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Portugal trava a subida da obesidade em crianças e adolescentes, diz estudo na “Nature”

Criança a pesar-se numa balança enquanto médica analisa dados num tablet numa clínica.

Portugal faz parte de um conjunto pequeno de países em que a curva da obesidade deixou de subir de forma contínua entre crianças e adolescentes. Um artigo publicado recentemente na revista científica “Nature”, sustentado em dados de 232 milhões de pessoas distribuídas por 200 países, aponta “indicações de uma pequena descida na obesidade em crianças e adolescentes em alguns países ocidentais, como Itália, Portugal e França, desde os anos 2000”.

A queda observada é, ainda assim, limitada. Os autores do trabalho salientam que, em vários casos, as variações negativas são tão reduzidas que se tornam “indistinguíveis de zero”. Mesmo com essa prudência, “o sinal existe e separa Portugal de grande parte do mundo onde a trajetória continua a ser de crescimento ou aceleração”.

Portugal no mapa das trajetórias da obesidade

No contexto europeu descrito no estudo, Portugal não surge como um caso isolado. Países como França, Itália e Espanha são igualmente caracterizados por uma desaceleração prolongada ou por estabilização da obesidade, sobretudo nas últimas duas décadas. Em determinadas faixas etárias, Itália e Espanha apresentam mesmo velocidades negativas, embora de pequena magnitude.

É neste grupo que Portugal se insere: com uma travagem mais visível entre crianças e adolescentes e com uma estabilização mais recente nos adultos.

Nos adultos, o padrão português acompanha uma tendência mais ampla nas economias ocidentais mais industrializadas. O estudo descreve uma desaceleração do crescimento da obesidade após o início do século XXI e uma aproximação a etapas de estabilização. Em vários destes países, as velocidades de crescimento aproximaram-se muito de zero em 2024, o que sugere uma travagem persistente, mais do que uma inversão inequívoca.

Neste novo retrato global, Portugal acaba por ocupar uma posição intermédia: integra um grupo restrito onde a perda de velocidade aconteceu mais cedo - sobretudo nos mais jovens - ao mesmo tempo que grande parte do mundo continua numa trajetória ascendente.

Como o estudo mede a “velocidade da obesidade”

Na prática, o estudo propõe uma mudança de lente sobre a obesidade. Em vez de assumir uma linha única e sempre crescente, os autores descrevem um conjunto de percursos nacionais. Assim, a obesidade deixa de ser uma imagem fixa e passa a ser encarada como um fenómeno em evolução.

A peça central desta abordagem é a chamada velocidade da obesidade, isto é, a alteração anual da prevalência. Em vez de olhar apenas para quantas pessoas vivem com obesidade, a análise centra-se em quão depressa esse número se transforma ao longo do tempo.

Mundo a duas velocidades na evolução da obesidade

Com este método, a resposta desenha um mundo menos homogéneo do que a narrativa habitual faz parecer. Há países em que a obesidade desacelerou há várias décadas, outros onde entrou em estabilização e outros ainda onde continua a acelerar. Nalguns casos, o estudo detalha diferentes “tipos de trajetórias nacionais”, que vão do crescimento acelerado a estabilizações prolongadas ou a primeiros indícios de inversão.

No polo da aceleração, o trabalho realça realidades muito distintas. No Peru, por exemplo, a velocidade de crescimento é elevada apesar de a prevalência já ser significativa. Em várias ilhas do Pacífico, como Tonga e Samoa, a obesidade atinge níveis extremamente altos e continua a crescer ou a manter ritmos elevados. No Médio Oriente, países como Catar e Omã exibem também valores elevados, com trajetórias que ainda não convergiram para a estabilização.

A diferença torna-se ainda mais clara quando se analisam países de menor rendimento, onde a prevalência permanece baixa, mas a subida é rápida. O estudo aponta exemplos na África Subsariana - como Etiópia, Ruanda e Tanzânia - e no Sul da Ásia - como Nepal e Bangladesh -, onde a obesidade tem aumentado de forma consistente a partir de patamares reduzidos.

Em sentido inverso, várias economias com maior nível de desenvolvimento apresentam um padrão diferente. O estudo refere que o aumento da obesidade “desacelerou em crianças em idade escolar e adolescentes ao longo dos anos 90 em muitos países e posteriormente estabilizou na maioria”. De acordo com os autores, esta desaceleração começou primeiro nos mais jovens e, mais tarde, alargou-se aos adultos.

Entre os diferentes percursos, o artigo sublinha ainda que a estabilização não surge sempre no mesmo nível: em alguns países acontece abaixo dos 10%, noutros perto dos 25–40%, e noutros ultrapassa os 50%. A mesma fase de “equilíbrio”, por isso, pode corresponder a realidades muito diferentes.

O estudo indica também que, entre crianças e adolescentes, existe uma correlação positiva entre o nível de obesidade e a velocidade de crescimento. Em termos práticos, em muitos países a obesidade continua a aumentar mesmo quando já atingiu valores elevados - não existe um efeito de travagem automático associado ao aumento da prevalência.

A interpretação global dos autores assenta, assim, numa ideia-chave: não há uma única epidemia de obesidade, mas sim múltiplas trajetórias. O trabalho identifica padrões distintos de evolução, que vão do crescimento acelerado à estabilização prolongada ou a sinais iniciais de reversão.

Esta diversidade é atribuída a fatores estruturais que ultrapassam a mera disponibilidade de alimentos. Alterações na produção, no processamento e no preço dos alimentos, a par de transformações sociais, níveis de rendimento e escolaridade, normas culturais e padrões de atividade física, contribuem para moldar o comportamento alimentar e a evolução do peso nas populações.

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