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Multitasking no trabalho: por que pode arruinar a tua carreira

Duas pessoas discutem um documento num portátil num escritório moderno com luz natural e outros trabalhadores ao fundo.

No contexto de uma entrevista de emprego, soa como uma qualidade de sonho; no dia a dia, parece um “turbo” de produtividade: conseguir tratar de muitas tarefas em simultâneo. Quem está sempre a parecer ocupado, nunca se queixa e “põe as mãos na massa” em todo o lado, espera ganhar mais reconhecimento, melhores avaliações e a próxima promoção. Só que este mesmo comportamento pode reduzir o teu desempenho, sobrecarregar o teu cérebro - e, a prazo, deitar por terra as tuas hipóteses de carreira.

Porque é que o multitasking no trabalho parece tão apelativo

Nos escritórios actuais, os estímulos multiplicam-se: os e-mails saltam no ecrã, o smartphone vibra, as mensagens no chat exigem resposta rápida e, pelo meio, há uma reunião a decorrer em segundo plano. Muitos chefes passam, de forma subtil, a ideia de que quem está sempre “ligado” é mais dedicado.

Por isso, não surpreende que, em entrevistas, candidatos digam com orgulho que conseguem “fazer malabarismo com muitas bolas no ar”. Muitas vezes, por trás disso está a expectativa de:

  • Mostrar empenho e capacidade de aguentar pressão
  • Parecer indispensável
  • Ser visto como especialmente flexível
  • Aumentar mais depressa a responsabilidade e o salário

No quotidiano, isto costuma traduzir-se assim: a reunião de equipa ainda decorre e já estás a mexer na apresentação seguinte. Num telefonema com um cliente, vais despachando e-mails ao mesmo tempo. Entre dois compromissos, dás uma vista de olhos ao planeamento de pessoal - e, ao almoço, respondes às mensagens de chat dos colegas.

"O multitasking costuma parecer eficiente, mas, na verdade, provoca sobretudo stress contínuo e perda de qualidade."

O que acontece realmente no teu cérebro quando tentas fazer tudo ao mesmo tempo

A investigação é claríssima neste ponto: os seres humanos não foram feitos para executar, com concentração, várias tarefas exigentes em paralelo. Aquilo a que chamamos “multitasking” é, na prática, uma alternância extremamente rápida entre actividades.

Os psicólogos chamam-lhe task switching. Ou seja: o teu cérebro muda repetidamente de foco - do e-mail para a conversa, da conversa para a folha de cálculo, da folha de cálculo de volta para o chat. Cada uma destas microtransições consome tempo e energia.

Como o multitasking reduz a tua performance

Os estudos mostram que este saltar constante de um lado para o outro traz vários efeitos negativos:

  • Menos concentração: a atenção fica dispersa e distrai-te com mais facilidade.
  • Mais erros: quanto mais vezes alternas, maior é o risco de lapsos e distrações.
  • Ritmo de trabalho mais lento: cada “reinício” rouba segundos ou minutos - ao fim do dia, somam-se horas.
  • Memória mais fraca: tanto a capacidade do “bloco de notas” mental (memória de trabalho) como o armazenamento a longo prazo podem ficar comprometidos.
  • Nível de stress mais elevado: o teu sistema nervoso mantém-se em modo de alerta porque nada parece verdadeiramente “fechado”.

Numa investigação de 2016, observou-se até que viver de forma permanente em modo multitasking pode associar-se a alterações em regiões do cérebro ligadas à regulação da motivação, ao controlo das emoções e ao controlo cognitivo. Na prática: quando fazes tudo em paralelo o tempo todo, estás a treinar o teu cérebro para ter cada vez mais dificuldade em manter o foco.

Travão na carreira em vez de impulso

À primeira vista, quem vive em multitasking pode parecer um “motor” da equipa: sempre disponível, sempre a tentar estar em todo o lado. A longo prazo, porém, a qualidade começa a cair - e é exactamente isso que também acaba por ser notado pelas chefias.

Consequências frequentes no trabalho:

  • Relatórios com mais incoerências ou erros de escrita.
  • Conversas com clientes ou colegas mais superficiais, com perda de nuances importantes.
  • Tarefas estratégicas que se arrastam, porque são interrompidas continuamente por pequenas urgências.
  • Uma imagem de pressa e agitação, em vez de segurança e controlo.

"Fazer carreira não é fazer o máximo de coisas ao mesmo tempo - é fazer a coisa certa, no momento certo, com presença total."

Quem é considerado para subir na organização é, muitas vezes, avaliado pela capacidade de conduzir temas complexos com fiabilidade, definir prioridades e manter os riscos sob controlo. Se pareces constantemente interrompido, não tomas decisões com clareza e te perdes em microgestão, a percepção da liderança sobre ti tende a piorar.

Como saber se estás preso na armadilha do multitasking

Muita gente já nem se apercebe do quanto se habituou ao “ruído permanente” no trabalho. Alguns sinais típicos que apontam para um hábito de multitasking potencialmente perigoso:

  • Começas dois projectos ao mesmo tempo sem fechar nenhum de forma nítida.
  • No caminho para o trabalho, tens a rádio ligada e, em paralelo, vais a planear reuniões na cabeça e ainda verificas (por vezes, de forma indevida) o telemóvel num semáforo.
  • Telefonas enquanto tentas, ao mesmo tempo, escrever actas, conceitos ou e-mails.
  • Há sempre um ecrã a correr em fundo: enquanto respondes a e-mails, tens uma videoconferência ou uma formação online a decorrer.
  • Em reuniões, estás continuamente a alternar para apps de chat ou a deslizar por notícias e redes sociais.
  • Alguém fala contigo e tu já estás a actualizar mentalmente a lista de tarefas, enquanto vais registando notas no sistema.

Se te revês em vários destes pontos, é bastante provável que estejas a prejudicar, sem dar por isso, a tua produtividade e as tuas oportunidades de progressão.

Como passares de multitasker permanente a profissional de foco

A boa notícia é que consegues mudar a tua forma de trabalhar - passo a passo. Ninguém te pede que, de um dia para o outro, trabalhes em silêncio absoluto. O objectivo é gerir a tua atenção de forma muito mais consciente.

Estratégias concretas para o dia a dia no escritório

  • Planear blocos de single task: reserva intencionalmente 25–50 minutos seguidos para uma única tarefa. Usa um temporizador, desliga notificações e faz uma pausa curta no fim.
  • Reduzir o “barulho” digital: desactiva ou agrupa pop-ups do e-mail, ferramentas de chat e apps. Vê e-mails apenas em horários definidos.
  • Proteger conversas: quando estiveres a falar com alguém - presencialmente ou ao telefone - fecha o e-mail e os separadores do browser. Tira notas a seguir, em vez de meio escrever e meio ouvir.
  • Lista de prioridades logo de manhã: define com clareza: quais são as três tarefas mais importantes de hoje, as que realmente fazem avançar? Trata dessas primeiro.
  • Permitir micro-pausas: mais vale fechares os olhos por instantes ou dares uma pequena volta pelo escritório do que pegares no telemóvel por reflexo “só para preencher a pausa”.

"Quanto mais intencionalmente disseres ‘não’ às distrações, mais visível se torna o teu desempenho para os outros."

O que as lideranças devem aprender com isto

As oportunidades de carreira não dependem apenas do comportamento de cada pessoa, mas também da cultura da empresa. Quando uma equipa é bombardeada constantemente com e-mails, chats e tarefas espontâneas, o multitasking passa a ser praticamente inevitável.

As chefias podem contrariar esta dinâmica ao:

  • Definir prioridades claras e realistas
  • Não confundir disponibilidade com desempenho
  • Aceitar e dar o exemplo de períodos de trabalho focado sem interrupções
  • Tornar as reuniões mais curtas, mais objectivas e sem telemóvel

Para líderes em início de trajecto, isto também conta para a carreira: quem protege a equipa de armadilhas de multitasking gera melhores resultados e reduz a rotação.

Como vender bem o teu estilo de trabalho

No CV e na entrevista, não precisas de insistir que consegues fazer cinco coisas ao mesmo tempo. É muito mais forte mostrares que tens capacidade para fechar tarefas complexas de forma estruturada e fiável.

Algumas formulações mais alinhadas com um estilo que favorece a carreira, por exemplo:

  • "Trabalho com concentração e defino prioridades de forma consistente quando a pressão aumenta."
  • "Mesmo com muitos pedidos, mantenho a visão global e tomo decisões claras."
  • "Crio condições de trabalho para que tarefas importantes possam ser feitas sem interrupções."

Assim, a mensagem é clara: queres entregar resultados, não apenas parecer ocupado.

Porque a monotarefa consciente pode ser o teu melhor trunfo de carreira

O termo “monotarefa” pode soar aborrecido à primeira vista. No trabalho, porém, significa deixares de desperdiçar energia a saltar de assunto em assunto. Entregas resultados mais limpos, estás mais presente nas conversas, transmites mais segurança - e deixas uma imagem de fiabilidade perante chefias e colegas.

Numa época cheia de distrações, isto pode tornar-se uma vantagem real: quem prova que sabe focar-se tem maior probabilidade de assumir projectos, orçamentos e equipas. Não por ser mais barulhento, mas porque entrega quando conta.


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