Os tratamentos cosméticos injectáveis e os preenchimentos têm aumentado em todo o mundo, impulsionados por uma necessidade que parece quase universal: parecer mais jovem do que a nossa idade. A maioria destes procedimentos é feita em mulheres, embora o número de homens a recorrer a eles também esteja a crescer.
Esta ideia de que beleza é sinónimo de juventude tem um custo geológico. Todos os anos, são utilizadas e descartadas mais de 14 milhões de agulhas hipodérmicas de aço inoxidável em tratamentos cosméticos à escala global. E os metais necessários para as fabricar são classificados como críticos.
Da geologia à agulha: o que compõe o aço inoxidável
O aço inoxidável é uma liga de ferro e crómio, à qual, na maioria dos casos, se adiciona níquel. O ferro presente numa agulha pode ter origem na região de Pilbara, no Oeste da Austrália. A sua história começou há mais de mil milhões de anos, quando o oxigénio libertado pela fotossíntese de bactérias primitivas reagiu com o ferro nos oceanos antigos e esse material acabou por se depositar no fundo do mar.
O crómio pode ter vindo do Complexo de Bushveld, na África do Sul - uma intrusão ígnea formada quando o magma encontrou caminho para a crosta terrestre através de fissuras verticais e, ao arrefecer, permitiu que a cromite se separasse, cristalizando em camadas distintas.
Já o níquel, tal como a cromite, começou a formar-se com a ascensão e o arrefecimento do magma associados à formação dos continentes tal como hoje os conhecemos, e também através da meteorização de rochas ígneas. É provável que tenha sido extraído na Indonésia, onde os depósitos de níquel estão próximos da superfície e, por isso, são economicamente viáveis.
Um mineral crítico é aquele que se considera indispensável para a economia de um Estado, para a segurança nacional e para tecnologias de energia limpa, e cuja cadeia de abastecimento é vulnerável a perturbações causadas por guerra, tarifas e escassez. Além disso, os minerais críticos não são facilmente substituíveis por alternativas.
A lista de minerais críticos
O que aparece na lista de minerais críticos de um país revela algo sobre a geopolítica das regiões onde as matérias-primas são extraídas, sobre as características do próprio recurso e sobre as prioridades de quem elabora essa lista.
O crómio é considerado crítico pelos EUA, pelo Canadá e pela Austrália, porque é essencial para a produção de aço inoxidável e de outras ligas de elevado desempenho.
Prevê-se que a procura de crómio aumente 75 vezes entre 2020 e 2040, em parte devido à transição para energia limpa. As reservas estão concentradas: em 2023, a África do Sul garantiu mais de 40% do fornecimento, seguida do Cazaquistão, Turquia, Índia e Finlândia.
O níquel passou a integrar a lista de minerais críticos do Reino Unido em 2024. Descrito como o “canivete suíço” dos minerais da transição energética, é usado para aumentar a densidade energética das baterias de lítio, permitindo a sua miniaturização e ampliando a autonomia dos carros eléctricos. A Indonésia detém 42% das reservas mundiais.
Até o minério de ferro consta destas listas. O minério de ferro de alta qualidade foi incluído na lista canadiana de minerais críticos em 2024, devido à sua importância para a produção de “aço verde” e para os objectivos de descarbonização.
Procura concorrente e impacto: da estética à defesa
A subida acelerada da procura de aço inoxidável para fins cosméticos cruza-se com necessidades urgentes de outros sectores. Este material é indispensável na construção, nos transportes, na produção e armazenamento de alimentos, na medicina e no fabrico de bens de consumo.
Também é crucial para a defesa. O aço inoxidável entra em componentes de aeronaves e veículos, embarcações navais, peças de mísseis e balística.
As agulhas usadas em procedimentos cosméticos estão igualmente ligadas a outros problemas de recursos naturais para os quais não há respostas simples: conflitos associados à mineração, preocupações com os impactos ambientais e sociais da extracção e controvérsia em torno de novas fronteiras mineiras, como o fundo do mar profundo e a Lua.
A isto soma-se a pegada de carbono das várias etapas necessárias para transformar rocha em agulhas - e para as eliminar em segurança. Cada uma tem de ser extraída, enviada, fundida, transformada, transportada por camião, utilizada, colocada num contentor de perfurocortantes e, por fim, incinerada.
Temos de optar entre procedimentos cosméticos e a transição verde? Entre procedimentos cosméticos e defesa? Não. A procura crescente de procedimentos cosméticos injectáveis não é, por si só, a responsável por tornar críticos o crómio, o níquel e o minério de ferro. Mas faz parte dessa história - e tem um custo.
Bridget Storrie, Teaching Fellow, Institute for Global Prosperity, UCL
Este artigo foi republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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