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Cannabis em adultos mais velhos: porque usam e como escolhem comestíveis com THC e CBD

Casal idoso sentado à mesa com frascos de suplementos de THC e THD, comprimidos e chá.

O cannabis deixou de ser um tema marginal nos Estados Unidos e passou a integrar o quotidiano, incluindo em casa de pessoas mais velhas.

Em muitos lares, já ocupa um lugar ao lado de vitaminas e medicamentos sujeitos a receita. Esta mudança não se explica apenas por moda ou curiosidade.

O que está por trás é, sobretudo, a procura de alívio para dores, sono de baixa qualidade e desgaste emocional - situações que tendem a aumentar com o avançar da idade.

No Colorado, investigadores entrevistaram 169 adultos com 60 anos ou mais para perceberem o que os leva a usar cannabis e de que forma escolhem entre diferentes comestíveis.

Os resultados apontam para um percurso recorrente: necessidade concreta, experimentação e decisões prudentes, tomadas passo a passo.

Adultos mais velhos estão a experimentar cannabis

A idade média dos participantes era de quase 71 anos e muitos lidavam com problemas típicos do envelhecimento.

Cerca de 57% procurava dormir melhor. Metade tentava controlar dor persistente. Um em cada quatro queria apoio para ansiedade ou depressão.

Estas preocupações não são novas; o que está a mudar é a resposta. Vários participantes explicaram que não pretendiam efeitos intensos.

O objectivo era simples: ganhar conforto no dia-a-dia e conseguir funcionar melhor.

“Em termos gerais, o que eles queriam mesmo era melhor qualidade de vida, reduzir a dor, dormir melhor e conseguir aproveitar um pouco mais o tempo com a família e os amigos”, afirmou a Dra. Rebecca Delaney, primeira autora do estudo, da Universidade do Utah.

Tratamentos que não ajudam

Um tema forte ao longo do estudo foi a frustração com abordagens convencionais. Para muitos, o cannabis só entrou em cena depois de outras tentativas falharem.

Alguns receavam os efeitos a longo prazo de certos medicamentos. Outros diziam que os fármacos tinham deixado de resultar ou que passaram a trazer novos problemas.

Um participante referiu uma preocupação frequente: não queria medicação psiquiátrica e tinha lido sobre associações entre somníferos comuns e declínio cognitivo.

Nessa perspectiva, o cannabis pareceu uma opção mais segura. Outros relataram uma sucessão de experiências sem sucesso.

Muitos tinham recorrido a terapias como acupunctura, massagens e ioga. Também experimentaram produtos de venda livre e até álcool para controlar sintomas.

O cannabis surgiu, assim, como alternativa de último recurso quando nada mais trouxe alívio.

O envelhecimento traz novas necessidades

Nem todos os participantes descreveram experiências negativas com medicamentos. Em alguns casos, o que se destacou foi a percepção de mudanças físicas progressivas.

A dor articular foi aumentando, enquanto o sono se tornava mais leve e menos reparador. Em certos momentos, também surgiam alterações de humor sem causa evidente.

Estas pessoas encararam o cannabis de forma pragmática: não estavam a seguir uma tendência; estavam a ajustar-se a uma nova realidade do corpo.

Um grupo mais pequeno referiu ainda o uso por prazer, por exemplo para intensificar a música ou actividades sociais. Alguns disseram também que o utilizavam para reduzir o consumo de álcool, entendendo-o como uma forma menos nociva de relaxar.

A informação vem de outras pessoas

Muitos participantes não receberam orientação clínica. Em vez disso, foram buscar referências a amigos, aos media e a conversas na comunidade.

Cerca de 36 pessoas afirmaram que relatos pessoais tiveram influência nas suas escolhas. Essa dependência de experiências partilhadas molda a forma como o cannabis é visto.

“Eles trouxeram muito feedback de outras pessoas para formar as suas opiniões. O passa-palavra tem um impacto enorme”, observou a Dra. Delaney.

Quando falta aconselhamento formal, histórias com carga emocional tendem a pesar mais do que dados científicos.

Produtos mistos orientam a escolha

Depois de conhecerem melhor as opções de comestíveis, os participantes revelaram preferências claras. Os produtos que combinam THC e CBD foram os mais escolhidos.

Cerca de 57.5% optou por essa combinação. Em seguida surgiram os produtos dominantes em CBD, com 29%. Apenas 14% seleccionou opções dominantes em THC.

Este padrão manteve-se semelhante entre diferentes objectivos: para dormir melhor, reduzir dor ou melhorar o humor, muitos continuaram a preferir a mistura dos dois compostos.

As preocupações com o THC continuam fortes

Vários participantes mostraram reservas em relação ao THC. Para a maioria, a ideia de ficar “pedrado” não era atractiva.

“Na maior parte dos casos, percebemos que estas pessoas não estão propriamente interessadas em ficar pedradas. Elas só querem sentir-se melhor”, disse Angela Bryan, co-autora da Universidade do Colorado em Boulder.

Entre as preocupações estavam a diminuição da clareza mental, sonolência no dia seguinte e ansiedade. Alguns recordavam experiências negativas anteriores com THC. Outros receavam efeitos cognitivos a longo prazo ou risco de dependência.

Ainda assim, quem vivia com dor intensa mostrou-se mais disposto a aceitar estes riscos - para essas pessoas, o potencial alívio justificava a aposta.

Produtos com CBD parecem mais seguros

Os produtos com CBD atraíram participantes que queriam reduzir sintomas sem alterações mentais. Muitos apreciaram o facto de poderem manter actividades diárias sem se sentirem limitados.

Conduzir, socializar e pensar com clareza continuavam a ser, em princípio, compatíveis.

Ao mesmo tempo, eram frequentes as dúvidas sobre eficácia. 71 participantes questionaram se o CBD realmente funciona.

Alguns suspeitavam que o efeito pudesse ser mais psicológico do que físico. O preço também pesou, sobretudo para quem vive com rendimentos fixos.

O equilíbrio entre dois compostos

Os produtos de combinação destacaram-se por serem percebidos como a melhor via intermédia.

Os participantes consideraram que os dois compostos poderiam actuar em conjunto e melhorar os resultados. Alguns valorizaram ainda a possibilidade de ajustar proporções consoante a necessidade.

No entanto, esta opção também gerou confusão. Encontrar o ponto certo entre THC e CBD não foi descrito como algo simples.

Quando um produto resultava - ou falhava - nem sempre era claro qual dos ingredientes tinha provocado esse desfecho, o que tornava o uso cauteloso mais difícil.

Os médicos raramente orientam o uso

Uma das lacunas mais evidentes do estudo é a participação limitada dos médicos. Muitos participantes disseram que os seus médicos não abordavam o tema do cannabis.

Alguns profissionais pareciam não ter conhecimento suficiente. Outros demonstravam insegurança por questões legais ou riscos profissionais.

Na prática, isto deixa adultos mais velhos a tomar decisões de saúde sem apoio especializado. Acabam por depender de fontes informais, que nem sempre são rigorosas ou completas.

É necessária mais investigação

O estudo aponta para a necessidade de reforçar a investigação e a educação. Os produtos combinados são amplamente utilizados, mas continuam pouco estudados.

Há poucos dados sobre como diferentes rácios afectam, em particular, adultos mais velhos.

Os médicos precisam de ferramentas práticas para orientar doentes: compreender doses, interacções e de que forma o envelhecimento altera a resposta do organismo.

“O objectivo final é desenvolver recursos para ajudar as pessoas a tomar decisões e a encontrar produtos que respondam às suas necessidades, e perceber como podemos condensar a informação para doentes e médicos”, disse a Dra. Delaney.

A mudança já está em marcha

Os adultos mais velhos não estão à espera de orientações oficiais. Muitos já integraram o cannabis na sua rotina de saúde.

Pesam riscos, testam produtos e vão ajustando com base na experiência.

Este aumento de consumo exige atenção. Uma pessoa na casa dos setenta anos deveria poder falar de cannabis com o seu médico e receber aconselhamento claro, baseado em evidência. Por agora, essa conversa continua muitas vezes ausente.

A transformação está em curso. A questão passa a ser se a medicina conseguirá acompanhar a tempo de apoiar quem mais precisa.

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