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Joan Sutherland e Richard Bonynge: "La Traviata" em Lisboa no 25 de Abril de 1974 - relato

Mulher com vestido branco lendo jornal junto a janela aberta com desfile militar e bandeira de Portugal ao fundo.

Numa manhã chuvosa, já no fim de abril de 1974, uma australiana alta e imponente esperava, com uma calma notável, na fila de embarque do Aeroporto da Portela. Paraquedistas armados controlavam a situação enquanto turistas assustados, apanhados de surpresa pela Revolução portuguesa, observavam em silêncio. Ela tinha 47 anos e estava desacompanhada - e não aceitou auxílio de ninguém.

O aeroporto tinha voltado a funcionar no domingo, 28 de abril, e o marido conseguira sair num dos primeiros voos para Londres, graças à cunha de um embaixador. A australiana, descrita como fisicamente invulgar, tinha um maxilar muito marcado e - segundo palavras pouco simpáticas do “The Economist”, em 2010 - “ombros de estivador e a constituição de um boi”. Sem se perturbar com a curiosidade de quem a rodeava, foi arrastando, com o pé, um conjunto de malas e sacos cheios de roupa, chapéus, azulejos e outras lembranças de quase três semanas em Portugal. Transportava maços de dólares escondidos pelo corpo, sabe Deus onde.

Quando chegou ao controlo fronteiriço, foi interpelada por inspetores da Polícia Judiciária, entretanto colocados no terminal no lugar dos antigos agentes da DGS. Passou sem dificuldade.

Joan Sutherland em Lisboa: “La Traviata” na semana da Revolução

O nome desta mulher era Joan Sutherland. Na segunda metade do século XX, tornou-se uma prima donna absoluta, celebrada nas maiores casas de ópera do planeta. Sutherland (1926-2010) era uma cantora fora de série: voz ampla e brilhante, e uma técnica quase inexplicável, que a inscreveu entre os grandes sopranos de sempre. “A única forma de caraterizar Joan Sutherland é dizer que ela é um fenómeno da natureza, a par das Cataratas do Niágara, o Grand Canyon, o rio Amazonas ou os Alpes”, brincou Robert Jacobson, diretor da revista norte-americana “Opera News”.

Era conhecida como “A Estupenda”, alcunha popularizada em Itália depois de uma récita marcante em Veneza, em 1960. E Luciano Pavarotti, seu amigo, tratava-a por “a voz do século”.

Joan Sutherland e o marido, o maestro Richard Bonynge, vieram a Portugal pela primeira vez em abril de 1974, para três apresentações de “La Traviata”, de Giuseppe Verdi. A derradeira atuação aconteceu na noite de 24 de abril. “Foi uma récita muito boa, correu tudo muito bem”, recorda hoje Bonynge, com 95 anos. “Voltámos muito tarde para o nosso hotel do Estoril. Não vimos nada de anormal nas ruas. Era suposto partirmos no dia seguinte. De manhã acordámos e telefonámos para a receção a pedir que fossem ao nosso quarto buscar as malas. Mas alguém respondeu: ‘Não vale a pena, maestro. Houve uma revolução! Os aeroportos estão fechados e não há forma de sair do país nos próximos dias.’ Ficámos assustados. Foi um pouco preocupante, mas acabou por correr tudo bem. Não é todos os dias que se vive uma revolução. Tenho ótimas recordações de Lisboa e de Portugal”, diz.

Bonynge, tal como Sutherland, nasceu e cresceu num subúrbio de Sydney. Começou por se afirmar como pianista, mas depois de 1962 passou a dedicar-se inteiramente à carreira da mulher. A partir daí, dirigiu praticamente todas as atuações de Joan Sutherland até ao fecho da carreira dela, em 1990.

A própria Joan gostava de dizer que Richard - com quem esteve casada quase 56 anos - foi o arquiteto, o empreiteiro e o técnico de manutenção da sua vida profissional. E não era figura de estilo. No início dos anos 1950, ele moldou-lhe a voz em casa, acompanhando-a ao piano num instrumento de 14 libras (cerca de 6,4 kg), no pequeno apartamento do jovem casal em Londres, onde ambos estudavam com bolsas. Desde então, nunca mais deixaram de trabalhar lado a lado.

Com o tempo, Bonynge levou-a a trocar os grandes dramas wagnerianos pelo repertório do bel canto, que ela acabaria por abraçar sem reservas. Com uma voz luminosa, virtuosismo raro e uma extensão invulgar, transformou-se na maior soprano-coloratura do mundo. Quando chegou a Lisboa, em abril de 1974, era a diva por excelência, vista como herdeira natural de Maria Callas.

Era, além disso, a cantora mais bem paga do circuito: entre cinco e dez mil dólares por atuação, segundo o ranking célebre que o diretor artístico Michael Scott publicou em julho de 1972 numa revista britânica (Montserrat Caballé, por exemplo, cobrava entre 4000 e 7500 dólares; Renata Tebaldi 5000 a 6000; tenores como Alfredo Kraus ou Plácido Domingo ganhavam muito menos).

As movimentações do dia 25 de Abril apanharam de surpresa o posto da CIA em Lisboa, chefiado por John Morgan, que chegara a Portugal poucos meses antes

Uma produção entre o São Carlos e o Coliseu dos Recreios

João de Freitas Branco, diretor do Teatro Nacional de São Carlos desde 1970, conseguiu formar um elenco excecional para as récitas de abril de 1974. Para lá de Sutherland (como Violetta Valéry), o cartaz incluía Kraus (Alfredo Germont) e o italiano Giorgio Zancanaro (Giorgio Germont), considerado o melhor barítono verdiano da sua geração.

O espanhol Alfredo Kraus, muito estimado em Portugal, era admirado pela elegância e pela sensibilidade. Curiosamente, em março de 1958, cantara precisamente “La Traviata” no mesmo São Carlos ao lado da lendária Callas - e parte da crítica, então, entendeu que ele eclipsou a grande diva (o registo de Lisboa, de 27 de março de 1958, foi gravado e existe em CD remasterizado).

“No repertório” de Sutherland, “La Traviata” entrara em 1960. Para Bonynge, Violetta - a cortesã de luxo que se apaixona por Alfredo e acaba por morrer de tuberculose, numa trama inspirada em “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas (filho) - estava entre as personagens prediletas de Joan. “Além disso, ‘La Traviata’ é a primeira ópera verdadeiramente moderna: nas roupas, nos modos, no sentimento”, diz.

Nas memórias “A Prima Donna’s Progress”, publicadas em 1997, Sutherland descreve a encenação lisboeta como “extremamente crua e severa”. “As mesmas cadeiras apareciam em cada cena, fosse em casa de Violetta ou na festa da amiga dela Flora. E as roupas do coro eram pouco inspiradas”, lê-se no livro. A soprano decidiu, por isso, enviar para Lisboa, com grande antecedência, os seus próprios figurinos e adereços usados na digressão australiana de 1965 - incluindo perucas, leques, joias e, sobretudo, os impressionantes vestidos compridos desenhados por Tonina Doráti e fabricados por Barbara Matera. “Ainda bem que o fiz”, escreve.

O calendário de ensaios foi apertado. O casal chegou a Lisboa na semana da Páscoa e trabalhou no São Carlos na Sexta-Feira Santa (feriado nacional) e na Segunda-Feira de Páscoa (feriado na Austrália, na Inglaterra e em muitos países anglófonos). Poucos dias depois, na quinta-feira, 18 de abril, estava marcada a estreia.

Todos os dias, um motorista levava-os do Hotel Palácio, no Estoril, até ao teatro pela Estrada Marginal - percurso que ela adorava. O único filho do casal, Adam Bonynge, acabara de fazer 18 anos e juntou-se aos pais para umas curtas férias em Portugal. Frequentava o colégio privado de Aiglon, na Suíça, e estava no último ano do ensino secundário. “Estive alguns dias em Portugal e regressei à Suíça depois da noite de estreia. Lisboa é uma cidade linda e o hotel no Estoril era maravilhoso. Mas eu era bastante novo. Na verdade, na altura estava mais interessado nos bares de Cascais”, recorda Adam, hoje com 70 anos, reformado na região de Sydney.

Nem tudo, porém, foi agradável para o adolescente. No Casino Estoril, foi impedido de entrar por ter menos de 21 anos - a idade da maioridade em Portugal na época. Na noite da ópera, voltou a ser travado à porta, desta vez por não usar traje de gala. “O que me lembro é que quase não me deixaram entrar no espetáculo apesar de ir muito bem vestido, de fato e gravata. Queriam que fosse de smoking, o que me pareceu um pouco exagerado para a minha idade”, diz.

Ao que parece, Joan Sutherland irritou-se seriamente com os porteiros do Teatro Nacional de São Carlos e fez “um estardalhaço”. Chegou a ameaçar fazer as malas e regressar a casa. Depois de muita discussão, Adam acabou colocado num espaço improvável: um camarote com grelhas de madeira, uma singularidade histórica do teatro setecentista. Estes lugares, graças às “treliças de discrição” - muito usados outrora por membros do clero ou da polícia - permitiam ver o palco e a sala sem ser identificado.

“Suponho que as coisas tenham mudado muito desde então”, acrescenta Adam, numa troca de e-mails com o Expresso. “A verdade é que regras são regras, mesmo para o filho da prima donna e do maestro”, escreveu a mãe a propósito do incidente na autobiografia “A Prima Donna’s Progress: The Autobiography of Joan Sutherland”.

Joan Sutherland levava maços de dólares escondidos um pouco por todo o corpo, só Deus sabe onde

A estreia foi um triunfo. “É uma daquelas cantoras que marcam uma época. Pode-se falar duma época de Maria Callas e duma época Joan Sutherland”, escreveu Mário Vieira de Carvalho, no “Diário de Lisboa” de 22 de abril. O crítico sublinhou a “técnica vocal insuperável” da soprano: ela “fez coisas na região da coloratura de que só ela é capaz, ou que só ela descobriu e inventou”.

Na revista “Flama”, o compositor e musicólogo (e futuro diretor do São Carlos) João Paes observou que a australiana “justificou a sua celebridade como soprano-coloratura (no primeiro ato) e revelou (nos atos seguintes) insuspeitadas virtualidades dramáticas”. Já no “Século Ilustrado”, a decana da crítica musical Maria Helena de Freitas entusiasmou-se com uma intérprete que “possui todas as características da verdadeira diva sem os habituais defeitos. Tem o à plomb, a classe das grandes vedetas. Intérprete de excecional categoria, deslumbrou pelos malabarismos de que fez uso no final do primeiro ato e comoveu até às lágrimas em todo o segundo ato”.

As três récitas respeitaram a organização tradicional das temporadas de ópera do São Carlos: uma récita de gala na noite de estreia, com traje de rigor obrigatório (vestido comprido para senhoras e smoking para cavalheiros); uma segunda récita à tarde, geralmente ao domingo, também no São Carlos; e uma terceira e última récita popular, à noite, no Coliseu dos Recreios, com bilhetes mais acessíveis.

As galas eram, naturalmente, momentos sociais maiores para a elite lisboeta. Para cronistas como Vera Lagoa, autora de “Bisbilhotices” - coluna social de enorme sucesso no “Diário Popular” nas décadas de 1960 e 1970 -, esta “La Traviata” deu matéria abundante, sobretudo nos intervalos. Vera Lagoa, então com 56 anos, escreveu várias linhas sobre a “noite deslumbrante” de 18 de abril, citando, no seu estilo habitual, mais de uma dúzia de nomes e respetivas toilettes: “Eu estava de tal forma emocionada que difícil me foi tomar nota daquilo que esperam que eu venha aqui contar. Mas venho. Não me podia ter passado despercebido o vestido catita, autêntico 1925, usado pela Jeanne Pinto de Figueiredo. Bem como o colar espantoso da Fernanda Cabral. Nem que naquela noite duas pessoas que nunca vi em São Carlos estavam nos camarotes. O ministro Silva Pinto. Cupertino de Miranda. O smoking de Nicha Cabral era de trazer para casa. E o próprio Nicha também.”

No Coliseu dos Recreios, a terceira récita acabou por ter a plateia mais vibrante. O espetáculo estava anunciado para as 21h15 de 24 de abril, mas arrancou com um pequeno atraso. Foi uma das maiores enchentes de que há memória no Coliseu, com gente a preencher o espaço “na sua enorme vastidão, de alto a baixo, de lés a lés”, segundo o “Diário de Notícias” de 26 de abril.

A crónica, sem assinatura, é exuberante nos adjetivos: “Ovações intermináveis premiaram os trechos mais expressivos da ópera e dos seus dois bem extraordinários intérpretes principais, cabendo a todos, ainda, bem significativos e entusiásticos aplausos. De apoteose a ovação que fechou o espetáculo”. Bonynge lembra uma assistência “extremamente grata e barulhento”, bem como as sucessivas interrupções e chamadas ao palco, no desfecho.

Recorda também um odor intenso a suor e a excremento de animais por todo o palco - um provável eco das tardes de circo no Coliseu -, “quase insuportável” nos camarins. Quando Joan e Richard voltaram ao hotel, já nas primeiras horas de 25 de abril, estavam exaustos, “mas muito felizes”.

Dias de incerteza e passeios no Portugal revolucionário

Depois do primeiro sobressalto com as notícias, decidiram tirar partido dos dias iniciais do Portugal revolucionário. “Logo nessa manhã de 25 de abril recebemos um telefonema do embaixador australiano Kevin Kelly, que era um homem muito calmo e prático. Ele achava que dentro de três ou cinco dias tudo estaria mais calmo e seria possível sair de Portugal”, recorda Richard Bonynge.

“Aproveitámos para descansar e apreciar a comida no Estoril e arredores. O embaixador pôs um carro à nossa disposição. Divertimo-nos muito, foi um tempo maravilhoso.” Já antes tinham ido a Sesimbra, Setúbal, Sintra e ao “palácio cor-de-rosa” (então, a cor do Palácio de Queluz). “Fomos a tantos sítios bonitos. Também fomos a uma tourada, que foi um espetáculo muito excitante. Adoro touradas. As pessoas dizem-me que não deveria, mas a verdade é que gosto. São simplesmente maravilhosas. Em Portugal não se mata o touro, por isso é menos cruel. Também fomos a um convento fantástico onde as freiras faziam tapetes e todo o tipo de coisas lindas. Encomendámos-lhes um tapete muito grande, que queríamos para a nossa sala de jantar. E elas fizeram-no para nós. Enviaram talvez um mês depois para a nossa casa na Suíça.”

Quarto com vista para a revolução

No próprio 25 de abril, Regina Resnik, amiga americana, tentou falar com Joan por telefone várias vezes, ligando para o Hotel Palácio. Resnik, então com 51 anos, era soprano (e mais tarde meio-soprano) e figurava entre as estrelas da Metropolitan Opera de Nova Iorque. Estava em Lisboa a ensaiar duas óperas menos conhecidas do século XX - “O Urso”, de William Walton, e “A Medium”, de Gian Carlo Menotti - com estreia prevista no São Carlos a 4 de maio.

“A Regina era uma grande amiga nossa. Estava muito aflita com a revolução. Ficou mais descansada quando lhe dissemos que tudo voltaria à normalidade dentro de três dias, como o embaixador nos garantira. Mas lembro-me que ela apanhou um grande susto”, diz Bonynge.

Resnik e o marido, Arbit Blatas, autor dos cenários das duas óperas, estavam instalados num pequeno hotel no Chiado, a escassa distância do São Carlos e também da sede da DGS, no nº 20 da rua António Maria Cardoso. Ao contrário do casal australiano, eles não beneficiaram de grande apoio da embaixada dos Estados Unidos.

O embaixador Stuart Nash Scott tinha sido nomeado apenas em dezembro de 1973 e, no dia da Revolução, encontrava-se de visita à base das Lajes, nos Açores. A embaixada tinha falta de pessoal. E as movimentações do dia 25 apanharam igualmente desprevenido o posto da CIA em Lisboa, dirigido por John Morgan, chegado a Portugal poucos meses antes. Os outros dois agentes da CIA na capital também eram nomeações recentes, de maio e julho de 1973.

De forma surpreendente, a tomada da sede da polícia política nem sequer estava contemplada no plano geral do golpe militar. Um pequeno destacamento de fuzileiros tentou negociar a rendição dos antigos elementos da PIDE/DGS. Não conseguiu e retirou-se a meio do dia 25.

Por volta das 20h10, agentes da DGS abriram fogo sobre a população que se concentrava nas imediações do edifício, provocando quatro mortos e dezenas de feridos. Nessa altura, o regime já tinha caído - desde as 18 horas - com a capitulação do Presidente do Conselho Marcello Caetano no Quartel do Carmo.

Depois do tiroteio, os golpistas reforçaram as posições em redor da sede da DGS com 100 soldados do Regimento de Cavalaria Nº 3 de Estremoz. Mais tarde chegaram dois destacamentos de fuzileiros, somando cerca de 230 homens. O edifício ficou completamente cercado. Quatro blindados Panhard EBR controlavam as esquinas, com os canhões apontados ao imóvel. A ocupação só se concretizou na manhã de 26 de abril.

Regina Resnik e Arbit Blatas seguiram tudo da janela do hotel. Com o Teatro Nacional de portas fechadas no dia 25 e nos dias imediatos, os ensaios de “O Urso” e “A Medium” passaram para o hotel - com jipes, blindados e autometralhadoras como cenário.

Resnik (1922-2013) e Blatas (1908-1999) já morreram, mas James Conley, antigo adido de imprensa e cultura na embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, guarda a memória do episódio: “No dia da Revolução, recebi uma chamada da CBS em Nova Iorque. Eles tinham a informação de que um edifício importante estava a ser cercado e queriam saber o que estava a acontecer. Então eu disse-lhes: ‘Posso pôr-vos em contacto com uma testemunha ocular que vos pode descrever o que está realmente a acontecer. Tenho a certeza de que ela gostará de falar convosco. O nome dela é Regina Resnik.’ O tipo da CBS não queria acreditar: ‘Quem? A estrela de ópera?’ ‘Essa mesmo’, disse eu. ‘A janela dela tem vista para o edifício.’ A Regina adorou ser contactada pela CBS. O relato dela teve um impacto enorme. Ela veio várias vezes a Portugal com outras óperas após a Revolução. Ficámos amigos.”

Regresso à Suíça, carreira e a ária cantada antes do país mudar

Joan Sutherland e Richard Bonynge só voltaram a casa, em Les Avants, perto de Montreux, no último dia de abril de 1974. O Chalet Monet, com torreões de conto de fadas e interiores verdes e vermelhos, parece um cenário operático pousado nas montanhas suíças.

Dois dias depois, já viajavam para Nova Iorque para iniciar uma longa digressão norte-americana com a Metropolitan Opera. Ao longo do resto da década de 1980, Sutherland continuou a fascinar os maiores palcos: voz sempre cheia e extensa, sobreagudos fáceis, técnica irrepreensível e afinação sem falhas.

Um crítico escreveu que apenas os pássaros poderiam competir com a pirotecnia vocal das suas escalas no registo mais alto. “Sutherland tinha uma voz que esculpia o ar em arabescos”, dizia o escritor australiano Peter Conrad. “Ao contrário das heroínas das óperas que ela representava - débeis, tísicas, mentalmente frágeis -, Sutherland era uma mulher robusta, de cara vulgar e aspeto comum que disparava galáxias de som que estouravam no ar como o fogo de artifício que foi usado dentro do auditório da Ópera de Sydney na noite em que ela se despediu de nós, em 1990.”

Joan Sutherland morreu em 2010, aos 83 anos. Nunca se sentiu confortável no papel de deusa da ópera. “Já passaram quase 16 anos desde que a minha mãe faleceu e sinto muito a falta dela”, diz Adam Bonynge. “O lado bom, no entanto, é que posso sempre continuar a ouvi-la - no meio dos meus discos de Hendrix, Led Zeppelin, Neil Young e muitas outras bandas dos anos de 1970 e 1980.”

Não tinha manias de diva: era despretensiosa e modesta, com um humor muito próprio. Não costumava negar autógrafos. Entre ensaios, fazia malha e tricotava cobertas de almofadas.

Lisboa ouviu-a numa noite irrepetível. Já passava da meia-noite de 24 para 25 de abril quando Sutherland cantou “Adeus ao passado”, do ato III de “La Traviata”. Nessa ária, Violetta, moribunda, despede-se da alegria, do amor e da vida, num adeus pungente ao sentir que o tempo se esgota. O Coliseu ficou em silêncio, como suspenso; no fim, rebentaram os aplausos, com muitos de pé e lágrimas nos olhos. Por volta da mesma hora, às 0h20 do dia 25 de abril de 1974, após a rádio transmitir a segunda senha da Revolução, os capitães de Abril saíam dos quartéis e iniciavam as operações em todo o país.

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