A serotonina, um neurotransmissor sobretudo conhecido por ajudar a regular o humor, pode também ter influência na gravidade do tinnitus (zumbido), de acordo com novos dados científicos.
Um estudo em ratos conduzido por investigadores dos EUA e da China concluiu que reforçar a sinalização da serotonina num circuito cerebral específico aumentou comportamentos associados a esta perturbação neurológica.
Como a serotonina é frequentemente um alvo terapêutico para aliviar sintomas de depressão e ansiedade, estes resultados podem orientar o desenvolvimento de abordagens que atenuem esses problemas sem agravar o tinnitus.
"Suspeitávamos que a serotonina estava envolvida no tinnitus, mas não compreendíamos bem de que forma. Agora, usando ratos, encontrámos um circuito cerebral específico envolvendo serotonina que liga diretamente ao sistema auditivo e verificámos que pode induzir efeitos semelhantes ao tinnitus", afirma o neurocientista Zheng-Quan Tang, da Universidade de Anhui, na China.
"Quando desligámos esse circuito, conseguimos atenuar significativamente o tinnitus. Isto dá-nos uma imagem muito mais clara do que se passa no cérebro - e aponta para novas possibilidades de tratamento."
De forma geral, o tinnitus descreve um ruído “fantasma” que só o doente ouve - muitas vezes um toque agudo, um sibilar, um zumbido ou uma pulsação. Alguns mecanismos subjacentes são conhecidos, como perda de audição ou acumulação de cera no ouvido, mas em muitos casos parece tratar-se de um problema neurológico: o som não é gerado no ouvido, mas sim no sistema auditivo do cérebro.
É difícil transmitir a angústia constante de um sistema auditivo que simplesmente não se cala, mas muitos doentes também referem depressão, ansiedade e ideação suicida. Os tratamentos para estas perturbações do humor incluem frequentemente uma classe de fármacos chamada inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS), que bloqueiam a reabsorção de serotonina pelos neurónios, aumentando a sinalização da serotonina.
Apesar de vários estudos ao longo das últimas décadas terem associado a serotonina ao tinnitus, faltavam provas diretas de uma ligação consistente e de um mecanismo explicativo. Para explorar essa hipótese, os investigadores montaram uma experiência com ratos.
Serotonina e tinnitus: o circuito cerebral identificado nos ratos
Em primeiro lugar, cartografaram a via que liga o núcleo da rafe dorsal - uma região do tronco cerebral que produz serotonina - ao núcleo coclear dorsal, uma área relacionada com a audição. Esta via contribui para regular a forma como os sinais sonoros são processados no cérebro.
De seguida, os cientistas alteraram geneticamente os ratos para poderem ativar, com luz ou com fármacos, neurónios libertadores de serotonina no núcleo da rafe dorsal.
Depois disso, ratos com o circuito da serotonina “ligado” e ratos de controlo foram avaliados através de vários paradigmas experimentais, para perceber se exibiam comportamentos compatíveis com a perceção de um som subjetivo.
Um dos indicadores mais esclarecedores foi a incapacidade de detetar interrupções de silêncio inseridas num som reproduzido aos ratos - um marcador indireto muito usado como substituto de tinnitus em estudos com animais.
"Quando se estimulam estes neurónios serotoninérgicos, vemos que isso estimula a atividade na região auditiva do cérebro", explica o neurocientista Laurence Trussell, da Universidade de Saúde e Ciência do Oregon (OHSU).
"Também observámos que os animais passaram então a comportar-se como se estivessem a ouvir tinnitus. Ou seja, está a produzir sintomas que esperaríamos que fossem vividos como tinnitus em humanos."
Quando foram utilizadas ferramentas inibitórias para desligar por completo este circuito serotonérgico-auditivo, o comportamento semelhante ao tinnitus diminuiu nos ratos. Por fim, quando os investigadores recorreram a ruído intenso para induzir tinnitus, os ratos comportaram-se da mesma forma que quando a atividade da serotonina tinha sido aumentada.
Os resultados indicam que a ligação entre serotonina e tinnitus é real e que este circuito cerebral pode ter um papel direto na geração dos sons “fantasma” relatados pelos doentes, justificando investigação adicional em participantes humanos.
Estes dados sugerem ainda que gerir depressão ou ansiedade quando coexistem com tinnitus exige cautela na abordagem e no tratamento.
"O nosso estudo sugere um equilíbrio delicado", afirma Trussell.
"Pode ser possível desenvolver fármacos específicos para certos tipos de células ou regiões do cérebro, que orientem o aumento de serotonina em algumas áreas, mas não noutras. Dessa forma, poderá ser possível separar os efeitos benéficos e importantes do antidepressivo dos efeitos potencialmente prejudiciais na audição."
As conclusões foram publicadas nas Atas da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos da América (PNAS).
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