Saltar para o conteúdo

EDP regista lucros de €378 milhões no primeiro trimestre de 2026

Engenheira com capacete e colete refletor em plataforma com turbinas e painéis solares ao fundo.

A EDP terminou o primeiro trimestre do ano com lucros de €378 milhões, o que representa uma descida de 12% face ao período homólogo de 2025 (€428 milhões). O resultado recorrente também recuou, 9%, para €399 milhões. Em declarações ao Expresso, o presidente executivo, Miguel Stilwell de Andrade, enquadrou a evolução: “No ano passado o primeiro trimestre foi bastante bom, mas em 2026 vemos claramente uma redução. O que foi negativo? Os preços muito mais baixos na Península Ibérica e os custos adicionais dos serviços de sistema, associados à tempestade ‘Kristin’ e à devastação das redes. Tudo isso fez afundar os preços da eletricidade”.

Lucros da EDP no 1.º trimestre e impacto dos preços na Península Ibérica

Segundo o gestor, a combinação de preços grossistas mais fracos na região e despesas associadas à operação do sistema elétrico pesou de forma clara nos resultados do arranque do ano. A pressão foi particularmente visível no mercado grossista de eletricidade na Península Ibérica, onde a EDP operou com um enquadramento de preços mais baixo.

Serviços de sistema e custos adicionais após a tempestade ‘Kristin’

De acordo com a liderança da empresa, a componente de serviços de sistema - que passa sobretudo pela contratação de centrais para assegurar estabilidade e robustez da rede - originou “cerca de €50 milhões de custos extra nos primeiros três meses do ano“. Na habitual chamada com investidores, na manhã desta quinta-feira, após a divulgação de contas, Stilwell adiantou: ”Esperamos uma normalização dos serviços de sistema nos preços da eletricidade, para cerca de €23 por megawatt-hora”.

O responsável reconheceu ainda que a empresa está a “refletir estes custos mais elevados nos preços apresentados aos clientes”. E detalhou a abordagem seguida: “O que fizemos foi continuar a incorporar estes preços na nossa oferta. Esperamos reavaliar gradualmente 60% desse valor em 2026 e 80% em 2027”, afirmou.

No capítulo da reposição de infraestruturas após as tempestades, Stilwell apontou para um efeito líquido de €20 milhões no negócio de redes, apenas para “substituir os bens destruídos durante a tempestade Kristin”. Já nas redes da Península Ibérica, o investimento da EDP, em termos homólogos, cresceu 40% no primeiro trimestre, para €164 milhões, de acordo com os números comunicados pela empresa.

O CEO explicou que, no passado, estes custos “costumavam ser muito impulsionados pela energia hidroelétrica“. ”Com o apagão, passaram a estar mais dependentes das centrais de ciclo combinado, que têm um custo marginal mais elevado. Estas estão a ser solicitadas pelo operador do sistema [REN] para fornecer "backups". É isso que tem estado a provocar o aumento dos custos [de aquisição de energia] ao longo do último ano, com um pico neste primeiro trimestre“, disse. Acrescentou ainda que também pesou “o facto de os preços da eletricidade no mercado grossista estarem muito baixos, o que fez com que os serviços auxiliares tivessem um prémio adicional”.

A este contexto juntou-se, nas palavras do líder da EDP, “uma circunstância muito específica: com as tempestades em Portugal, as redes elétricas do país ficaram quase cortadas ao meio e foi necessário ter serviços de apoio adicionais“, que tiveram um custo ”muito mais elevado no primeiro trimestre".

No investimento previsto para a Península Ibérica, Stilwell referiu um aumento de mais de 60% em 2026 e 2027 face ao plano anterior e ao nível observado nos últimos cinco anos. Sublinhou ainda: “A perspetiva de um investimento adicional dependerá das conclusões do estudo de resiliência da rede, que está a ser realizado em Portugal. Esta medida foi solicitada pelo governo após as tempestades. Está atualmente a ser feito e será concluído nos próximos meses, antes do final do ano“, garantiu.

O gestor concordou que ”é importante analisar a resiliência da rede“, mas, sobre o enterramento de linhas, considerou que ”em alguns casos talvez faça sentido, e noutros nem tanto".

E insistiu na necessidade de comparar custos e benefícios: "Existem outras formas de aumentar a resiliência, que não passam apenas por enterrar linhas. É necessário fazer uma boa análise de custo-benefício, porque queremos aumentar a resiliência mas isso tem um preço e queremos mantê-lo sob controlo, para garantir que os consumidores não estão a suportar custos indevidos".

Taxar lucros extraordinários na eletricidade? “Não existem”

Confrontado por analistas com a possibilidade de Portugal voltar a tributar lucros extraordinários das energéticas - à semelhança do que sucedeu em 2022 - Stilwell defendeu que “as energias renováveis e o sector de produção de eletricidade não beneficiaram de nenhum ganho inesperado“.

Como indicador dessa realidade, referiu que ”os preços da energia têm estado muito baixos desde o início do ano, apesar da guerra no Irão. Sobretudo na Península Ibérica, e isso deve-se à forte produção de energia renovável. Por isso, na verdade, não vemos qualquer razão para aplicar impostos extraordinários sobre os lucros inesperados, porque não existem".

O CEO acrescentou que a empresa está a observar “oportunidades de repotenciação” em projetos renováveis e também “uma boa rotação de ativos, que suporta bons preços“. ”Há uma série de opções diferentes que estamos a analisar e a trabalhar. Por isso, não temos dúvidas quanto ao crescimento pós-2028", afirmou.

Sobre o resto do ano, disse encará-lo com “boas perspetivas”: “Temos as barragens cheias e a procura elétrica cresceu 4% em Portugal e 1,2%, em média, na Europa. É uma tendência que vai continuar, com mais veículos elétricos e uma nova vaga de data centers, em 2027 e 2028", declarou ao Expresso, realçando “a necessidade de investimento nas redes e na capacidade de geração, para assegurar que conseguimos acomodar esta procura elétrica toda que aí vem".

A propósito do projeto de centro de dados de Sines, da Start Campus, Stilwell explicou aos analistas que os 1,2 gigawatts de computação previstos para seis edifícios correspondem a uma procura na ordem dos 10 terawatts-hora de eletricidade. E precisou: “Só na segunda fase, que arrancará entetanto, são 200 megawatts, o que equivale a um consumo de 1,5 terawatts-hora. Pode ser fornecido pelo mercado. E é isso que estamos a tentar fazer com eles. Contribuirá para o crescimento da procura em Portugal, o que, na minha opinião, é positivo. Poderá haver ainda uma opção adicional da Start Campus em relação aos nossos terrenos [em Sines], ou outras oportunidades em conjunto. Estamos a explorar essa possibilidade", revelou.

EDP espera lucro de €1,3 mil milhões este ano

Apesar de um primeiro trimestre menos favorável, a EDP ajustou em alta os objetivos para 2026, passando a apontar para um EBITDA recorrente (resultado antes de impostos, juros, depreciações e amortizações) de €5,2 mil milhões - mais 5% do que a estimativa anterior - e para lucros de perto de €1,3 mil milhões.

Assumindo que a sua quota de mercado tem vindo a “diminuir naturalmente ao longo do tempo“, estando hoje em ”cerca de 80%“, Stilwell destacou que, pela primeira vez em cinco anos, a empresa apresenta um acréscimo líquido mensal positivo de clientes. “Este facto tem sido apoiado pelo reforço da oferta que estamos a fazer, com preços competitivos. O número de clientes estabilizou e os volumes vendidos no mercado livre aumentaram 8% em relação ao ano anterior. A procura por eletricidade em Portugal aumentou 4% e grande parte provém dos clientes domésticos“, disse, acrescentando que a EDP está a realizar ”muitas vendas cruzadas de serviços adicionais".

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário