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Remediação cognitiva em realidade virtual na Universidade de Copenhaga melhora a cognição na vida diária

Jovem a usar óculos de realidade virtual e a cozinhar numa cozinha moderna com holograma na frigideira.

Uma pessoa com perturbação bipolar bem controlada pode tomar a medicação, manter-se estável, evitar internamentos e seguir uma rotina regular.

Ainda assim, pode perder-se a meio de uma tarefa com vários passos ou entrar numa divisão e esquecer-se por completo do motivo que a levou até lá.

Este tipo de “derrapagem” cognitiva é frequente mesmo quando os sintomas mais evidentes estão controlados.

A psiquiatria tem tido dificuldade em tratar este problema e em criar soluções novas. No entanto, uma equipa na Dinamarca decidiu abordar a questão por outra via.

A doença mental compromete a função cognitiva

A depressão, a perturbação bipolar e a esquizofrenia podem ir desgastando a cognição de forma discreta, mesmo muito depois de os sintomas abrandarem.

Memória, atenção, planeamento e velocidade de processamento são ferramentas mentais básicas para gerir o quotidiano.

Muitas perturbações mentais afetam estas capacidades durante bastante tempo após a melhoria dos sintomas. Esse impacto torna-se visível em detalhes do dia a dia.

Uma receita pode ficar a meio ou uma consulta pode ser esquecida. Para muitos doentes, estas dificuldades tornam a vida independente muito mais exigente.

A remediação cognitiva existe para reduzir défices cognitivos através de prática orientada e de estratégias de aprendizagem.

O problema da transferência

Os programas tradicionais de remediação cognitiva tendem a apoiar-se em exercícios no computador ou em folhas de papel. Mesmo quando os resultados em testes melhoram, a vida real muitas vezes não acompanha.

Foi precisamente esta discrepância que o Dr. Andreas Elleby Jespersen e os seus colegas da Universidade de Copenhaga (UCPH) quiseram compreender.

Em colaboração com a investigadora sénior Kamilla Woznica Miskowiak, a equipa desenvolveu um programa dentro de um dispositivo de realidade virtual (RV) totalmente imersivo.

Os cenários virtuais recriavam aqueles momentos frustrantes do quotidiano em que as dificuldades cognitivas se tornam mais evidentes.

As simulações reproduziam tarefas comuns, como preparar uma refeição, exigindo que os doentes seguissem sequências de passos e se lembrassem dos ingredientes corretos.

O raciocínio foi simples: se o treino se aproximasse do que acontece fora da clínica, aumentariam as probabilidades de o doente conseguir aplicar as competências na sua própria vida.

Dentro da cozinha virtual

Um estudo-piloto anterior do mesmo grupo já tinha sugerido que a abordagem de treino em RV era bem tolerada e motivadora.

O novo programa incluiu dez sessões orientadas ao longo de quatro semanas, sempre conduzidas por um terapeuta.

Os doentes colocavam uma viseira de 360 graus e avançavam por cenas de cozinha virtuais.

Em cada cena, era associada uma tarefa a uma estratégia específica. Os participantes eram incentivados a abrandar para ganhar precisão, a agrupar ingredientes para facilitar a memorização ou a dividir tarefas maiores em passos mais pequenos.

O doente entrava na simulação, tentava cumprir a tarefa e, depois, retirava a viseira para discutir o que tinha resultado.

De seguida, voltava a entrar na simulação e repetia o exercício, com o terapeuta a orientar o processo.

Realidade virtual posta à prova

A equipa recrutou 62 doentes em ambulatório, com idades entre 18 e 55 anos, com depressão unipolar, perturbação bipolar ou uma perturbação do espectro das psicoses.

Todos apresentavam problemas mensuráveis de memória e de pensamento. No momento da entrada no estudo, os sintomas estavam, na generalidade, controlados.

O ensaio recorreu a avaliadores cegos, ou seja, as pessoas que mediam os resultados não sabiam quem pertencia a cada grupo.

Metade recebeu a remediação cognitiva em RV. O outro grupo recebeu uma versão simulada.

Esse segundo grupo utilizou o mesmo dispositivo, teve o mesmo tempo com um terapeuta e participou no mesmo número de sessões. No entanto, não houve trabalho com estratégias dirigidas.

Resultados reveladores do ensaio

Ao fim de quatro semanas, o grupo treinado apresentou melhorias significativamente superiores às do grupo de controlo.

Os ganhos mais expressivos surgiram na principal medida do estudo: um teste cognitivo de “mundo real”, construído a partir de um cenário diferente de cozinha virtual. Essas melhorias mantiveram-se na avaliação de seguimento.

Quem treinou com a viseira passou a processar melhor a informação necessária para cozinhar, a planear e a executar tarefas com vários passos.

No grupo com a intervenção simulada, estes ganhos não apareceram com a mesma força.

Os doentes referiram ter gostado das sessões - um aspeto relevante numa área em que a adesão ao treino cognitivo muitas vezes falha.

Alterações na função cerebral

Até este estudo, nada tinha demonstrado que um treino imersivo em RV melhorasse, de forma específica, a capacidade cognitiva aplicável à vida real em doentes com doença mental.

Um artigo de imagiologia cerebral do mesmo grupo identificou alterações na atividade cerebral que acompanhavam os ganhos cognitivos.

Os dados sugeriram que as melhorias podem refletir mudanças reais na forma como o cérebro processa informação. O significado exato dessas alterações ainda está a ser clarificado.

Em conjunto, o ensaio e os dados de imagiologia oferecem, até agora, o retrato mais completo do que o treino cognitivo em RV consegue alcançar.

Direções para investigação futura

O comprometimento cognitivo é um dos mais fortes preditores de como pessoas com perturbações do humor ou psicoses funcionam no dia a dia. Os tratamentos atuais raramente o visam de forma direta.

Um programa de RV escalável poderia dar aos clínicos uma alternativa nova, integrável nos cuidados existentes e com maior probabilidade de envolver os doentes.

A equipa de Copenhaga já está a expandir este trabalho para outros grupos de doentes. Os próximos passos incluem combinar o treino em RV com fármacos que possam potenciar a aprendizagem.

Por agora, o ensaio indica que o treino cognitivo em realidade virtual pode produzir melhorias que se transferem para as exigências do quotidiano.

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