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Vacina contra o herpes-zóster reduz risco de demência em 50%, revela novo estudo.

Mulher sénior a receber vacina no braço de profissional de saúde num consultório com janela iluminada.

Uma nova análise realizada no Reino Unido aponta que a vacina contra o herpes zóster (zona) pode fazer mais do que evitar a dor intensa associada à doença: os dados sugerem também uma redução clara do risco de demência. Em particular, a doença de Alzheimer - a forma mais comum de demência - surge como o principal foco deste efeito observado. As conclusões voltam a colocar em cima da mesa a hipótese de que infeções virais e vacinação possam influenciar a saúde do cérebro à medida que envelhecemos.

O que a investigação mostrou, na prática

O estudo, muito citado nas últimas semanas, foi desenvolvido a partir de registos de saúde do País de Gales. A equipa analisou uma grande amostra de pessoas idosas, incluindo indivíduos que tinham sido vacinados contra o herpes zóster em anos anteriores.

"Em pessoas com 71 anos ou mais, o risco de demência após uma vacina contra o herpes zóster foi cerca de 51 por cento mais baixo do que em não vacinados."

Para chegar a esta estimativa, os investigadores recorreram a dados de pouco mais de 296.000 pessoas, todas com, no mínimo, 71 anos. Uma parte tinha sido vacinada com o Shingrix; outra parte não tinha recebido qualquer vacinação contra o herpes zóster. Ao longo de vários anos, foi registado quantos participantes receberam um diagnóstico de demência.

O dado mais marcante foi a menor frequência de demência no grupo vacinado. Além disso, a associação pareceu ser especialmente forte nas situações de Alzheimer, que, por si só, representam 60 a 80 por cento de todos os casos de demência. Os resultados foram publicados na revista científica Nature Communications.

Herpes zóster, vírus varicela-zóster e o cérebro (Alzheimer e demência)

Para perceber esta ligação, é útil recordar o que está por trás do herpes zóster. A doença é provocada pelo vírus varicela-zóster (VVZ), conhecido por causar a varicela. Quem teve varicela em criança mantém o vírus no organismo para toda a vida: ele permanece “adormecido” em células nervosas e, décadas depois, pode voltar a ativar-se - originando então o herpes zóster.

O quadro típico inclui uma erupção cutânea muitas vezes muito dolorosa, geralmente em faixa no tronco, frequentemente na região do tórax e, por vezes, também na face ou nos olhos. A ocorrência aumenta de forma evidente com a idade. Em pessoas com mais de 60 anos, estima-se uma frequência aproximada de 5 a 10 casos por 1.000 pessoas por ano.

Especialistas suspeitam que a reativação do vírus no sistema nervoso desencadeia processos inflamatórios que acrescentam carga ao cérebro envelhecido.

"Inflamações crónicas no sistema nervoso central são consideradas um possível motor de doenças neurodegenerativas como a doença de Alzheimer."

Neste contexto, ganha destaque a micróglia, frequentemente descrita como a “polícia de defesa” do cérebro. Em condições normais, estas células ajudam a proteger o tecido nervoso; porém, quando permanecem ativadas durante muito tempo, podem também atacar tecido saudável e acelerar processos de degradação. Se o herpes zóster provocar estímulos repetidos do sistema imunitário dentro do sistema nervoso, é plausível que, a longo prazo, isso aumente o risco de demência.

Porque é que a vacinação pode reduzir o risco de demência

O objetivo principal da vacina contra o herpes zóster é impedir que o vírus varicela-zóster volte a expandir-se no sistema nervoso e cause uma doença dolorosa. O efeito adicional observado nas taxas de demência encaixa bem na hipótese inflamatória.

Em termos simples, o mecanismo suspeito pode ser descrito assim:

  • Menos reativações do vírus significam menos surtos inflamatórios no sistema nervoso.
  • Com menos surtos inflamatórios, a micróglia e outras células de defesa do cérebro ficam menos sobrecarregadas.
  • Assim, possivelmente, menos neurónios sofrem danos persistentes.
  • Isso pode diminuir, ao longo do tempo, a probabilidade de desenvolver demência.

Importa sublinhar que estes resultados não demonstram que a vacina consiga tratar uma demência já instalada. O que os dados sugerem é, antes, que uma parte dos casos poderá ser evitável - de forma semelhante ao que se observa com outras vacinas que previnem infeções graves e, consequentemente, possíveis danos cerebrais associados.

Shingrix: para quem é indicado o vaccino

Em muitos países, incluindo a Alemanha, o Shingrix é considerado o vaccino de referência contra o herpes zóster. É utilizado sobretudo em pessoas a partir dos 60 ou 65 anos, dependendo da recomendação oficial de cada país.

Uma característica relevante: o Shingrix é um vaccino inativado (não vivo). Não contém vírus capaz de se multiplicar; inclui apenas componentes que estimulam o sistema imunitário. Por essa razão, pode ser adequado para muitas pessoas com defesas diminuídas, como idosos ou doentes com determinadas patologias crónicas.

Em alguns grupos de doentes imunossuprimidos - por exemplo, pessoas com esclerose múltipla sob certos tratamentos imunossupressores - a vacinação pode ser individualmente pertinente. A decisão, caso a caso, é tomada por neurologistas, médicos de família ou especialistas em conjunto com a pessoa em causa.

A demência está a aumentar em todo o mundo

Estes dados surgem num período em que o número de casos de demência cresce rapidamente a nível global. Para 2019, as estimativas apontam para cerca de 57,4 milhões de pessoas afetadas. E, com o envelhecimento da população mundial, prevê-se um aumento adicional significativo.

"O aumento da esperança de vida significa: cada vez mais pessoas chegam a uma idade em que a demência se torna particularmente frequente."

A doença de Alzheimer e outras formas de demência representam uma carga enorme não só para quem adoece, mas também para as famílias e para os sistemas de saúde. Por isso, qualquer estratégia que reduza o risco ou atrase o início da doença tem grande impacto social.

Porque o estilo de vida continua a ser a prioridade

Apesar de o efeito associado à vacina contra o herpes zóster parecer impressionante, neurologistas sublinham que o principal “botão de controlo” permanece nos hábitos do dia a dia. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e várias sociedades científicas identificam múltiplos fatores que influenciam, de forma comprovada, o risco de demência.

Quem integrar o máximo possível destas medidas pode proteger o cérebro no longo prazo:

  • Atividade física regular (por exemplo, caminhada rápida, bicicleta, treino de força ligeiro)
  • Alimentação equilibrada com muitos vegetais, fruta, cereais integrais e gorduras saudáveis
  • Poucos ultraprocessados, açúcar e refeições prontas
  • Sem álcool ou consumo muito moderado
  • Deixar de fumar, se ainda fumar
  • Bom controlo da tensão arterial, glicemia e lípidos no sangue
  • Sono suficiente e um ritmo sono–vigília estável
  • Atividade mental e social, por exemplo através de hobbies, associações, aprendizagem na idade adulta

Muitos especialistas defendem que, se uma grande parte da população seguisse estas recomendações, seria possível evitar muito mais casos de demência do que apenas com vacinas ou medicamentos.

O que este estudo não consegue esclarecer

Por mais forte que pareça a associação observada, ela levanta novas dúvidas. A investigação no País de Gales é um estudo observacional. Ou seja, compara grupos no mundo real, sem impor condições rígidas como num ensaio clínico.

Pergunta Situação atual
O estudo prova que a vacinação protege diretamente contra a demência? Não; identifica uma associação, mas não demonstra de forma inequívoca uma relação de causa-efeito.
Um possível “efeito de saúde” pode ter influenciado os resultados? É possível: quem se vacina tende muitas vezes a cuidar mais da saúde em geral.
O efeito aplica-se a todas as idades? Foram analisadas sobretudo pessoas a partir do início dos 70 anos.
Durante quanto tempo dura esta proteção? Ainda existem poucos dados de longo prazo especificamente sobre demência.

Para obter respostas mais robustas, seriam necessários estudos rigorosamente controlados, em que pessoas selecionadas ao acaso recebessem a vacina (ou não) e fossem acompanhadas durante muitos anos. Estes projetos são exigentes, mas alguns já estão a decorrer ou encontram-se em fase de planeamento.

O que doentes e familiares podem fazer agora

Quem se preocupa com o próprio risco de demência não precisa de esperar por novos estudos para agir. Já hoje há medidas concretas ao alcance:

  • Na próxima consulta, perguntar diretamente pela vacina contra o herpes zóster, sobretudo a partir dos 60 ou 65 anos.
  • Rever o boletim de vacinas - muitas vezes surgem outras vacinas em atraso.
  • Vigiar regularmente a tensão arterial, a glicemia e o colesterol.
  • Introduzir pequenas mudanças: escadas em vez de elevador, mais uma caminhada, uma noite sem álcool.
  • Falar abertamente com os médicos sobre queixas de memória persistentes.

Quem já acompanha um familiar com demência pode discutir o tema das vacinas com o médico assistente - não apenas para herpes zóster, mas também para pneumonia e gripe. Em pessoas mais velhas, infeções graves conduzem frequentemente a uma queda acentuada do desempenho cognitivo.

Contexto: o que significam, afinal, demência e Alzheimer

No dia a dia, os termos são muitas vezes confundidos. “Demência” é um termo guarda-chuva para várias doenças em que diminuem a memória, a orientação, a linguagem ou a capacidade de realizar tarefas do quotidiano. A doença de Alzheimer é a forma mais frequente dentro deste grupo.

Sinais iniciais comuns incluem:

  • repetir perguntas com frequência porque a informação recente é esquecida rapidamente
  • dificuldade em orientar-se em locais pouco familiares
  • problemas a organizar finanças ou compromissos
  • alterações de personalidade e de humor

Vale a pena procurar avaliação precoce, porque algumas causas de queixas de memória - como depressão, perturbações do sono ou efeitos adversos de medicamentos - podem ser tratadas.

Vacinação como peça de um “pacote de proteção do cérebro”

À luz destes dados, a vacina contra o herpes zóster não se transforma automaticamente num “remédio milagroso” contra a demência. Ainda assim, ganha destaque como uma possível peça de um conjunto mais amplo de prevenção. Para melhorar as probabilidades no envelhecimento, faz sentido combinar várias frentes:

  • vigilância médica, incluindo as vacinas recomendadas
  • um estilo de vida ativo para o coração e para o cérebro
  • contactos sociais e desafios cognitivos

Quanto mais cedo se começa, melhor. Mas mesmo em idades avançadas, cada passo que reduza a carga sobre o cérebro pode contar - seja uma caminhada diária, um curso para seniores ou, simplesmente, marcar a vacinação contra o herpes zóster.

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