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O tempo parece passar mais depressa à medida que envelhecemos; agora, os cientistas tentam explicar porquê.

Homem sentado a olhar pela janela enquanto crianças brincam no exterior numa tarde ensolarada.

Há momentos em que olhamos para trás - para o último verão, para os anos da escola, para a década passada - e parece que tudo aconteceu num instante. Se já tiveste essa sensação, não estás sozinho: muita gente nota que, com a idade, a forma como sentimos o tempo muda.

De repente, dias, meses e anos parecem “escorrer” mais depressa, e fica a dúvida: será apenas a correria do dia a dia ou existe algo mais profundo a acontecer no cérebro?

Os cientistas estão a voltar a este mistério antigo para perceber porque é que o tempo, para nós, parece começar a correr.

Human perception of time

Entre a forma como o cérebro trata a informação e os hábitos que moldam a nossa rotina, há várias peças em jogo.

Adrian Bejan, investigador na Duke University com décadas de experiência, apresenta uma perspetiva particularmente interessante sobre este fenómeno.

Segundo ele, a nossa perceção do tempo muda devido a alterações físicas no cérebro e no corpo à medida que envelhecemos.

Mas vamos por partes: porque é que alguns dias parecem intermináveis e outros passam num piscar de olhos? E porque é que o tempo parece acelerar quando ficamos mais velhos?

“Clock time” vs. “mind time”

Para Bejan, existe uma diferença entre o tempo medido pelo relógio e o tempo que a nossa mente sente.

Ele explica: “O ‘tempo do relógio’, mensurável, não é o mesmo que o tempo percebido pela mente humana. O ‘tempo da mente’ é uma sequência de imagens, ou seja, reflexos da natureza alimentados por estímulos dos órgãos sensoriais.”

Em termos simples, o cérebro vai processando uma série de imagens mentais com base no que vemos, ouvimos e vivemos.

Quando somos mais novos, recebemos e tratamos essas imagens mais depressa. Com a idade, esse processamento abranda devido a mudanças físicas - como a degradação de vias neuronais.

Why some days feel longer

Já reparaste que um dia cheio de novidades ou em que foste muito produtivo parece durar mais? Isso acontece porque a tua mente está a processar mais informação e a criar mais imagens mentais.

Quando estás bem descansado, o cérebro funciona de forma mais eficiente, o que te permite absorver mais do que se passa à tua volta.

Pensa, por exemplo, em atletas que rendem melhor quando estão descansados. “A falta de descanso faz com que falhes jogadas, não consigas antecipar, não consigas ver a bola antes de ela chegar”, observa Bejan.

O mesmo se aplica a estudantes em exames: com a mente descansada, consegue-se explorar os problemas com mais profundidade, e o período do exame pode até parecer mais longo.

Perception of time based on routine

Cindy Lustig, professora de psicologia na University of Michigan, traz outra perspetiva. Ela sublinha que, com o passar dos anos, a vida tende a ficar mais rotineira.

“Quando somos mais velhos, tendemos a ter vidas mais estruturadas em torno de rotinas e menos dos grandes acontecimentos marcantes que usamos para delimitar diferentes épocas do ‘tempo das nossas vidas’”, diz Lustig.

Com menos experiências novas, o cérebro agrupa dias e semanas semelhantes. E isso pode dar a sensação de que o tempo passa mais depressa, porque existem menos momentos memoráveis a separar uma fase da outra.

Social media and time perception

Na era digital, o uso excessivo das redes sociais também pode distorcer a nossa noção de tempo. Quando entramos nas apps de que gostamos, somos atingidos por um fluxo interminável de publicações, vídeos e atualizações que estimulam continuamente os sentidos.

Este envolvimento constante faz com que minutos se transformem em horas sem darmos conta. E o design destas plataformas costuma incentivar o uso prolongado, com funcionalidades como scroll infinito e vídeos em reprodução automática, que nos prendem num ciclo em que perdemos a noção do tempo que realmente passou.

Além disso, o consumo exagerado de redes sociais pode levar à privação de sono, sobretudo quando ficamos acordados até tarde a fazer scroll.

A falta de sono suficiente afeta funções cognitivas, tornando mais difícil processar informação com eficiência. Isso pode alterar ainda mais a nossa perceção do tempo, fazendo com que os dias pareçam mais curtos e menos marcantes.

Physical changes in the aging brain

Bejan enfatiza que as mudanças físicas no cérebro contribuem de forma importante para esta perceção alterada.

“A taxa a que as mudanças nas imagens mentais são percebidas diminui com a idade devido a várias características físicas que mudam com a idade: frequência de sacadas, tamanho do corpo, degradação das vias, etc.”, explica.

À medida que as vias neuronais se degradam ao longo do tempo, o cérebro demora mais a processar nova informação.

Com essa velocidade mais lenta, geramos menos imagens mentais no mesmo intervalo de tempo do relógio - e isso faz o tempo parecer passar mais depressa.

Friendly debate among experts

Embora a teoria de Bejan seja convincente, Lustig não está totalmente certa de que explique tudo.

Ela questiona alguns pontos, sobretudo os que envolvem mudanças físicas como o tamanho da cabeça a influenciar a perceção.

“Ele faz um argumento sobre o comprimento do nervo ótico relacionado com o tamanho da cabeça, e deixo-vos decidir se uma pessoa de 80 anos tem uma cabeça substancialmente maior do que uma pessoa de 25”, comenta Lustig.

What’s really going on with time?

A verdade pode estar algures no meio, combinando as duas perspetivas. A nossa perceção do tempo provavelmente muda por uma mistura de alterações físicas no cérebro e pela forma como vivemos a vida à medida que envelhecemos.

Com menos experiências novas e um processamento mais lento, o tempo parece acelerar.

Mas fica uma pergunta: será que conseguimos abrandar a nossa perceção do tempo ao procurar, de propósito, experiências novas e ao manter a mente ativa? Vale a pena pensar nisso.

Talvez a chave esteja na atenção plena e em quebrar rotinas. Ao introduzir variedade no dia a dia e ao desafiar a mente, podemos recuperar um pouco daquela sensação jovem de que o tempo “se estica”.

Experimentaste recentemente um hobby novo ou foste conhecer um sítio diferente? Como é que isso mexeu com a tua perceção do tempo?

Time, perception, and humans

Em resumo, a sensação de que o tempo acelera com a idade parece vir tanto de mudanças físicas no cérebro como das rotinas em que nos vamos instalando ao longo dos anos.

À medida que envelhecemos, o cérebro processa informação nova mais devagar, em parte por causa da degradação das vias neuronais.

Esse ritmo mais lento significa que percebemos menos imagens mentais no mesmo tempo do relógio, fazendo com que dias e anos pareçam passar mais rapidamente.

Ao mesmo tempo, com a idade, é comum termos vidas mais estruturadas, com mais rotinas e menos experiências novas.

Essa falta de novidades torna mais difícil para o cérebro distinguir um dia do outro, contribuindo para a sensação de que o tempo nos escapa.

Enquanto cientistas como Bejan e Lustig continuam a explorar este tema, uma coisa é clara: a nossa perceção do tempo é muito pessoal e depende de muitos fatores.

Ao procurar ativamente novas experiências e ao manter o cérebro envolvido, talvez consigamos mesmo abrandar a forma como sentimos o tempo - e dar a cada momento um pouco mais de peso.

O estudo completo foi publicado na revista European Review.

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