A maioria das pessoas que já ouviu falar de kratom acha que sabe quem o consome: sobretudo adultos. Pessoas a lidar com dor crónica ou a tentar reduzir o uso de opioides.
Não é o tipo de substância que se imagina a aparecer na mochila de um adolescente de 14 anos.
Só que um novo inquérito nacional veio abalar essa ideia. Os números são mais elevados, envolvem idades mais baixas e estão mais ligados à dependência do que se pensava.
Consumo de kratom por americanos
Por trás de frascos e gomas está uma planta originária do Sudeste Asiático chamada kratom. As suas folhas contêm mitraginina, um composto vegetal que se liga aos mesmos recetores cerebrais que os opioides.
O Dr. Sean Esteban McCabe, professor na Escola de Enfermagem da Universidade do Michigan, realizou a primeira análise nacional do consumo de kratom por americanos.
Até agora, nenhum trabalho tinha estimado a prevalência nos EUA a esta escala, nem a tinha relacionado de forma tão direta com saúde mental e dependência.
Para isso, a equipa do Dr. McCabe analisou quatro anos de dados do Inquérito Nacional sobre o Consumo de Drogas e Saúde, que inclui indivíduos com 12 ou mais anos.
Mais de 5 million pessoas dizem já ter experimentado kratom em algum momento. Nesse total estão mais de 100,000 crianças entre os 12 e os 17 anos.
Quem está a usar kratom?
Os adultos entre os 21 e os 34 anos foram o grupo que reportou as taxas mais altas de consumo. Cerca de 3.4 por cento afirmou ter usado kratom pelo menos uma vez, e aproximadamente 1 por cento no último ano.
Considerando todas as idades, o consumo ao longo da vida subiu de 1.6 por cento em 2021 para 1.9 por cento em 2024.
No papel, a variação pode parecer modesta. No entanto, num país com 340 million habitantes, essa diferença representa centenas de milhares de utilizadores adicionais em apenas três anos.
Outra conclusão importante: o kratom raramente aparece isolado.
Cerca de dois terços dos utilizadores de kratom também referiram consumo de canábis no último ano, e uma proporção menor relatou uso indevido de medicamentos sujeitos a receita, como opioides ou estimulantes.
O marketing do kratom chega às crianças
O dado que mais sobressaiu para a equipa foi a presença de 100,000 crianças entre os 12 e os 17 anos que já tinham usado kratom - um valor que ninguém antecipava antes deste inquérito.
As crianças não estão a obter kratom através de farmácias ou prescrições médicas. Muitos produtos são vendidos em lojas de artigos para fumar ou através de aplicações no telemóvel.
Com frequência, surgem sob a forma de comprimidos com sabor a fruta, gomas ou pequenas bebidas em dose (shots) com embalagens chamativas, fáceis de confundir com doces ou suplementos energéticos.
As autoridades federais têm emitido alertas repetidos precisamente por causa desse apelo, sobretudo nas formas concentradas, vendidas com sabores e apresentação pensados para consumidores mais jovens.
“São necessárias mudanças de política relativamente ao kratom e aos produtos 7-OH em todos os estados se levarmos a sério a proteção das nossas crianças”, afirmou o Dr. McCabe.
A sobreposição com a saúde mental
Entre as pessoas que tinham usado kratom nos anos anteriores ao inquérito, mais de metade cumpria critérios de diagnóstico para uma perturbação por uso de substâncias no último ano.
É esta ligação que torna o estudo diferente do que existia antes.
Um pouco menos de 38 por cento apresentava sinais de sofrimento psicológico grave.
Depressão major e ideação suicida surgiram com frequências superiores às observadas na população geral. O mesmo padrão também se verificou entre utilizadores atuais.
Os investigadores foram cautelosos nesta leitura: dados de inquérito não permitem concluir se o consumo de kratom ocorreu primeiro ou se os sintomas de saúde mental já existiam.
O que os resultados mostram é que ambos aparecem em simultâneo muito mais vezes do que seria expectável por acaso, mesmo depois de ajustarem a análise ao consumo de outras drogas.
Mais potente do que a morfina
Há ainda uma preocupação paralela relacionada com o 7-OH, abreviatura de 7-hydroxymitragynine.
Este é o composto mais potente do kratom: existe apenas em quantidades residuais na folha crua, mas é fortemente concentrado em alguns produtos comerciais.
Os efeitos do kratom semelhantes aos dos opioides estão associados à ação do 7-OH.
Em testes laboratoriais e em animais, o composto ativa recetores opioides com mais força do que a morfina, embora os dados em humanos sejam limitados.
Alguns concentrados comerciais podem ser cinco a 50 vezes mais fortes do que o kratom regular.
Na promoção destes produtos, é comum aparecer a expressão “morfina legal”. As autoridades federais pediram à DEA que classifique o 7-OH concentrado como substância controlada.
O consumo de kratom é proibido em alguns estados
Cerca de metade dos estados dos EUA proíbe ou regula o consumo de kratom. Os restantes deixam-no, em grande medida, sem intervenção. Uma goma com 7-OH comprada numa bomba de gasolina num estado pode traduzir-se numa contraordenação noutro, logo após atravessar a fronteira.
Alguns estados impõem limites às concentrações de 7-OH. Outros exigem verificação de idade. E alguns, como Alabama e Wisconsin, proíbem totalmente o consumo de kratom.
Uma revisão recente do panorama estado a estado parece mais uma colcha de retalhos do que uma política coerente.
Segundo o Dr. McCabe, esta fragmentação complica praticamente tudo: mensagens de prevenção, rastreio clínico e até a questão básica de quem está a vender o quê - e a quem.
Além disso, os testes toxicológicos de rotina nem sequer detetam kratom sem painéis especializados.
O que pode mudar a seguir
A novidade trazida por este inquérito é a existência de um número sólido onde antes havia apenas estimativas. Os EUA contam com mais de 5 million utilizadores de kratom ao longo da vida, com crianças incluídas nos dados e uma subida rápida da proporção total.
Para os médicos, kratom e 7-OH passam a merecer lugar nas listas de admissão clínica, ao lado de álcool, canábis e opioides sujeitos a receita.
Para legisladores estaduais, o inquérito fornece evidência ao nível populacional para sustentar decisões.
O valor de 5 million chamou a atenção do Dr. McCabe, que sublinhou que ultrapassa a soma das populações de Wyoming, Vermont, Alaska, South Dakota, North Dakota e Delaware.
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