma humano foi totalmente sequenciado e lido em 2003, ainda há um longo caminho a percorrer até ser possível construir um genoma completo.

Hoje, os únicos genomas criados integralmente pelo ser humano desde o início pertencem a organismos unicelulares que têm, no máximo, 16 cromossomas, constituídos por cerca de 12 milhões de pares de bases. Mesmo esse marco exigiu aproximadamente uma década de trabalho intenso.

Em comparação, os seres humanos têm, tipicamente, mais de 30 biliões de células, com 46 cromossomas e 3 mil milhões de pares de bases. Quem pode prever quanto tempo será necessário para desfazer e compreender um grau de complexidade deste nível?

"Quanto aos cromossomas humanos sintéticos, embora seja muito improvável que o projecto actual chegue tão longe, poderá vir a ser possível criar células sintéticas que possam ser cultivadas em laboratório com grande eficiência", afirma Lovell-Badge.

"No entanto, não há qualquer sugestão de criar humanos sintéticos. Não fazemos ideia de como o fazer e é provável que isso seja muito inseguro."

Ética e debate público em torno do SynHG

Embora os detalhes ainda não sejam totalmente claros, a equipa do SynHG afirma estar a trabalhar com especialistas do meio académico, da sociedade civil, da indústria e da definição de políticas públicas, para avaliar as implicações éticas, legais e sociais associadas à investigação.

Iniciativas deste tipo tendem a alimentar debates sociais e éticos sobre possibilidades e consequências em matérias complexas de saúde e reprodução - desde o direito de criar bebés "de design" até à própria definição de eugenia.

"Temos de reconhecer que este tipo de trabalho não está livre de controvérsia, e por isso é essencial que investigadores e público comuniquem entre si", afirma Sarah Norcross, directora do Progress Educational Trust (PET), uma instituição de apoio a pessoas afectadas por doenças genéticas.

"O público tem de compreender com clareza em que consiste esta investigação, ao mesmo tempo que investigadores e financiadores precisam de ter uma compreensão aprofundada sobre até onde o público quer levar esta ciência."

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