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Novo estudo sobre estigma social dos fármacos GLP-1 como o Wegovy

Homem sentado num banco de parque a consultar documento e medidor de glicose, com casal a caminhar ao fundo.

Sabemos que medicamentos para perda de peso, como o Wegovy, podem trazer efeitos positivos e negativos para o organismo.

No entanto, quem recorre a este tipo de fármacos pode deparar-se com um efeito secundário menos óbvio - e que não tem a ver com náuseas, digestão ou com o número na balança: o estigma social.

Um novo estudo indica que as pessoas que emagrecem com fármacos GLP-1 tendem a ser avaliadas de forma mais severa do que aquelas que perdem peso através de dieta e exercício. Até aqui, é uma notícia que provavelmente não surpreende.

O mais inquietante, contudo, foi outra conclusão.

De acordo com a investigação, em alguns casos, o julgamento associado ao uso de medicamentos para perda de peso pode ser mais pesado do que o julgamento dirigido a quem não perde peso nenhum.

Os autores alertam que esta pressão social pode afastar algumas pessoas de iniciar o tratamento ou de o manter.

"Esperávamos que pudesse existir algum estigma em torno da utilização de um GLP-1", afirma a primeira autora, Erin Standen, investigadora em psicologia social na Rice University.

"Mas o que nos surpreendeu foi a dimensão disso."

Como foi conduzido o estudo com 1.313 adultos

Standen e colegas da Mayo Clinic e da University of California, Los Angeles recrutaram 1.313 adultos residentes nos EUA, através de duas experiências online randomizadas. Aos participantes foi pedido que avaliassem vários traços de carácter de uma pessoa fictícia de 38 anos, depois de lerem um breve historial sobre o seu peso.

As pessoas participantes receberam, de forma aleatória, diferentes narrativas para permitir a comparação das suas percepções.

As histórias variavam conforme o método de perda de peso (ou com um medicamento GLP-1, ou com dieta e exercício) e também consoante a manutenção do peso perdido. Em alguns cenários, as personagens fictícias eram igualmente descritas como não tendo perdido peso.

Utilizadores de GLP-1 foram julgados mais duramente

De modo geral, as personagens que recorriam a GLP-1 para emagrecer foram avaliadas de forma mais negativa na maioria das medidas.

Em comparação com as que perderam peso com dieta e exercício, as pessoas que usavam GLP-1 foram vistas, pelos participantes do estudo, como mais preguiçosas, menos saudáveis, menos disciplinadas e menos agradáveis para conviver - algo medido pela disponibilidade declarada dos participantes para se associarem a essas pessoas.

Quando os participantes compararam utilizadores de GLP-1 com personagens que não tinham perdido peso, as pontuações em traços negativos foram semelhantes. Ainda assim, os utilizadores de GLP-1 obtiveram classificações mais baixas em traços positivos, incluindo honestidade e generosidade.

As personagens que não tinham emagrecido foram, além disso, consideradas mais agradáveis para passar tempo do que as personagens que usavam GLP-1.

"Os utilizadores de GLP-1 foram penalizados socialmente não apenas em comparação com alguém que perdeu peso através de dieta e exercício", diz Standen.

"Também foram avaliados de forma mais dura do que alguém que não perdeu peso logo à partida."

Recuperar peso: penalização semelhante entre métodos

Numa outra experiência, os participantes avaliaram a recuperação de peso após um ciclo de fármacos GLP-1 de forma muito semelhante à recuperação de peso depois de emagrecer com dieta e exercício.

Em ambos os casos, as personagens foram classificadas mais negativamente do que aquelas que conseguiram manter a perda de peso.

"O que estamos a ver é que as pessoas podem enfrentar julgamento em vários momentos", afirma Standen.

"Podem ser julgadas pelo seu peso e pela forma como escolhem geri-lo."

Porque o estigma pode afectar o tratamento com GLP-1

Este é um estudo bastante limitado, na medida em que se baseia em pequenas biografias de pessoas que não existem e que não são conhecidas pessoalmente pelos participantes. Ainda assim, os resultados podem ser úteis.

A investigação sobre fármacos GLP-1 (nomeados a partir da hormona peptídeo-1 semelhante ao glucagom, que ajuda a regular o açúcar no sangue) tem mostrado que, quando alguém deixa de tomar estes medicamentos, o peso extra tende a regressar rapidamente.

Isto torna-se um obstáculo para ajudar as pessoas a manter um peso que seja saudável para elas - o que pode reduzir o risco de problemas físicos e mentais associados à obesidade, como morte prematura, doenças cardiovasculares, vários tipos de cancro e depressão.

Os investigadores deste novo trabalho querem mudar a narrativa de que os fármacos GLP-1 são uma "solução fácil" para quem vive com obesidade ou excesso de peso.

A opinião dos outros, aqui, conta.

"Se as pessoas se sentem julgadas pelas escolhas que estão a fazer em relação à sua saúde, isso pode influenciar aquilo que estão dispostas a fazer", explica Standen.

"Pode afectar se procuram cuidados, se falam abertamente com os profissionais de saúde e como gerem a sua saúde no geral."

Para quem vive com obesidade, um tratamento eficaz pode mudar a vida, e os resultados deste estudo podem ser relevantes para a comunicação em saúde pública.

"Este é um momento em que estes tratamentos estão realmente a entrar no mainstream, por isso compreender o lado social disso é fundamental", diz Standen.

A investigação foi publicada na International Journal of Obesity.


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