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Os cogumelos conseguem eliminar medicamentos nas águas residuais antes que estas cheguem às culturas.

Cientista regando cogumelos com líquido transparente numa bandeja, num campo agrícola ao ar livre.

A água pode parecer limpa, mas muitas vezes transporta químicos invisíveis provenientes de medicamentos. Sempre que alguém toma antidepressivos ou fármacos semelhantes, pequenas quantidades são eliminadas pelo organismo e acabam nas águas residuais.

Mesmo comprimidos não utilizados, quando deitados no lava-loiça ou na sanita, agravam a situação. Parte destes compostos permanece nos biosólidos, um subproduto que muitos agricultores aplicam como fertilizante.

Isto levanta uma preocupação relevante: será que estes químicos “escondidos” podem, ao longo do tempo, afectar o solo, as plantas e a saúde?

Porque é que os biosólidos merecem atenção

Os biosólidos são o material residual gerado nas estações de tratamento de águas residuais. Estes sistemas removem microrganismos patogénicos e metais nocivos, mas alguns químicos complexos - como os medicamentos - degradam-se com dificuldade. Por isso, acabam por ficar retidos nos biosólidos.

Só nos Estados Unidos, produzem-se todos os anos cerca de 4 milhões de toneladas de biosólidos, e aproximadamente 60% é aplicado em solos como fertilizante. Isto mostra o quão comum é a sua utilização.

Os biosólidos favorecem o crescimento das plantas porque são ricos em nutrientes como azoto e fósforo. No entanto, também podem transportar contaminantes orgânicos de origem humana, incluindo fármacos, conservantes e outras substâncias usadas no dia a dia.

Vários estudos indicam que estes compostos conseguem migrar para o solo e, em alguns casos, entrar nas plantas. Isto cria um risco potencial tanto para o ambiente como para a saúde humana.

As limitações do tratamento actual

As soluções de tratamento disponíveis não eliminam totalmente este problema. Investigadores já testaram diferentes abordagens para remover estes químicos: algumas recorrem a bactérias ou enzimas; outras apostam em processos térmicos ou em reacções químicas.

Ainda assim, muitas destas estratégias enfrentam obstáculos. As bactérias, por exemplo, têm dificuldade em degradar compostos que ficam fortemente adsorvidos aos biosólidos.

Já os tratamentos enzimáticos dependem de condições muito específicas, como níveis adequados de pH. Métodos de maior intensidade, como o tratamento térmico ou a ozonização, tendem a ser mais eficazes - mas exigem muita energia e são dispendiosos.

Por estas razões, a comunidade científica passou a procurar uma alternativa que fosse simples, económica e eficaz em condições reais.

Fungos de podridão branca: uma resposta natural

Uma equipa de investigadores da Universidade Johns Hopkins avaliou uma hipótese diferente. O foco recaiu sobre os fungos de podridão branca, conhecidos por degradarem madeira. Estes organismos conseguem digerir a lenhina, um componente resistente que confere rigidez à madeira.

Essa capacidade torna-os particularmente interessantes. Os fungos de podridão branca libertam no meio envolvente enzimas muito potentes, que não actuam apenas sobre um único químico: conseguem decompor vários tipos de moléculas complexas.

Isto torna-os uma opção promissora para tratar biosólidos. Ao contrário de muitas bactérias, os fungos conseguem penetrar e alcançar poluentes retidos no interior de materiais sólidos.

Fungos testados em condições reais

Para avaliar o desempenho em cenários mais próximos do mundo real, os investigadores testaram dois tipos de cogumelos: o cogumelo-ostra e o cogumelo rabo-de-peru. Ambos são comuns, fáceis de obter e simples de cultivar.

Os cientistas adicionaram nove fármacos psicoactivos diferentes a biosólidos e, em seguida, deixaram os fungos crescer sobre esse material durante 60 dias.

Os resultados foram expressivos: cada fungo removeu a maior parte dos medicamentos, com taxas de remoção entre cerca de 48% e 99%.

O cogumelo-ostra destacou-se pelo desempenho. Em alguns antidepressivos, como o citalopram e a trazodona, eliminou mais de 90%.

“Mesmo pequenas concentrações destes compostos podem ter efeitos psicológicos quando consumidas, razão pela qual se tornaram contaminantes preocupantes”, afirma Kate Burgener, doutoranda e autora principal do estudo.

O que acontece durante a degradação

Os fungos não se limitaram a “retirar” os fármacos: transformaram-nos em novas substâncias. Durante o processo, os investigadores identificaram mais de 40 subprodutos diferentes.

Estas transformações ocorreram através de reacções como a fragmentação de moléculas grandes em moléculas menores e a adição de oxigénio - mecanismos típicos associados aos fungos de podridão branca.

Muitos dos novos compostos revelaram-se menos nocivos do que os medicamentos originais. Ou seja, os fungos não se limitaram a deslocar a poluição: contribuíram para a sua desintoxicação.

“Os fungos representam uma estratégia promissora de micoaumentação numa matriz do mundo real, e não apenas em cultura líquida de laboratório”, refere Burgener.

Porque é que os testes no mundo real são essenciais

Uma conclusão importante foi clara: os fármacos não se comportam da mesma forma em todos os ambientes. Alguns compostos degradaram-se melhor em biosólidos do que em testes laboratoriais em meio líquido.

Isto evidencia a necessidade de ensaios em condições reais. O solo e os biosólidos diferem muito do ambiente controlado de um laboratório. Factores como o padrão de crescimento dos fungos e a forma como as enzimas se disseminam podem alterar substancialmente os resultados.

Em materiais sólidos, os fungos expandem-se em rede e libertam enzimas directamente no meio, aumentando o contacto com os poluentes. Em meio líquido, a dinâmica é diferente e a eficácia pode ser inferior.

Uma solução prática e de baixo custo

Esta abordagem, conhecida como micoaumentação, consiste em usar fungos para degradar poluentes em materiais contaminados. Os fungos de podridão branca crescem naturalmente e conseguem actuar sem equipamento caro nem elevado consumo energético.

Os investigadores consideram que este método pode ser integrado nos sistemas actuais de tratamento de resíduos, ajudando a reduzir químicos nocivos antes de os biosólidos chegarem aos campos agrícolas.

Persistem, contudo, desafios. Por exemplo, os microrganismos naturais presentes nos biosólidos podem competir com os fungos. Estudos futuros irão analisar como equilibrar estas interacções.

Ainda assim, este trabalho aponta para uma possibilidade encorajadora: um organismo simples, como um cogumelo, pode ajudar a remover poluição invisível e tornar a agricultura mais segura no futuro.

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