Um novo estudo encontrou indícios de uma ligação cerebral que pode ajudar a explicar porque é que a síndrome de Tourette se sobrepõe frequentemente a outras condições neuropsiquiátricas, como o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), e poderá vir a abrir caminho a tratamentos mais eficazes.
A investigação foi liderada por uma equipa da Universidade de Kobe, no Japão, que recorreu a um modelo em ratinhos com movimentos semelhantes a tiques para analisar os circuitos cerebrais por detrás dos movimentos involuntários típicos da Tourette.
"Acreditamos que o circuito neuronal que encontrámos desempenha um papel crucial como ponte, ligando regiões do cérebro que antes se pensava atuarem de forma independente umas das outras", afirma o neurofisiologista Yoshihisa Tachibana, da Universidade de Kobe.
O circuito cerebral entre gânglios da base, tálamo e córtex insular
Combinando várias técnicas de rastreio de neurónios, os investigadores identificaram um trajeto ativo entre uma grande região de controlo do movimento (os gânglios da base) e um centro importante do processamento emocional (o córtex insular).
Um aspeto decisivo é que este trajeto passa pelo tálamo, uma das principais estações de retransmissão do cérebro, e em particular pelos núcleos talâmicos intralaminares - pontos responsáveis por encaminhar a atividade neuronal para os locais apropriados.
Para testar a relevância funcional desta ligação, a equipa utilizou um fármaco desenvolvido para bloquear a conexão do tálamo ao córtex insular. Com este bloqueio, os tiques nos ratinhos tornaram-se muito menos intensos e, ao mesmo tempo, os sinais cerebrais associados ficaram atenuados, reforçando a importância deste circuito.
Evidência anterior e o que faltava compreender
Trabalhos anteriores já tinham sugerido que o córtex insular - uma região associada ao TOC - participava na síndrome de Tourette e poderia estar relacionado com tiques involuntários. No entanto, até aqui não tinha ficado estabelecida a “cablagem” cerebral pela qual os sinais de movimento alterados eram transportados.
Um estudo anterior mostrou ainda que uma goteira dentária concebida para ativar os músculos da mandíbula pode aliviar tiques da Tourette através do córtex insular - resultados que inspiraram parcialmente esta nova investigação. Com mais detalhe do circuito neuronal agora mapeado, passa a ser possível procurar formas de o visar de modo mais direcionado.
Síndrome de Tourette, TOC e outras comorbilidades
Sabe-se que a síndrome de Tourette e o TOC surgem muitas vezes em conjunto - tal como outras condições neuropsiquiátricas, incluindo autismo e PHDA (perturbação de hiperatividade e défice de atenção) - o que sugere a existência de regiões cerebrais interligadas.
A Tourette também envolve a acumulação de impulsos mentais "premonitórios", que antecedem os tiques e, em geral, são aliviados por eles, apontando para o facto de a síndrome não se limitar apenas ao controlo do movimento.
À luz da nova descoberta, os autores propõem um mecanismo pelo qual sinais motores anormais podem “transbordar” para regiões cerebrais envolvidas no processamento emocional, e consideram que isto ajuda a explicar, em parte, a sobreposição da Tourette com outras condições.
"A atividade anormal do córtex insular em doentes com síndrome de Tourette pode contribuir não só para sintomas motores, como os tiques, mas também para impulsos premonitórios e perturbações psiquiátricas comórbidas, incluindo TOC, PHDA e PEA", escreve a equipa.
"No entanto, como os roedores não conseguem relatar impulsos premonitórios, o presente modelo deve ser interpretado como captando características selecionadas de comportamentos semelhantes a tiques."
Implicações para tratamentos, da estimulação cerebral profunda aos ultrassons
Compreender melhor o que acontece no cérebro poderá, mais à frente, apoiar o desenvolvimento de tratamentos. A estimulação cerebral profunda do tálamo já é utilizada em casos graves de Tourette, mas, até agora, os especialistas não estavam totalmente certos sobre o motivo pelo qual este método pode funcionar de forma tão eficaz.
"As perturbações de tiques, como a síndrome de Tourette, estão entre as condições neuropsiquiátricas mais comuns e têm um impacto significativo na vida das crianças", diz Tachibana.
"No entanto, os seus mecanismos neuronais subjacentes continuam a ser mal compreendidos."
Cada novo estudo publicado sobre Tourette e TOC acrescenta peças a um quadro mais amplo do que se passa no cérebro ao nível mais fundamental - e de como impulsos difíceis de explicar e ações involuntárias acabam por assumir o controlo.
Ainda será necessário tempo para perceber de que forma este nó de retransmissão cerebral poderá ser manipulado para gerir os pensamentos e os movimentos associados à Tourette - até porque esta ligação específica só agora foi identificada -, mas o potencial está presente.
Uma hipótese é que um efeito calmante semelhante sobre a via entre os gânglios da base e o córtex insular, possivelmente com recurso a ultrassons, possa ajudar a controlar os tiques. Ainda assim, antes disso, será necessário alargar a investigação para além dos modelos em ratinhos e avançar para estudos em doentes humanos.
"A estimulação cerebral profunda atualmente usada é invasiva e acarreta risco de complicações", afirma Tachibana.
"Por outro lado, intervenções direcionadas no processamento neuronal do circuito que identificámos, como a neuromodulação por ultrassons, podem ser opções para desenvolver métodos de tratamento menos invasivos e mais seguros."
O estudo foi publicado na Cell Reports.
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