O legislador francês está a criar, até ao final de 2026, uma janela extraordinariamente generosa para doações em vida. Com um planeamento bem feito, muitas famílias conseguem transferir bem mais de 300.000 euros por filho sem pagar imposto sucessório ou imposto sobre doações. A margem de manobra é enorme - mas só funciona se forem cumpridos com rigor prazos, limites máximos e deveres de declaração.
Porque é que o ano de doações 2026 é tão especial
A razão é a conjugação de franquias normais, ofertas monetárias adicionais isentas e uma regra especial, temporária, ligada a imóveis. Ao que tudo indica, este conjunto apenas se mantém até 31 de dezembro de 2026.
As doações em vida são, neste momento em França, a alavanca mais forte para baixar de forma sensível - ou até eliminar - o imposto sucessório futuro.
Quem começa cedo pode reduzir drasticamente a fatura fiscal da geração seguinte. Há três peças-chave neste puzzle:
- o valor das franquias pessoais entre doador e beneficiário,
- o período de 15 anos após o qual essas franquias voltam a ficar disponíveis,
- e a possibilidade temporária de transferir montantes adicionais, sem imposto, para certos projectos imobiliários.
Em contrapartida, também aumenta o risco de erros caros. Entregas de dinheiro sem declaração, contratos mal estruturados ou uma ida ao notário esquecida quando há imóveis podem deitar por terra toda a poupança fiscal.
Franquias e regra dos 15 anos: quanto é que, de facto, pode ficar isento
Em França, cada beneficiário tem uma franquia própria face a cada doador. E essas franquias “renascem” de 15 em 15 anos. Em 2026, aplicam-se, entre outros, os seguintes montantes:
| Parentesco | Franquia por doador |
|---|---|
| Filho | 100.000 € |
| Neto | 31.865 € |
| Bisneto | 5.310 € |
| Cônjuge / parceria registada | 80.724 € |
| Irmãos | 15.932 € |
| Sobrinha / sobrinho | 7.967 € |
| Terceiro sem relação familiar | 1.594 € |
Para pessoas com deficiência reconhecida existe, além disso, uma franquia especial de 159.325 euros, que se soma às franquias normais.
A regra dos 15 anos é decisiva: terminado esse prazo, o mesmo doador pode voltar a usar as franquias com o mesmo beneficiário. Ou seja, quem se organiza com antecedência consegue fazer transmissões isentas em várias “rondas”.
Exemplo de cálculo: 327.460 euros por filho sem imposto
Um casal casado com dois filhos tira o máximo partido das opções em 2026:
- Cada progenitor transfere para cada filho 100.000 euros dentro da franquia normal.
- Além disso, por cada progenitor, soma-se uma oferta monetária isenta de 31.865 euros, desde que certas condições sejam respeitadas (pais com menos de 80 anos, filhos maiores de idade).
- Através dos avós é possível ainda utilizar montantes adicionais, dentro de franquias próprias e regras específicas.
Desta forma, o total isento por filho pode chegar a 327.460 euros - sem pagar um cêntimo de imposto sobre doações. Daqui a 15 anos, a mesma família poderia repetir a estratégia.
Escalão fiscal 2026: o que acontece depois de usadas as franquias
Assim que as franquias ficam esgotadas, aplica-se a tabela progressiva do imposto sobre doações. Na linha directa (pais–filhos), a taxa sobe por escalões, de 5 até 45 por cento.
Exemplo: um progenitor doa 250.000 euros a um filho. Destes, 100.000 euros ficam isentos. Sobre os 150.000 euros restantes, o imposto totaliza - conforme o escalão - 28.194 euros. Isto equivale a uma taxa efectiva de cerca de 11,3 por cento sobre a doação total.
Quanto mais distante for o grau de parentesco, mais pesado fica o imposto:
- 35 a 45 por cento entre irmãos,
- 55 por cento para sobrinhas e sobrinhos,
- 60 por cento para terceiros sem laços familiares.
Por isso, em doações fora do núcleo familiar mais próximo, compensa planear com muito cuidado ou ponderar uma estrutura alternativa, por exemplo através de mecanismos de pré e pós-sucesão ou de legados no testamento.
Obrigação de declaração digital: sem comunicar, os 15 anos não começam a contar
Desde 1 de janeiro de 2026, as transferências de dinheiro e de valores para filhos e netos têm de ser obrigatoriamente declaradas online em França. A comunicação é feita no portal fiscal no prazo de um mês após a doação.
Mesmo quando não há imposto a pagar, só a declaração dentro do prazo faz arrancar o novo período de 15 anos.
Quem não consegue usar o acesso online pode continuar a recorrer a formulários em papel. Uma oferta monetária não declarada continua, formalmente, a ser válida, mas numa inspecção posterior pode transformar-se rapidamente num problema fiscal - com acerto, pagamento adicional e eventuais penalizações.
Componentes estratégicos: como as famílias podem tirar o máximo partido desta janela
Manter o direito de uso e doar a propriedade
Uma ferramenta particularmente eficaz é o chamado desmembramento da propriedade (démembrement). Nessa configuração, o proprietário transmite apenas a nua-propriedade (nue-propriété) aos filhos, mantendo para si o direito de uso e fruição vitalício (usufruit).
Neste caso, o imposto incide apenas sobre uma percentagem do valor de mercado. Exemplo em 2026:
- Um pai com 55 anos doa ao filho a nua-propriedade de uma casa avaliada em 400.000 euros.
- Pela tabela legal de avaliação, nessa idade são considerados fiscalmente 50 por cento do imóvel.
- Base tributável: 200.000 euros. Após deduzir a franquia de 100.000 euros, ficam 100.000 euros sujeitos a imposto.
- O imposto resultante ronda 18.194 euros.
Quando o pai morrer, a plena propriedade consolida-se automaticamente no filho, sem imposto - mesmo que, entretanto, o imóvel tenha valorizado de forma significativa.
Evitar conflitos com a “doação-partilha”
Outra figura muito usada em França é a chamada “doação-partilha” (donation-partage). Aqui, a geração mais velha distribui património ainda em vida por vários filhos ou netos, fixando os valores na data da doação.
A vantagem é clara: valorizações posteriores de um imóvel ou de uma carteira de investimentos deixam de gerar acertos entre irmãos. E, mesmo envolvendo várias gerações, é possível criar uma organização sólida e previsível.
Oportunidade especial até ao fim de 2026: dinheiro isento para casa nova ou reabilitada
Existe uma isenção adicional temporária muito atractiva para projectos imobiliários. Até 31 de dezembro de 2026, o foco está em dois tipos de operações:
- compra de habitação nova,
- ou reabilitação energética de um imóvel existente com recurso ao programa MaPrimeRénov’.
Para estes fins, cada doador pode transferir adicionalmente até 100.000 euros por beneficiário sem imposto, desde que sejam cumpridas as condições seguintes:
- O dinheiro é investido no projecto no prazo de seis meses.
- O imóvel mantém-se na titularidade do beneficiário durante, pelo menos, cinco anos.
- Por imóvel, o total beneficiado por várias doações está limitado a 300.000 euros.
Na prática, isto significa: em 2026, um progenitor pode dar a um filho 100.000 euros ao abrigo da franquia normal, 31.865 euros como oferta monetária adicional e mais 100.000 euros pela regra especial de imóveis. Total: 231.865 euros sem imposto sobre doações. Um casal atinge assim 463.730 euros por filho.
Nestes casos de transmissão associada a imóveis, é obrigatório envolver um notário. Para o acto notarial, devem contar-se - consoante a situação - cerca de 2.500 a 3.500 euros em honorários e emolumentos. Quem marcar o notário demasiado tarde ou se esquecer de declarar no prazo de um mês arrisca perder a isenção.
Armadilhas frequentes: onde as famílias se enganam ao fazer doações
Regras tão favoráveis podem levar a assinar “qualquer coisa” ou a entregar dinheiro informalmente. O custo pode ser elevado. Os pontos mais sensíveis são:
- declarações esquecidas em doações “mão-a-mão”,
- sobreposição com doações dos últimos 15 anos, ignoradas no planeamento,
- transmissões de imóveis sem notário, ou com contrato notarial pouco claro,
- combinações vagas na família que, mais tarde, acabam em conflito.
Quando estão em causa montantes elevados, faz sentido pedir pelo menos uma simulação fiscal - muitas vezes basta um calculador simples com dados sobre parentesco, idade, tipo de património e doações anteriores.
O que as famílias alemãs podem aprender com o modelo francês
Embora o sistema se destine a contribuintes em França, também levanta questões relevantes para leitores alemães. Os princípios de base são semelhantes: franquias, longos períodos de reposição e vantagens fiscais significativas quando a estruturação é feita a tempo.
Quem tem património em França ou familiares com residência fiscal francesa deve conhecer a regra actual. Em famílias transfronteiriças, os efeitos fiscais podem variar muito - consoante se herda património na Alemanha ou se doa em vida em França.
Conceitos como “nua-propriedade” (nue-propriété) ou “direito de uso e fruição” (usufruit) soam técnicos, mas estão por trás das maiores poupanças. Por exemplo, quem detém um prédio de rendimento pode manter as rendas correntes e, ao mesmo tempo, fixar já hoje a transmissão da propriedade para a geração seguinte. Para efeitos fiscais, apenas uma fracção do valor é considerada, e o restante consolida-se mais tarde sem imposto.
O relógio não pára: a isenção imobiliária temporária só vigora até ao fim de 2026. As famílias que já ponderam uma doação relevante devem avaliar se faz sentido antecipar - em vez de esperar por regras potencialmente mais restritivas.
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