Gabriel Bernardino, atual presidente da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), não fez o caminho até à liderança a partir dos habituais círculos de influência. A infância e juventude passaram-se longe dos centros de decisão, no Bombarral, onde começou por construir as bases do percurso que mais tarde o levaria a liderar o supervisor.
Ao recordar as origens, sublinha: “Venho de uma família humilde de fruticultores. Fui um dos primeiros a licenciarem-se na família”. A formação académica - licenciatura em Matemática e mestrado em Estatística e Otimização - acabou por abrir portas a uma carreira com mais de 20 anos no sector dos seguros.
Gabriel Bernardino: do Bombarral ao topo da regulação (ASF, EIOPA e CMVM)
Antes de chegar à presidência da ASF, passou por funções de liderança no supervisor nacional e em estruturas europeias, incluindo a Autoridade Europeia dos Seguros e Pensões Complementares de Reforma (EIOPA), além de ter integrado a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Ao longo desse percurso, consolidou uma reputação assente na competência técnica e na aptidão para juntar posições e criar consensos.
Como aprendeu a liderar (na prática, com pessoas e cultura)
A forma como descreve a aprendizagem da liderança é marcadamente pragmática. “Não tive formação específica em gestão, fui aprendendo no terreno, com as pessoas com quem trabalhava. Tentando e errando, porque ninguém acerta à primeira”, admite.
Para Gabriel Bernardino, liderar não é um conceito abstrato: implica gerir pessoas, atravessar diferenças culturais e tomar decisões em contextos imperfeitos. “Toda a gente consegue fazer uma mudança de software, basta ter dinheiro. Já transformar pessoas e culturas é difícil”, sublinha o presidente da ASF.
A força da equipa
Essa visão ajuda a explicar a importância que atribui a equipas sólidas e com autonomia. “Só consegui fazer o caminho que fiz e ocupar os cargos que ocupei porque tive a sorte de poder construir equipas com pessoas dedicadas, competentes e conhecedoras”, afirma.
Também deixa claro que a liderança, para ser eficaz, exige abertura ao contraditório e capacidade para escutar o “não”: “É muito importante para o líder rodear-se de pessoas que lhe dizem não.”
Saúde e pressão nas lideranças
O percurso não foi feito apenas de etapas bem-sucedidas. Um dos episódios mais determinantes aconteceu quando saiu da CMVM por razões de saúde. “Foi a decisão mais difícil da minha carreira. Nunca desisti de nada, mas estava no limite do que era possível gerir e precisei de parar”, recorda.
Hoje, olha para esse momento com outra perspetiva: “pela primeira vez na minha vida coloquei à frente de tudo a questão pessoal e a saúde, que é fundamental”. E chama a atenção para um tema que, na sua opinião, continua pouco abordado: “há um estigma em relação à saúde das lideranças e é importante que se fale sobre isto”.
“Há um estigma em relação à saúde das lideranças e é importante que se fale sobre isto”, diz Gabriel Bernardino
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