As doenças mentais são há muito vistas como problemas de saúde de grande impacto público. No entanto, quem toma medicação para depressão, perturbação bipolar ou esquizofrenia pode carregar, sem o saber, um risco adicional: uma maior probabilidade de morte súbita cardíaca. Uma análise dinamarquesa feita com milhões de segurados trouxe novos números preocupantes, com valores especialmente alarmantes entre os mais novos e nos tratamentos de longa duração.
Morte súbita cardíaca: o que realmente acontece
A morte súbita cardíaca atinge, na maioria das vezes, sem qualquer aviso. O coração deixa de bater de forma abrupta, e o sangue e o oxigénio deixam de chegar ao cérebro e aos pulmões. Em segundos, a pessoa colapsa e, pouco depois, a respiração para.
Estes acontecimentos podem, em teoria, acontecer a qualquer pessoa - durante o sono, no sofá ou enquanto corre. Em França, estima-se que morram cerca de 60.000 pessoas por ano devido a este problema, e valores semelhantes são debatidos também para outros países industrializados.
- Em pessoas com menos de 40 anos, costumam estar em primeiro plano doenças congénitas do músculo cardíaco ou alterações elétricas do ritmo cardíaco.
- Nas faixas etárias mais elevadas, o principal fator costuma ser a calcificação e o estreitamento das artérias coronárias.
- Em todas as idades, há um grupo que chama a atenção de forma particular: as pessoas com doenças mentais.
Estudos mostram que quem sofre de perturbações mentais graves apresenta, em geral, um risco cerca de duas vezes superior de morte súbita cardíaca face à população em geral.
Durante muito tempo, não ficou claro se o problema vinha sobretudo da própria doença ou da medicação. É precisamente aqui que entra a investigação dinamarquesa.
Grande estudo dinamarquês: quem foi analisado?
Os investigadores examinaram os dados de todas as pessoas entre os 18 e os 90 anos que viviam na Dinamarca em 2010 - no total, cerca de 4,3 milhões de indivíduos. Foram consultados certificados de óbito e relatórios de autópsia para identificar casos de morte súbita cardíaca.
Em paralelo, a equipa analisou quem tinha sido medicado com antidepressivos. Foi considerada “exposta” a pessoa que, num período de 12 anos, recebeu prescrição de um antidepressivo pelo menos duas vezes por ano. Deste modo, surgiram dois grupos:
- Pessoas com 1 a 5 anos de tratamento com antidepressivos
- Pessoas com 6 ou mais anos de tratamento com antidepressivos
Os resultados foram apresentados num congresso de cardiologia da European Heart Rhythm Association e, mais tarde, publicados numa revista científica.
Os números duros por trás do risco
Das 4,3 milhões de pessoas, 643.999 tinham tomado antidepressivos pelo menos uma vez. Em 2010, morreram 45.703 pessoas, das quais 6.002 por morte súbita cardíaca. Entre essas 6.002 vítimas, 1.981 pertenciam ao grupo que tinha tomado antidepressivos.
Consoante a faixa etária, a taxa de morte súbita cardíaca em doentes com doenças mentais foi entre 1,79 e 6,45 vezes superior à da população em geral.
A única exceção estatística clara surgiu no grupo mais jovem, dos 18 aos 29 anos. Em quase todas as outras faixas etárias, verificou-se, pelo contrário, um aumento inequívoco do risco.
Quanto aumenta o risco com a duração da toma dos antidepressivos?
A análise tornou-se particularmente interessante quando os dados foram organizados pela duração do tratamento e foram retirados fatores de influência conhecidos, como idade, sexo e outras doenças.
| Grupo etário | Duração da toma de antidepressivos | Risco de morte súbita cardíaca em comparação com a população em geral |
|---|---|---|
| 30–39 anos | 1–5 anos | cerca de 3 vezes superior |
| 30–39 anos | 6+ anos | cerca de 5 vezes superior |
| 50–59 anos | 1–5 anos | cerca de 2 vezes superior |
| 50–59 anos | 6+ anos | cerca de 4 vezes superior |
| 70–79 anos | 1–5 anos | cerca de 1,8 vezes superior |
| 70–79 anos | 6+ anos | cerca de 2,2 vezes superior |
No conjunto de todas as idades, quem estava em tratamento com antidepressivos há 1 a 5 anos apresentou um risco cerca de 56% mais elevado. Quando a toma ultrapassava 6 anos, o risco duplicava aproximadamente.
Um subgrupo destacou-se de forma especial: as pessoas com perturbações esquizofrénicas. Neste grupo, o risco de morte súbita cardíaca foi cerca de 4,5 vezes superior ao observado na restante população.
Os medicamentos causam a doença - ou é a doença em si?
O estudo mostra associações claras, mas não permite apontar um único culpado. Há várias explicações possíveis.
O papel da doença mental
As depressões graves e outras psicoses interferem profundamente com a vida diária. Muitas pessoas mexem-se menos, fumam com maior frequência do que a média, alimentam-se pior e ignoram durante mais tempo os sinais de alarme do corpo. Além disso, chegam mais tarde ao médico de família ou ao cardiologista.
A depressão aumenta o risco de doenças cardíacas em cerca de 60% - mesmo sem qualquer efeito de medicação.
A isto juntam-se hormonas do stress, perturbações do sono e uma tensão interna permanentemente elevada. Tudo isto pesa sobre o sistema cardiovascular. Assim, a doença pode ser uma parte do risco que depois se torna especialmente visível em quem toma antidepressivos.
Possíveis efeitos dos próprios antidepressivos
Ao mesmo tempo, a farmacologia também entra na equação. Alguns antidepressivos alteram a atividade elétrica do coração e podem prolongar o chamado intervalo QT no eletrocardiograma. Em casos raros, isso aumenta a tendência para ritmos cardíacos perigosos.
Outros fármacos favorecem o aumento de peso, elevam os lípidos no sangue ou sobem a glicemia. Ao longo dos anos, pode instalar-se uma síndrome metabólica - um conjunto de excesso de peso, tensão arterial elevada, alterações do metabolismo das gorduras e resistência à insulina. Este quadro, por sua vez, acelera a aterosclerose e aumenta o risco de enfarte.
Os investigadores dinamarqueses não distinguiram na análise entre classes específicas de substâncias, como os inibidores seletivos da recaptação da serotonina, os antidepressivos tricíclicos ou os inibidores da MAO. Além disso, muitos doentes mudaram de medicamento ao longo dos anos. Estudos futuros deverão aprofundar esta questão e analisar também as diferenças entre homens e mulheres.
Deve deixar-se de tomar antidepressivos?
De forma muito clara: não. Os autores do estudo afirmam expressamente que os seus dados não devem ser interpretados como um apelo para interromper o tratamento. Cardiologistas também alertam para decisões precipitadas.
Um antidepressivo eficaz pode melhorar de forma muito acentuada a qualidade de vida - e pode até tornar mais fácil, para a pessoa, tomar decisões mais saudáveis para o coração.
Quando alguém está mais estável, tende a mexer-se mais, a conseguir deixar de fumar com maior facilidade e a comparecer com mais regularidade nas consultas e exames. Tudo isso protege o coração. Já uma suspensão sem supervisão pode desencadear recaídas, ideias suicidas e novas internamentos hospitalares - com riscos próprios, por vezes também fatais.
A abordagem mais sensata é pensar em simultâneo na saúde mental e na saúde cardíaca. Médicos de família, psiquiatras e cardiologistas devem trabalhar de forma mais estreita quando existe tratamento prolongado com antidepressivos.
O que os doentes podem fazer na prática
Quem toma antidepressivos pode contribuir ativamente para proteger o coração da melhor forma possível:
- Mandar controlar regularmente a tensão arterial, o colesterol e a glicemia no consultório
- Vigiar o peso e, se houver um aumento significativo, falar com a médica ou o médico
- Integrar mais movimento no dia a dia: até 30 minutos de caminhada rápida na maioria dos dias já ajudam
- Estar atento a sinais de alerta: dores no peito, falta de ar e palpitações devem ser avaliadas por um profissional de saúde
- Não alterar a dose nem interromper o medicamento por iniciativa própria; qualquer mudança deve ser planeada com a pessoa que acompanha o tratamento
Em muitos casos, também é possível afinar o tratamento antidepressivo: alguns doentes toleram melhor certos grupos de substâncias do ponto de vista cardíaco do que outros. Uma revisão da medicação - sobretudo quando a toma é prolongada e quando existem vários medicamentos ao mesmo tempo - vale a pena.
Porque é que este tema toca diretamente milhões de pessoas
Na Europa Ocidental, a utilização de antidepressivos está há vários anos entre os grupos de medicamentos que mais crescem. Em alguns países, são prescritas perto de 60 doses diárias definidas por 1.000 habitantes por dia - um valor de topo no contexto internacional.
Isto coloca no centro da discussão a forma como um tratamento de longa duração, aplicado a milhões de pessoas, afeta o coração e a circulação. O estudo dinamarquês deixa aqui uma indicação clara: saúde mental e saúde cardíaca não podem ser pensadas separadamente. Quem prescreve antidepressivos tem de ter o coração em consideração - e quem os toma deve conhecer os seus riscos sem entrar em pânico.
Na prática, isto significa mais informação nas consultas, mais avaliação individual do risco, mais atenção ao estilo de vida e às doenças associadas - e uma visão realista de que o tratamento da depressão pode trazer efeitos secundários, mas muitas vezes também cria as condições para que um coração fragilizado tenha finalmente oportunidade de recuperar.
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