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Descoberto novo tipo de grupo sanguíneo: o tipo MAL ligado ao antigénio AnWj

Criança com bata branca analisa tubo de ensaio com sangue em laboratório moderno.

Um grupo internacional de especialistas em transfusão descreveu, após quase 50 anos de investigação, um novo tipo de grupo sanguíneo. O chamado tipo MAL está associado a um antigénio raro presente nos glóbulos vermelhos e poderá ser determinante - até salvador - para pessoas com grupos sanguíneos pouco comuns. As conclusões foram publicadas na revista científica “Blood” e estão a gerar grande impacto na medicina transfusional a nível mundial.

O que é, afinal, um tipo de grupo sanguíneo

Para muitas pessoas, falar de grupos sanguíneos é pensar em A, B, AB e 0, talvez com a indicação “positivo” ou “negativo”. Porém, a realidade é muito mais complexa. À superfície dos glóbulos vermelhos existem inúmeros marcadores moleculares, conhecidos como antigénios. Estes podem ser proteínas, cadeias de açúcares ou combinações de ambos.

O sistema imunitário distingue estes antigénios com grande precisão. Quando algo não corresponde ao padrão esperado, entram em ação anticorpos. É precisamente isso que torna as transfusões tão delicadas: durante uma transfusão, glóbulos vermelhos de outra pessoa entram em contacto com um sistema imunitário que pode já estar sensibilizado. No pior cenário, as células aglutinam, os vasos podem obstruir e órgãos podem sofrer danos.

Os sistemas “clássicos” ABO e Rhesus são apenas a ponta de um enorme icebergue de grupos sanguíneos, com mais de 300 variantes já conhecidas.

Alguns exemplos de sistemas de grupos sanguíneos relevantes:

  • Sistema ABO (A, B, AB, 0)
  • Sistema Rhesus (Rh positivo / Rh negativo, por exemplo o antigénio D)
  • MNS, Duffy, Kell, Kidd e muitos outros

Cada sistema assenta em um ou vários antigénios. Quando um desses antigénios está ausente ou alterado, surge uma nova variante de grupo sanguíneo. É neste ponto que entra o novo tipo MAL.

Porque é que os grupos sanguíneos raros são tão críticos

Na Europa, a grande maioria das pessoas pode ser transfundida de forma segura com base na combinação ABO e Rhesus. No entanto, existem centenas de outras combinações no mundo. Algumas aparecem apenas em algumas centenas de milhares de indivíduos; outras são tão incomuns que se limitam a certas famílias ou a grupos étnicos específicos.

Considera-se um tipo raro quando menos de 4 em cada 1000 pessoas o têm. Nestes casos, a escolha do dador tem de ser extremamente rigorosa. Um sangue “quase compatível” pode ser suficiente para desencadear reações imunitárias intensas.

Situações particularmente sensíveis incluem:

  • acidentes graves com perda importante de sangue
  • cirurgias complexas
  • anemias graves ou doenças do sangue que exigem transfusões repetidas
  • gravidez, quando anticorpos maternos atacam os glóbulos vermelhos do feto

Em vários países existem registos de dadores raros que podem ser contactados diretamente em caso de urgência. Quanto melhor a comunidade médica identificar e compreender tipos raros, mais segura e eficaz se torna a resposta para estes doentes.

A peça central: um antigénio especial chamado AnWj

O foco da nova investigação é um antigénio designado AnWj. Estudos anteriores já tinham mostrado que cerca de 99% da população mundial apresenta esta molécula nos glóbulos vermelhos. Por isso, o grupo de pessoas sem este antigénio é extraordinariamente pequeno.

A origem deste enigma remonta a 1972. Nessa altura, uma mulher grávida foi admitida num hospital britânico com complicações graves. O feto apresentava uma forma dramática de anemia: os seus glóbulos vermelhos estavam a ser destruídos pelo sistema imunitário da mãe.

A análise laboratorial revelou que aos glóbulos vermelhos do bebé faltava o antigénio AnWj. A mãe tinha produzido anticorpos contra essa característica ausente e, consequentemente, atacava as células do filho. Situações semelhantes voltaram a surgir na mesma família. Para os clínicos, a hipótese mais provável passou a ser a de uma particularidade hereditária, e não um evento casual.

Rastreio genético até ao gene MAL

Durante muitos anos, a causa manteve-se por esclarecer. A mudança ocorreu quando a sequenciação genómica moderna passou a estar disponível. As equipas concentraram-se então em segmentos do ADN que codificam proteínas de superfície dos glóbulos vermelhos.

A característica decisiva em pessoas AnWj-negativas: lacunas típicas no gene MAL, ou seja, perdas de blocos de ADN.

Este tipo de alteração faz com que o organismo não produza corretamente - ou não produza de todo - a estrutura proteica MAL na membrana celular. Sem uma estrutura MAL funcional, o antigénio AnWj não aparece na superfície dos glóbulos vermelhos. Assim, a ligação ficou estabelecida: sem proteína MAL, não há AnWj.

Como um antigénio passa a ser um novo tipo de grupo sanguíneo

Na medicina transfusional, observar um padrão invulgar não é suficiente. Para se reconhecer um novo sistema, é necessário um modelo claro e reprodutível - presença ou ausência de antigénio - sustentado por uma base genética bem definida. É esse o critério que aqui se cumpre.

Em termos práticos: indivíduos com o gene MAL intacto produzem o antigénio AnWj e enquadram-se no tipo “normal”; já pessoas com determinados defeitos no gene MAL não produzem AnWj e podem formar anticorpos contra ele. Por isso, os especialistas propõem um novo sistema de grupo sanguíneo batizado com o nome do gene envolvido: tipo MAL.

Isto tem implicações diretas em transfusões:

  • Pessoas sem AnWj (tipo específico MAL) não devem receber sangue de dadores com AnWj.
  • Se houver contacto, pode ocorrer uma reação hemolítica grave - os glóbulos vermelhos são destruídos.
  • Passa a ser possível identificar estes doentes atempadamente através de testes genéticos dirigidos.

Novos testes, mais segurança

Com a caracterização do tipo MAL, os laboratórios podem criar testes de genotipagem específicos. Em vez de depender apenas da deteção de antigénios na superfície celular, torna-se possível verificar diretamente no ADN se o gene MAL está intacto ou se apresenta as deleções características.

Quanto mais preciso for o apuramento do tipo sanguíneo, menor é o risco de reações transfusionais inesperadas - por vezes fatais.

Para pessoas com padrões raros ou complexos, isto traduz-se em menos incerteza antes de cirurgias, maior previsibilidade ao longo de tratamentos e, durante a gravidez, uma vigilância mais eficaz de possíveis reações por anticorpos.

Quem é mais afetado?

Os grupos sanguíneos raros tendem a concentrar-se em determinadas regiões e linhagens familiares. Em França, por exemplo, existem vários padrões raros em pessoas com raízes na África Subsaariana, em territórios ultramarinos ou no oceano Índico. Noutros países, a distribuição é diferente. Um exemplo conhecido: o Rh-negativo é excecional na China, enquanto na Europa cerca de uma em cada sete pessoas é Rh-negativa.

Quanto ao tipo MAL, tudo indica que a sua frequência é extremamente baixa. Os especialistas apontam para um valor bem abaixo de 1% da população. Muitos poderão ter este tipo sem o saber - até surgir a necessidade de uma transfusão de grande volume ou uma complicação durante a gravidez.

O que doentes e famílias podem aprender com a descoberta do tipo MAL

Mesmo afetando diretamente apenas um número reduzido de pessoas, esta descoberta tem consequências práticas importantes:

  • Serviços de sangue podem procurar de forma mais direcionada características raras e reforçar registos.
  • Doentes de risco com anticorpos pouco claros beneficiam de diagnósticos mais precisos.
  • Ginecologia pode antecipar medidas preventivas em configurações específicas durante a gravidez.
  • Investigação ganha novas pistas sobre a organização das proteínas de membrana dos glóbulos vermelhos.

Quem necessita frequentemente de transfusões - por exemplo, devido a doenças crónicas do sangue - pode falar com o seu médico sobre tipagens alargadas. Em centros especializados, já é possível avaliar muito mais marcadores do que apenas ABO e Rhesus.

Termos que vale a pena conhecer sobre grupos sanguíneos

Termo Significado
Antigénio Marcador de superfície reconhecido pelo sistema imunitário
Anticorpo Proteína que se liga de forma específica a um determinado antigénio
Hemólise Destruição de glóbulos vermelhos, por exemplo numa transfusão incompatível
Genotipagem Determinação de características de grupos sanguíneos com base no ADN
Grupo sanguíneo raro ocorre em menos de 4 em cada 1000 pessoas

O tipo MAL ilustra de forma clara quão finamente ajustados podem ser os grupos sanguíneos. Um segmento mínimo do material genético determina se um antigénio se torna “visível” - e se uma transfusão é segura ou potencialmente fatal. À medida que a medicina se torna mais complexa, cresce também a necessidade deste tipo de conhecimento detalhado.

Para a população em geral, mantém-se válida uma regra antiga: doar sangue regularmente salva vidas, sobretudo quando estão em causa tipos raros. Quanto mais pessoas doarem, maior é a probabilidade de existir a unidade correta, no momento certo, para doentes com necessidades muito específicas.

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