As redes sociais estão cheias de #mentalhealth, há podcasts a falar de trauma e burn-out, e nas universidades vêem-se cartazes a promover apoio psicológico. Ainda assim, imensos jovens continuam a sentir-se, por dentro, completamente desamparados. A história de Nasrine (nome fictício), uma estudante de 24 anos cuja mãe sempre achou que psicólogos eram “para malucos”, mostra como este tipo de mentalidade antiga continua a marcar - e como dar o passo para a terapia pode ser libertador.
Crise psicológica mesmo quando “por fora parece tudo normal”
À superfície, a vida académica de muitos estudantes parece encaixar: aulas, trabalho em part-time, casa partilhada, saídas e convívio. Mas, por dentro, algo vai cedendo. Os números mais recentes são claros: mais de metade dos estudantes avalia a sua saúde mental como “não boa”. Muitos lidam com:
- cansaço persistente e perturbações do sono
- tensão constante e ruminação
- medo de falhar no curso
- pressão intensa da família ou preocupações financeiras
Segundo um inquérito, cerca de 60% dos jovens inquiridos apresentam sinais de sofrimento psicológico e 38% chegam mesmo a ponderar abandonar o curso por motivos emocionais. Por detrás destas percentagens estão vivências concretas - como a de Nasrine.
“Aguenta”: quando a ideia de força se transforma em silêncio
Nasrine cresce num contexto em que a dureza é valorizada. Queixar-se é visto como fraqueza. Quem tem problemas deve “aguentar” e seguir em frente. Exalta-se a resiliência, a capacidade de esforço e a disciplina - como se fosse uma equação em que os sentimentos não entram.
Quando começam os primeiros sinais de sofrimento psicológico a sério, ela não os verbaliza. Não fala com a mãe, nem com amigos. Os pensamentos não param, a pressão aumenta, mas por fora mantém-se a imagem de quem “funciona” sempre.
“Mesmo quando havia pessoas à minha volta, sentia-me por dentro completamente sozinha.”
Ela nunca aprendeu a pôr em palavras o que se passava dentro dela. À angústia junta-se a vergonha: e se os outros acharem que ela é fraca? Ou “maluca”?
Quando os pais estigmatizam a terapia
A forma como a mãe encara a terapia deixa marcas profundas. Para ela, quem vai a uma psicóloga tem “um problema na cabeça”. Frases deste tipo aparecem em muitas famílias, seja na Alemanha, em França ou noutros países:
- “Isso não é assim tão grave.”
- “No nosso tempo também havia preocupações e ninguém ia para terapia.”
- “Assuntos de família não se discutem com estranhos.”
Raramente estas palavras são ditas com maldade, mas podem causar estragos enormes. A mensagem implícita é: sentir é perigoso, os problemas resolvem-se em silêncio, pedir ajuda é motivo de vergonha. O resultado é que quem sofre tende a isolar-se e a esperar até ao ponto em que já não consegue funcionar.
Estudos indicam que mais de metade dos estudantes que teriam problemas de saúde mental não recorre a qualquer serviço de aconselhamento da sua instituição - apesar de estes existirem. A porta está aberta, mas a barreira interior continua lá.
Socialmente ligados - emocionalmente isolados
No TikTok, no Instagram e noutras plataformas, parece que os jovens falam o tempo todo sobre depressão, ataques de pânico e “saúde mental”. Sob a hashtag #mentalhealth acumulam-se vídeos com humor negro, clips em POV (“imagina que já não consegues…”) ou storytimes pessoais, muitas vezes com lágrimas diante da câmara.
Ao mesmo tempo, no quotidiano, muita gente vive uma realidade bem diferente:
Nunca foi tão fácil enviar mensagens - e, ainda assim, tantas pessoas nunca se sentiram tão sós.
Falar online pode ser mais simples porque o ecrã protege. Já na sala de estar, à mesa da cozinha ou numa chamada com os pais, uma crise emocional continua a ser um assunto delicado. Esta distância entre o discurso digital e a vida real evidencia como o tabu familiar ainda pesa.
O ponto de viragem: um telefonema para uma linha anónima de escuta
A mudança começa para Nasrine quando descobre uma organização que, durante a noite, disponibiliza uma linha anónima de telefone e chat para estudantes. Do outro lado estão também estudantes, com formação específica, mas não profissionais. Este detalhe baixa muito a sua resistência: sem o rótulo de “paciente”, sem sala de espera, sem burocracia - apenas uma voz do outro lado.
Ela hesita durante muito tempo. Marca o número várias vezes e desliga. Escreve mensagens e apaga-as. Até que, finalmente, liga. E, pela primeira vez, diz a outra pessoa em voz alta: “Eu não estou bem.”
Nessas conversas aprende uma ideia decisiva: é permitido estar mal. Não se é um caso perdido, nem um “problema”, por se sentir esmagado pela vida naquele momento.
De procurar ajuda a ajudar outros
O apoio tem efeito. Nasrine sente-se menos sozinha, recebe pistas práticas sobre como iniciar uma terapia e aprende a levar mais a sério os seus próprios limites. Anos depois, volta ao mesmo projecto - agora do outro lado do telefone.
Torna-se voluntária como ouvinte. A razão é simples: quer devolver aquilo que, na altura, a salvou. Hoje acompanha estudantes que, de madrugada, estão na cozinha da casa partilhada a rir alto, mas por dentro estão à beira de quebrar. A mensagem que lhes deixa é directa: não és estranho por estares a sofrer. És corajoso por o dizeres.
Conflito de gerações à mesa da cozinha
Este caso mostra bem o ponto em que muitas famílias se encontram. A geração mais nova está, em geral, mais disponível para falar de emoções, medos e crises - pelo menos online. Já a geração dos pais foi educada na lógica de: cala, aguenta, “não te armes”.
Para pais que querem apoiar sem tornar tudo “clínico”, ajuda mudar o ângulo. Algumas formas de começar:
- Perguntar com regularidade no dia a dia: “Como é que te sentes mesmo com a situação actual?”
- Admitir fragilidades próprias: “Na tua idade também me senti muitas vezes sobrecarregado e teria gostado de ter ajuda.”
- Evitar dar soluções imediatas; primeiro ouvir e fazer perguntas.
- Apresentar terapia ou aconselhamento não como “último recurso”, mas como uma opção normal - semelhante à fisioterapia depois de uma lesão desportiva.
A diferença decisiva: os filhos falam mais quando percebem que não vão ser julgados.
Como o estigma se vai desfazendo, devagar
Cada vez mais jovens adultos procuram apoio, seja através de aconselhamento online, aplicações, grupos de entreajuda ou psicoterapia tradicional. E a imagem do tratamento também se transforma: sai a ideia de “manicómio” e entra a noção de um espaço onde se ganham ferramentas para o dia a dia.
Hoje, terapia significa muitas vezes:
- perceber melhor a ligação entre pensamentos e emoções
- encontrar estratégias para travar ciclos de ruminação e momentos de pânico
- questionar padrões familiares antigos que já não fazem sentido
- definir limites mais saudáveis em relação ao curso, ao trabalho e às relações
Quem avança nestes passos não se protege apenas a si próprio. Muitos acabam por partilhar a experiência mais tarde - como conselheiros, voluntários, pessoas de referência no grupo de amigos ou nas redes sociais. É aqui que acontece a revolução silenciosa: a vergonha transforma-se em solidariedade.
Indicações práticas para começar a procurar ajuda psicológica
Para quem se revê na história de Nasrine, pode ser útil ter um rumo simples e concreto. Possíveis primeiros passos:
- Falar com alguém de confiança que saiba ouvir - sem minimizar.
- Pesquisar a consulta de psicologia/aconselhamento da faculdade ou universidade e pedir marcação.
- Usar recursos de baixo limiar, como linhas telefónicas de apoio, chats de aconselhamento ou linhas de escuta para estudantes.
- Marcar consulta com o médico de família se os sintomas forem intensos (insónia, ataques de pânico, pensamentos suicidas).
- Não tomar a reacção dos pais como verdade final - mas como reflexo da educação e das crenças deles.
Este último ponto é particularmente importante: quem cresce a ouvir que terapia é só “para malucos” carrega essa mensagem durante muito tempo. Questioná-la exige coragem, mas é precisamente aí que começa a mudança real - na cabeça, à mesa da cozinha, no anfiteatro e, por vezes, no meio da noite, ao telefone, com alguém que simplesmente escuta.
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