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Aves urbanas na Europa afastam-se mais depressa quando uma mulher se aproxima

Mulher caminha num parque com pombos a voar e outras aves no chão num dia de sol.

Os observadores de aves do sexo masculino podem ter uma vantagem inesperada quando tentam aproximar-se discretamente para ver melhor num parque urbano.

Cientistas ficaram recentemente surpreendidos ao descobrir que dezenas de aves comuns na Europa se mostram mais incomodadas quando quem se aproxima é uma mulher e não um homem.

Em ensaios realizados em França, Alemanha, Polónia, Espanha e Chéquia, a equipa verificou que as aves das cidades “desistiam” mais cedo quando era uma mulher a caminhar na sua direcção.

Em média, permitiam que os homens chegassem cerca de um metro mais perto antes de levantarem voo ou se afastarem a pé.

"Como mulher no terreno, fiquei surpreendida por as aves reagirem de forma diferente a nós", afirma a ecóloga Yanina Benedetti, da Universidade Checa de Ciências da Vida, em Praga.

"Muitos estudos de comportamento partem do princípio de que um observador humano é neutro, mas, no caso das aves urbanas do nosso estudo, isso não aconteceu."

Melros, piscos-de-peito-ruivo, estorninhos, tentilhões, corvos, pardais, pegas-rabudas, patos, gaios, pica-paus…

A espécie não pareceu fazer diferença. Todas apresentaram este viés a favor dos homens.

"Esta é, talvez, a parte mais interessante do nosso estudo", diz o biólogo Federico Morelli, da Universidade de Turim, em Itália.

"Identificámos um fenómeno, mas na verdade não sabemos porquê."

Humanos e aves na Europa: uma convivência antiga

Humanos e aves na Europa vivem em proximidade há dezenas de milhares de anos e, durante muito tempo, os investigadores consideraram que, num passado distante, os homens eram sobretudo caçadores e as mulheres recolhedoras.

Se assim foi, porque é que as aves europeias parecem menos desconfiadas e mais tolerantes em relação aos homens? Será possível que, na antiguidade, as mulheres caçassem com mais frequência estas presas de menor dimensão?

"Acredito plenamente nos nossos resultados, de que as aves urbanas reagem de forma diferente consoante o sexo da pessoa que se aproxima, mas não os consigo explicar neste momento", afirma o biólogo de conservação Daniel Blumstein, da Universidade da Califórnia, Los Angeles.

"Simplesmente, ainda não temos uma explicação conclusiva."

Por agora, só podemos especular. Os investigadores nem sequer sabem como é que as aves conseguem distinguir o sexo e/ou o género humanos.

O estudo comparou observadores homens e mulheres, mas não é claro se as aves estão a responder a diferenças fisiológicas entre os sexos ou a reagir a pistas associadas ao género.

Ainda assim, os investigadores tentaram limitar diferenças no aspecto e na forma de abordagem.

Como foi testada a aproximação a aves urbanas

Em cada observação, um par de participantes - um homem e uma mulher, com altura приблизada e vestidos com as mesmas cores - aproximava-se de uma ave.

Os dois alternavam também a vez de serem os primeiros a avançar. Cada observador caminhava na direcção da ave, em linha recta, a uma velocidade normal e constante. A cabeça e os olhos deviam manter-se fixos na ave, sem “passear” o olhar.

As observadoras não participaram no estudo durante a menstruação e, caso tivessem cabelo comprido, este tinha de ficar preso.

No total, os investigadores analisaram mais de 2.000 aproximações, abrangendo 37 espécies de aves. Tudo indica que as aves estavam a detectar diferenças subtis entre os humanos que se aproximavam.

"As aves urbanas reagem claramente a pistas subtis que os humanos não conseguem notar facilmente", diz Benedetti.

"Estudos de acompanhamento poderiam concentrar-se em factores individuais, como padrões de movimento, pistas de odor ou características físicas, testando-os separadamente em vez de os agrupar sob o sexo do observador. Esta abordagem ajudaria a identificar as pistas específicas que as aves detectam."

O olfacto e outras pistas possíveis

No passado, considerava-se que as aves não tinham grande sentido de olfacto, mas evidência recente contrariou essa ideia. Afinal, muitas aves têm sistemas olfactivos poderosos. Por isso, é possível que estejam a “cheirar” diferenças associadas ao sexo do humano que se aproxima.

Ratinhos de laboratório, por exemplo, são conhecidos por serem sensíveis aos cheiros diferentes de homens e mulheres. Há pouco mais de dez anos, cientistas descobriram que estes roedores sofrem maior stress quando são manuseados por homens.

Respostas de stress semelhantes ao sexo masculino humano também foram observadas em animais domesticados, como cavalos e vacas, e em animais em cativeiro, incluindo macacos.

Este novo trabalho com aves é, até agora, uma das melhores evidências de comportamentos semelhantes na natureza. Mas revelou exactamente o resultado oposto.

"Este estudo mostra como os animais nas cidades 'vêem' os humanos, o que tem implicações para a ecologia urbana e para a igualdade na ciência", afirma Benedetti.

Um observador de aves num parque da cidade pode achar que é o único a observar - mas estaria enganado.

O estudo foi publicado na revista People and Nature.

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