Posse de Péter Magyar e maioria do Tisza no parlamento
Depois de uma vitória expressiva nas legislativas contra o ultranacionalista Viktor Orbán, o novo primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar, comprometeu-se este sábado a “servir” a Hungria e não a “governar” como um monarca, durante a tomada de posse perante o parlamento.
Na primeira sessão do novo parlamento, o conservador pró-europeu Péter Magyar foi eleito primeiro-ministro com 140 votos a favor, 54 contra e uma abstenção.
O Tisza, partido liderado por Péter Magyar, saiu vencedor das eleições legislativas de 12 de abril com uma maioria alargada, assegurando mais de dois terços da câmara - 141 dos 199 lugares.
“Não reinarei sobre a Hungria, mas servirei o meu país. Servi-lo-ei enquanto os meus serviços forem úteis e a nação precisar deles”, afirmou, frisando que “milhões de pessoas escolheram a mudança” após 16 anos com Viktor Orbán como primeiro-ministro.
“Mudanças” e apelo a uma transformação do sistema
No seu primeiro discurso como chefe do Governo - com mais de uma hora - Magyar pediu aos deputados que escutassem a mensagem saída das urnas: “Peço a todos aqui, no interior do parlamento, que ouçam e ouçam que os húngaros expressaram que querem mudanças, não apenas uma mudança de governo, mas de sistema”.
O discurso foi várias vezes interrompido por aplausos entusiásticos da maioria parlamentar e foi também acompanhado no exterior do parlamento por uma multidão.
Magyar defendeu que o país precisa de “um novo começo” e de ser “reconstruído em termos de Estado, confiança, unidade nacional e esperança”. Dirigindo-se aos apoiantes do Fidesz, deixou a mensagem: “Começaremos a trabalhar juntos com respeito mútuo”.
Demissões no Estado e recado ao Presidente Tamás Sulyok
Magyar voltou a insistir que devem sair figuras do Estado indicadas durante o período de Viktor Orbán e do partido do antigo primeiro-ministro, o Fidesz, apontando desde logo o Presidente húngaro, Tamás Sulyok, segundo o meio online telex.hu.
Numa chamada direta, apelou “às figuras públicas e aos líderes institucionais que se tornaram bodes expiatórios políticos do sistema passado -- ou que sempre o foram -- para que assumam a sua própria responsabilidade e se afastem, demitam-se hoje ou, o mais tardar, até 31 de maio”. Considerou que o Presidente não consegue representar “a união da nação” e sustentou: “Tamás Sulyok deve iniciar [o processo de saída] imediatamente”.
Fitando o chefe de Estado nos olhos, avisou: “Está na hora de sair enquanto ainda pode”.
Corrupção, fundos da UE e reformas anunciadas por Péter Magyar
Magyar insistiu ainda que os “responsáveis serão responsabilizados pelas suas ações”.
“Herdamos uma Hungria que é um dos países mais corruptos da UE, onde 8 triliões de florins de fundos da UE foram perdidos devido à corrupção e ao desmantelamento deliberado do Estado de Direito”, afirmou, numa referência aos 17 mil milhões de euros retidos por Bruxelas devido a preocupações com violações do Estado de Direito e corrupção sistémica na Hungria, considerado nos últimos quatro anos como o mais corrupto do bloco europeu, segundo a Transparência Internacional.
“Quem acredita que lealdade partidária, fidelidade ou outros fatores os isentam de responsabilidade está enganado”, prosseguiu Magyar.
Sobre a cerimónia no parlamento, assinalou a ausência de Viktor Orbán - que abdicou do cargo de deputado - e também de Ferenc Gyurcsány, primeiro-ministro da Hungria entre 2004 e 2009. Para Magyar, ambos “fracassaram politica, humana e moralmente” e “viraram as costas, renunciaram e estão a lavar as mãos”.
Entre as primeiras medidas, anunciou a criação do Gabinete para a Recuperação e Defesa do Património Nacional, sublinhando que “os húngaros têm o direito de saber como o património público se tornou riqueza privada”. Esta estrutura terá como missão recuperar fundos alegadamente desviados para oligarcas próximos de Orbán e do Fidesz.
Sobre a maioria alcançada nas eleições, defendeu: “O poder deve sempre operar dentro de limites”.
“Iremos realizar uma revisão abrangente do sistema constitucional da Hungria, fortalecer o sistema de freios e contrapesos e restaurar as instituições independentes”, declarou.
“Cabe-nos decidir como viveremos com a liberdade que acabamos de receber: a confiança deve transformar-se em leis, a autoridade em serviço e a vitória numa vida quotidiana melhor e mais humana. Trabalharemos nisso com humildade e serviço”, concluiu.
No final, os deputados do Tisza aplaudiram de pé, enquanto, do lado de fora, milhares de apoiantes acompanhavam as palavras de Magyar através de ecrãs gigantes e agitavam bandeiras da Hungria.
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