Há mais de 180 anos que os cientistas levantam a hipótese de que os antepassados dos mamíferos punham ovos - mas faltavam fósseis que o demonstrassem.
Agora, os paleontólogos reuniram finalmente indícios sugestivos que dão peso a essas suspeitas antigas.
Há cerca de 250 milhões de anos, em plena pior extinção em massa de que há registo - a chamada Grande Morte - um pré-mamífero atarracado, herbívoro, com presas e de aspeto algo suíno, conhecido como Lystrosaurus, tornou-se dominante em paisagens cobertas de cinzas e lava, sob chuva ácida e mares envenenados.
Um fóssil que aponta para ovos
De acordo com a nova análise, Lystrosaurus terá atravessado esse período turbulento, possivelmente, porque punha ovos. A descoberta, há muito aguardada, pode ajudar a resolver um enigma científico que se arrasta há décadas e reforça a ideia de que a oviparidade foi uma estratégia crucial de sobrevivência para este grupo.
No novo estudo, um trio internacional de cientistas analisou três Lystrosaurus fossilizados em fase muito próxima do nascimento ou já recém-nascidos - incluindo um exemplar que aparenta ter morrido dentro de um ovo colocado há eras, antes de múltiplas extinções em massa.
Cerca de 250 milhões de anos depois de ter ficado preservado, este bebé de Lystrosaurus ainda teve de esperar quase mais duas décadas para “sair” de uma casca há muito desintegrada.
Tomografia por sincrotrão e o embrião de Lystrosaurus
O paleontólogo John Nyaphuli encontrou o bebé preservado em 2008, na região semiárida do Karoo, na África do Sul. No entanto, a tecnologia capaz de revelar o conteúdo delicado do nódulo - incluindo minúsculos fragmentos de osso - só surgiu mais recentemente, graças à tomografia avançada do European Synchrotron Radiation Facility, em França.
À primeira vista, pode não parecer sensato aproximar um espécime tão raro de um acelerador de partículas. Ainda assim, a tomografia por sincrotrão utiliza raios X gerados por partículas aceleradas a grande velocidade para obter, de forma não destrutiva, imagens tridimensionais de estruturas internas minúsculas, como acontece com ossos fossilizados.
Mesmo antes das imagens, já era evidente para os cientistas que um dos exemplares era “uma cria de Lystrosaurus perfeitamente enroscada”, afirma Jennifer Botha, paleontóloga na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo (África do Sul) e coautora do estudo.
“Já nessa altura suspeitei que tivesse morrido dentro do ovo, mas, na altura, simplesmente não tínhamos tecnologia para o confirmar.”
Embora não existam restos de casca, o nódulo onde o animal ficou preservado parece ter aproximadamente o tamanho adequado para um ovo de Lystrosaurus, e a sua postura encolhida desenha um contorno ovóide.
As digitalizações mostraram que a mandíbula inferior do pequeno Lystrosaurus não está fundida, tal como acontece em crias modernas de aves e tartarugas antes de eclodirem - um sinal de que este bebé morreu ainda envolto no ovo.
Além disso, os seus ossos e cartilagens parecem ter sido demasiado frágeis para suportar o peso do corpo, ao contrário do que se observou nos outros dois recém-nascidos de Lystrosaurus analisados.
Botha e colegas propõem que os ovos de Lystrosaurus poderão ter sido moles e com aspeto coriáceo, e não rígidos como os ovos de dinossauro, dos quais existem muitos fósseis.
Como o Lystrosaurus sobreviveu à Grande Morte
Então, porque é que este antepassado de mamífero, herbívoro e pouco imponente prosperou durante a Grande Morte, enquanto criaturas mais ferozes colapsavam?
Trabalhos anteriores já sugeriam que Lystrosaurus era adaptável: há indícios de que alguns membros do género, em climas gelados, recorriam a uma estratégia usada por certos mamíferos atuais para escapar a pressões ambientais - a hibernação.
Este novo trabalho aponta para a sua capacidade ovípara como uma peça central dessa sobrevivência.
Parece que Lystrosaurus punha ovos grandes para o seu tamanho corporal, e ovos maiores seriam menos propensos a secar num ambiente severo, afetado por secas.
Ovos maiores também sugerem que as crias de Lystrosaurus eram provavelmente grandes e precociais - capazes de se alimentar e defender sozinhas, evitar predadores e atingir a maturidade reprodutiva mais depressa.
Além disso, a dimensão dos ovos indica que Lystrosaurus não produzia leite para alimentar as crias, que seriam bem nutridas por grandes reservas de gema antes de eclodirem.
O que isto sugere sobre a origem da lactação
Para lá da questão da sobrevivência, os resultados reforçam ideias já existentes sobre as origens da lactação. Os investigadores explicam que esta pode não ter começado como forma de alimentar bebés, “mas como secreções cutâneas usadas para hidratar os ovos, fornecer nutrientes, protegê-los contra fungos e infeções bacterianas, ou para sinalização hormonal através da membrana do ovo”.
No conjunto, o estudo sugere que Lystrosaurus sobreviveu ao quase “fim do mundo” ao crescer depressa e reproduzir-se cedo, o que lhe deu vantagem no período após a Grande Morte.
“Lystrosaurus ocupa uma posição crucial para compreender como as estratégias reprodutivas moldaram a sobrevivência durante esta extinção”, concluem os investigadores.
O estudo foi publicado na PLOS One.
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