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Smartphone, individualismo e educação: o que os avós faziam melhor, segundo Clémence Prompsy

Criança a receber pão numa cesta de mulher sorridente numa cozinha com outras duas pessoas ao fundo.

Smartphone, auto-realização, discussões permanentes: muitas crianças parecem hoje mais exigentes - e não poucos pais sentem-se exaustos e sem recursos.

Entre a parentalidade centrada nas necessidades, as redes sociais e a disponibilidade constante, as famílias podem perder o equilíbrio num instante. Uma psicóloga francesa lança agora uma pergunta provocadora: no fim de contas, os nossos avós teriam uma forma mais saudável de educar - precisamente por pensarem mais na comunidade?

Antes rígido, hoje mimado? Um olhar sobre dois mundos

Quando se pensa na educação da geração do pós-guerra, surgem imagens de disciplina, regras claras e pouca margem para debate. Muitos pais de hoje rejeitam esse modelo de forma quase instintiva: demasiado duro, com pouca proximidade, pouco espaço para emoções.

Ao mesmo tempo, professores, educadores e famílias queixam-se cada vez mais de crianças que:

  • se frustram com facilidade
  • aceitam mal limites
  • estão muito centradas em si próprias
  • falam com adultos de forma desrespeitosa

É aqui que entra a psicóloga clínica Clémence Prompsy. Ela não defende, de modo algum, o regresso à palmada; o que propõe é recuperar um princípio central de outras épocas: o bem do grupo tinha prioridade sobre o desejo imediato do indivíduo.

Educação de antes: menos “O que queres?”, mais “Como é que te integras na comunidade?”

O que os avós faziam de forma diferente - e o que fazia bem

Prompsy lembra que, em muitas famílias, existia uma regra não dita: cada um comportava-se de modo a fazer o convívio resultar. E isso começava em coisas aparentemente pequenas.

Boas maneiras como treino de empatia

“Chegar a horas, não interromper, respeitar os mais velhos, tratar a professora com consideração - mesmo que seja antipática”: frases assim marcaram gerações inteiras. E iam além de normas rígidas. Através delas, as crianças aprendiam a colocar-se no lugar dos outros:

  • Quem chega atrasado desorganiza todos.
  • Quem fala por cima dos outros tira-lhes espaço.
  • Quem insulta não fere apenas uma pessoa: deteriora o ambiente do grupo.

Isto reforçava competências sociais que hoje parecem faltar em muitas salas de aula: consideração, paciência e a capacidade de aguentar um pouco de frustração sem “explodir”.

Disciplina como protecção, não apenas como pressão

À luz dos padrões actuais, muitas regras de então parecem inflexíveis. Ainda assim, também cumpriam uma função protectora. Rotinas claras davam orientação: sabia-se o que era esperado e não era preciso renegociar diariamente se se faziam os trabalhos de casa ou se se punha a mesa.

Essa previsibilidade reduz o stress - para as crianças e para os pais. Um quadro estável de deveres não é, por si só, falta de afecto, desde que seja acompanhado por proximidade e cuidado consistente.

A estrutura funciona como um corrimão: suficientemente próximo para dar segurança, suficientemente aberto para permitir passos próprios.

O individualismo cresce - e as crianças pagam a factura

A psicóloga identifica uma tendência clara: o foco desloca-se cada vez mais para o “eu”. Os anos de pandemia agravaram isso, ao cortar contactos e ao deixar muitas famílias a “aguentar-se” sozinhas. Estudos mostram que uma grande parte da população percebe um movimento acentuado de retraimento para a esfera privada.

Nas crianças, as consequências são visíveis. Docentes relatam alunos que:

  • têm grande dificuldade em fazer compromissos
  • reagem de imediato com ofensa quando perdem
  • tratam os adultos como se fossem prestadores de serviços
  • quase não toleram que a atenção esteja noutra pessoa

Em paralelo, aumentam episódios de desrespeito, insultos e explosões agressivas. Aquilo que por vezes se vende como “personalidade forte” revela-se, no dia-a-dia, como baixa tolerância à frustração.

Os efeitos também atingem os adultos: numa sociedade muito orientada para performance e auto-optimização, muita gente sente-se só, em comparação constante, como se estivesse sempre em competição por dentro. As crianças crescem no meio desse clima.

Porque é que as crianças precisam mesmo de aprender a olhar para o nós

Prompsy defende que o ser humano é, por natureza, um ser de comunidade. Quem se define apenas por si vive sob pressão permanente - sobretudo na era das redes sociais, em que tudo parece mensurável: gostos, notas, conquistas.

Por isso, recuperar valores “antigos” não significa endurecer. Significa, antes, recolocar a comunidade no centro.

A criança deve aprender: “Eu sou importante - mas não sou o centro do mundo.”

Como os pais podem reforçar hoje o sentido de comunidade

Para isso, ninguém precisa de passar a viver como nos anos 50. Medidas pequenas, mas consistentes, aproximam as crianças do “nós”:

  • Dizer regras familiares com clareza: por exemplo, refeições em conjunto sem telemóvel e um plano fixo de tarefas.
  • Exigir tarefas de forma fiável: levantar a mesa, levar o lixo - não como “ajuda”, mas como contributo normal.
  • Treinar a cortesia: cumprimentar, dizer “por favor” e “obrigado”, deixar os outros terminar - dar o exemplo no dia-a-dia e pedir o mesmo.
  • Não apaziguar conflitos de imediato: mediar discussões entre irmãos em vez de resolver tudo - as crianças devem aprender a negociar.
  • Cuidar de rituais comuns: noite de jogos, passeio, pequeno-almoço de domingo - ilhas fixas onde a família conta.

Desporto de equipa em vez de espectáculo do ego

No desporto, a diferença entre “eu” e “nós” torna-se muito evidente. Prompsy aponta modalidades colectivas como o râguebi: sem coesão, nada funciona. Quem pensa apenas em si enfraquece a equipa.

A modalidade exacta importa menos do que o princípio. Actividades adequadas incluem:

  • desportos de equipa como andebol, basquetebol, futebol
  • ensembles musicais, coros, orquestras
  • grupos de teatro ou associações juvenis
  • projectos na escola ou em clubes onde as crianças atingem objectivos em conjunto

Nestes contextos, as crianças percebem que os talentos individuais só brilham plenamente quando se articulam com os dos outros. Ao mesmo tempo, aprendem a lidar com derrotas sem colocar toda a sua identidade em causa.

O papel dos avós: proximidade sim, minar não

Os avós têm muitas vezes um lugar especial. Dispõem de tempo, trazem experiência e, em regra, amam os netos de forma incondicional. Ainda assim, surgem rapidamente tensões com os pais quando as regras educativas são ultrapassadas.

Em França, circula a chamada “regra dos 3C” para avós. A ideia é criar um enquadramento firme sem abrir frentes de conflito. Por trás estão princípios como:

  • Combinações claras: o que vale para doces, tempo de ecrã, hora de deitar?
  • Consistência: se os pais definem um limite, os avós ajudam a mantê-lo - mesmo quando custa.
  • Respeito: críticas aos pais não são discutidas à frente das crianças.

Desta forma, os avós continuam a ser figuras de referência importantes sem corroer a autoridade parental. E as crianças beneficiam de uma rede estável, em vez de mensagens contraditórias.

Entre vinculação e limites: o equilíbrio saudável

A educação moderna sublinha a vinculação, a proximidade emocional e o reconhecimento dos sentimentos da criança. Em comparação com gerações anteriores, em que a vergonha, o medo e a dureza muitas vezes dominavam, trata-se de um avanço significativo.

O problema começa quando se chega ao ponto em que qualquer limite é imediatamente visto como “mau para a psique”. As crianças precisam das duas coisas:

  • afecto fiável e segurança
  • limites e deveres claros, compreensíveis

Poupar a criança a qualquer conflito retira-lhe a oportunidade de construir força interior. Impor-se sem ouvir destrói a confiança. A proposta de recuperar certos princípios da geração dos avós posiciona-se precisamente contra estes extremos.

Sinais práticos para mais sentido de nós no quotidiano

No dia-a-dia familiar, pequenas frases ajudam a deslocar a perspectiva. Alguns exemplos:

Olhar do Eu Olhar do Nós
“O que queres fazer agora?” “O que funciona bem para todos nós hoje?”
“Tu tens sempre razão!” “A tua perspectiva é importante, e a dos outros também.”
“Se não te apetecer, não precisas de ajudar.” “Cada um de nós faz a sua parte, mesmo quando não apetece.”
“O importante é seres feliz.” “Para mim é importante que sejas feliz - e que vivamos bem uns com os outros.”

Estas formulações parecem discretas, mas transmitem uma mensagem nítida: tu tens valor, mas fazes parte de um todo. Foi esse tipo de consciência que sustentou muitas famílias no passado - e pode, hoje, ajudar a transformar crianças centradas no ego em adultos responsáveis, com o tempo.

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