Sex como válvula de escape para stress, solidão ou inquietação interior: aquilo que, para algumas pessoas, soa a cliché tem vindo a ser apontado por estudos recentes em Psicologia como um problema real. Há indícios de que um determinado estilo de vinculação desenvolvido na infância pode estar intimamente ligado a comportamento sexual compulsivo - e de que o tédio e a sobrecarga emocional desempenham um papel central nesse processo.
O estudo: 879 participantes e três questionários
Entre novembro de 2020 e março de 2021, uma equipa de investigação dos EUA inquiriu 879 adultos. Todas as pessoas responderam a três instrumentos padronizados:
- Uma escala de comportamento sexual compulsivo (frequência, perda de controlo, consequências negativas).
- Uma escala sobre a tendência para se aborrecer rapidamente.
- Um questionário sobre estilos de vinculação em relações íntimas.
Com estes dados, foi possível avaliar estatisticamente se certos padrões surgiam com maior frequência em conjunto. O resultado foi claro: quem apresentava um estilo de vinculação ansioso-ambivalente mais marcado mostrava, com muito maior probabilidade, problemas clinicamente relevantes de comportamento sexual compulsivo. Além disso, a propensão para o tédio intensificava ainda mais esta associação.
Por outras palavras: pessoas que procuram proximidade de forma intensa, mas que em simultâneo têm um medo pronunciado de rejeição, tendem mais a usar o sexo como fonte recorrente de acalmia e validação - sobretudo quando se sentem rapidamente vazias ou aborrecidas.
"O sexo pode tornar-se uma via de fuga quando a proximidade assusta e estar sozinho parece insuportável."
O que a vinculação tem a ver com a sexualidade
A teoria da vinculação foi desenvolvida pelo psiquiatra britânico John Bowlby. Em termos simples, descreve como, em crianças, aprendemos a viver a proximidade, a confiança e a segurança - e como esse padrão se reflecte mais tarde nas amizades, nas relações amorosas e também no comportamento sexual.
Em geral, os especialistas distinguem quatro estilos de vinculação:
- Estilo de vinculação seguro: a proximidade é, em regra, confortável; os conflitos costumam ser abordados de forma aberta.
- Estilo de vinculação evitante: a pessoa mantém distância emocional, aparenta independência e controlo.
- Estilo de vinculação ansioso-ambivalente: há uma procura intensa de proximidade, acompanhada por um medo acentuado de rejeição.
- Estilo de vinculação desorganizado: comportamento contraditório, grande insegurança e, frequentemente, experiências traumáticas na infância.
Foi precisamente o estilo de vinculação ansioso-ambivalente que esteve no centro do estudo publicado numa revista especializada em terapia sexual e de casal. A equipa quis perceber se este tipo de vinculação insegura se relaciona com comportamento sexual compulsivo - e qual o peso de estados como o tédio e a sensação de vazio.
O que está por detrás do estilo de vinculação ansioso-ambivalente
Este padrão tende a formar-se em contextos em que as figuras de referência parecem imprevisíveis: ora disponíveis, ora distantes; ora carinhosas, ora sobrecarregadas. A criança aprende algo como: “Posso receber proximidade, mas nunca sei por quanto tempo. Tenho de me esforçar para não ser deixada.”
Na vida adulta, isto manifesta-se muitas vezes através de:
- medo intenso de ser abandonado(a) ou traído(a),
- necessidade constante de confirmação e validação,
- leitura excessiva de pequenos sinais (“Ele não responde, de certeza que me vai deixar”),
- dificuldade em acalmar-se por dentro.
"Quem se sente inferior por dentro procura, no exterior, provas constantes de que é digno de amor - e o sexo pode funcionar como uma prova rápida, mas de curta duração."
Um dos investigadores envolvidos descreve que pessoas com um estilo de vinculação muito ansioso costumam carregar uma auto-imagem negativa dentro das relações. Sentem-se “insuficientes” e antecipam a rejeição. Este padrão interno parece favorecer o comportamento sexual compulsivo: o sexo passa a ser usado para produzir, por momentos, a sensação de valor pessoal, importância e ligação.
Quando é que se fala de comportamento sexual compulsivo?
Ter mais desejo do que outras pessoas não significa, por si só, uma perturbação. A questão torna-se problemática quando o sexo começa a dominar a vida da pessoa. Sinais de alerta frequentes incluem:
- pensamentos sobre sexualidade ocupam grande parte do dia;
- ocorrem actividades sexuais apesar de existirem intenções claras de não o fazer;
- trabalho, relação ou saúde são significativamente afectados;
- vergonha, culpa ou necessidade de esconder o comportamento passam a marcar o quotidiano;
- tentativas repetidas de controlo falham sucessivamente.
Os investigadores sublinham que esta análise não determina a causa destes comportamentos. No entanto, mostra que certos factores tendem a coexistir. Uma ideia central é a seguinte: pessoas com comportamento sexual compulsivo lutam frequentemente com a sua vida emocional - reconhecem mal o que sentem, têm dificuldade em regular emoções ou expressam-nas de forma desajustada.
Porque o tédio pesa mais do que muita gente imagina
Um ponto particularmente relevante do estudo é que a tendência para o tédio funciona como amplificador. Quem se sente rapidamente vazio por dentro tende a procurar estímulos mais intensos - e o sexo é, naturalmente, um estímulo muito forte. Quando esta procura de intensidade se combina com um estilo de vinculação ansioso-ambivalente, pode surgir um padrão de risco:
- aparece inquietação interna ou sensação de vazio;
- fantasias sexuais prometem distracção e validação;
- após o acto sexual, regressam o vazio e a vergonha;
- a tensão interna aumenta novamente - e o ciclo recomeça.
Durante a pandemia de COVID-19, com mais isolamento, teletrabalho e menos proximidade presencial, é plausível que estes ciclos tenham ganho força. Muitas pessoas passaram mais tempo consigo próprias; o tédio e a solidão tornaram-se mais evidentes - e a sexualidade online e a pornografia ficaram à distância de um clique.
Como a terapia pode trabalhar a vinculação e o comportamento sexual compulsivo
Quem se revê nestas descrições não está “sem saída”. Os padrões de vinculação podem mudar, mesmo na idade adulta. Na prática clínica, psicólogos e terapeutas recorrem, por exemplo, a:
- Psicoterapia orientada para a vinculação, que explora experiências relacionais antigas e promove novas vivências de relação mais seguras.
- Terapia sexual especializada, para identificar gatilhos, interromper rotinas e construir uma relação mais saudável com o desejo e a proximidade.
- Abordagens focadas nas emoções, que treinam a identificação e a regulação emocional.
- Intervenções em grupo, nas quais a pessoa percebe: “Não sou o(a) único(a) com este problema.”
"Quem aprende a sustentar as emoções precisa menos de as anestesiar - seja com sexo, álcool ou distracção constante."
Sinais práticos a que quem está a passar por isto pode estar atento(a)
Algumas perguntas podem ajudar a situar a própria experiência:
- Uso o sexo sobretudo para me sentir menos sozinho(a), triste ou sem valor?
- Sinto-me muitas vezes culpado(a) ou vazio(a) pouco tempo depois de actos sexuais?
- Dou por mim a ultrapassar limites que, na verdade, eu próprio(a) tinha definido?
- O meu corpo reage mais depressa do que a minha cabeça consegue dizer “não”?
- Lido com medos na relação mais através do sexo do que através de conversas?
Se várias destas perguntas forem respondidas honestamente com “sim”, vale a pena observar o próprio comportamento sexual com atenção e, se necessário, procurar apoio profissional.
Porque a infância não determina tudo - mas explica muita coisa
Embora os estilos de vinculação se formem cedo, não são imutáveis. Relações novas, experiências terapêuticas ou trabalho consciente sobre si próprio(a) podem transformá-los. Muitas pessoas com estilo de vinculação ansioso-ambivalente relatam, por exemplo, que uma relação estável, com comunicação clara, reduz de forma significativa o estado interno de alerta.
Ao mesmo tempo, é útil manter um olhar realista: quem aprendeu a associar proximidade a stress, incerteza ou afastamento repentino tende a carregar esse traço, muitas vezes sem se aperceber. A proximidade física pode ser procurada com intensidade, mas raramente se sente totalmente segura. É aqui que se cria a ponte com a sexualidade: o sexo oferece contacto corporal imediato, sem que isso garanta, por si, segurança emocional verdadeira.
Por isso, compreender melhor o próprio estilo de vinculação não serve apenas para iluminar dificuldades na relação. Também ajuda a perceber padrões sexuais pouco saudáveis. Quando se reconhece que, por trás do “apetite por sexo”, pode estar o medo de ser abandonado(a), abre-se um caminho para trabalhar a raiz do problema - em vez de se combater apenas o sintoma.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário