Os feijões secos parecem pouco impressionantes, custam pouco e, em muitas cozinhas, acabam esquecidos na despensa. Para profissionais de nutrição, a história é outra: falam de um verdadeiro concentrado de nutrientes, capaz de substituir parcialmente a carne - e não apenas na alimentação de quem é vegan. Quem quer cuidar da saúde, do orçamento e, ao mesmo tempo, reduzir o impacto no clima, ganha em olhar para estas leguminosas com mais atenção.
Porque é que os feijões são considerados uma bomba de proteína e fibras
Em 100 gramas de feijão cozido encontram-se, em média, quase 10 gramas de proteína e pouco mais de 11 gramas de fibras. Meia chávena - isto é, uma taça pequena - já coloca cerca de 8 gramas de fibras no prato. É uma fatia relevante das necessidades diárias.
“Os feijões fornecem ao mesmo tempo proteína, muitas fibras e quase nenhuma gordura desfavorável - esta combinação é o que os torna tão valiosos.”
As fibras alimentam as bactérias intestinais, ajudam o trânsito intestinal e fazem com que os nutrientes passem mais lentamente para o sangue. Na prática, isto contribui para manter a glicemia e o colesterol mais estáveis e reduz a carga sobre o coração e os vasos sanguíneos. Estudos associam também uma alimentação rica em fibras a um risco mais baixo de alguns tipos de cancro.
Em matéria de proteína, o feijão não fica mal na fotografia quando comparado com a carne. Cerca de 125 gramas de feijão cozido chegam a uma quantidade de proteína semelhante à de um bife pequeno - mas com muito menos ácidos gordos saturados. Para quem consome feijão com regularidade, é uma forma de cortar uma parte dos produtos de origem animal sem cair num “buraco” de proteína.
A isto juntam-se compostos bioactivos, como as antocianinas nas variedades mais escuras. Estes antioxidantes ajudam a neutralizar radicais livres e parecem estar ligados a uma melhoria da sensibilidade à insulina. Ou seja: o organismo consegue aproveitar o açúcar do sangue de forma mais eficiente, o que, ao longo do tempo, pode diminuir o risco de diabetes tipo 2.
Pretos, vermelhos, brancos, pinto: que feijões se destacam mais
Muita gente só pensa em feijão como um acompanhamento de feijoada ou de guisados. Vale a pena separar por tipos, porque há diferenças claras em nutrientes, sabor e tolerância digestiva.
Feijão preto: um reforço para o intestino e para a glicemia
No comparativo de nutrientes, o feijão preto tende a sobressair. Em 100 gramas de feijão preto seco há cerca de 21 gramas de proteína e aproximadamente 15 gramas de fibras. Já meia chávena de feijão cozido fornece por volta de 7 gramas de proteína e 8 gramas de fibras - o que corresponde a quase 30 por cento da recomendação diária de fibras.
A tonalidade escura vem das antocianinas; além disso, há saponinas e flavonoides. Estes compostos têm sido associados a melhor protecção cardiovascular e a um controlo mais estável do açúcar no sangue. Na cozinha, funciona muito bem em chili, burritos, taças com cereais e legumes, ou simplesmente numa salada morna com cebola e ervas.
Feijão branco: saciante e com baixo efeito no açúcar
O feijão branco - como cannellini ou feijão manteiga - chega a cerca de 21 gramas de proteína e 18 gramas de fibras por 100 gramas cozido. Tem ainda um índice glicémico relativamente baixo, à volta de 40 a 45. Em termos simples: tende a subir a glicemia mais lentamente do que muitas outras fontes de hidratos de carbono.
Isto é particularmente relevante em situações de excesso de peso, pré-diabetes ou diabetes. Além disso, o feijão branco fornece quantidades interessantes de:
- Magnésio - importante para músculos, nervos e tensão arterial
- Fósforo - componente essencial dos ossos e do metabolismo energético
- Ferro - fundamental para a formação do sangue
- Vitaminas B1, B6 e B9 (ácido fólico) - relevantes para nervos, metabolismo e divisão celular
Por ser mais suave no paladar, encaixa bem em guisados, saladas de feijão, sopas de legumes ou esmagado num puré cremoso como alternativa ao puré de batata.
Feijão pinto e feijão-jalo: cremosos e versáteis para estômagos sensíveis
O feijão pinto (e o chamado feijão-jalo) costuma ficar, em proteína e fibras, num intervalo semelhante ao do feijão branco. Destaca-se, porém, pelo teor elevado de folato (ácido fólico) e, por porção, cobre cerca de 20 por cento da necessidade diária de vitamina B6. Ambos os nutrientes são essenciais para a produção de células sanguíneas e para o funcionamento do sistema nervoso.
A textura do feijão pinto e de variedades próximas é particularmente cremosa. Pessoas com intestino mais sensível referem, muitas vezes, que o toleram melhor quando está bem cozinhado. Em pratos de inspiração mexicana, como feijão refrito, em wraps ou como pasta para barrar, mostra bem a sua versatilidade.
Com que frequência o feijão deve aparecer no prato
Especialistas em alimentação aconselham a incluir feijão pelo menos uma a duas vezes por semana. Como referência prática, contam-se 50 a 70 gramas de feijão seco por pessoa. Depois de cozinhado, isto corresponde a cerca de 120 a 150 gramas - uma dose normal.
“Quem segue esta quantidade consegue, passo a passo, trocar parte do consumo de carne por leguminosas - sem sensação de privação.”
No caso de pré-diabetes ou diabetes, o feijão preto e o feijão branco podem ser escolhas particularmente interessantes por terem um índice glicémico mais baixo. Quem tem um intestino sensível deve começar com pouco, cozinhar até ficar mesmo macio e preferir variedades mais suaves, como o feijão branco ou o feijão pinto.
Seco ou enlatado: o que faz mais sentido?
O feijão seco é, muitas vezes, visto como o padrão de referência: é especialmente barato, conserva-se durante muito tempo e, quando bem armazenado, mantém os seus nutrientes. Quando se compara o preço com o que entrega, oferece uma quantidade muito elevada de proteína e fibras.
Para quem tem pouco tempo, as conservas são uma solução comum - e perfeitamente válida, porque o feijão enlatado tem valores nutricionais semelhantes. O ponto-chave está na escolha: opções sem açúcar adicionado e, idealmente, sem sal ou com pouco sal são preferíveis. Enxaguar bem o feijão em água corrente antes de usar ajuda a remover parte do sódio.
Dicas para que o feijão seja mais fácil de digerir
Muitas pessoas evitam o feijão por receio de gases ou sensação de enfartamento. Com algumas estratégias simples, estes efeitos podem diminuir bastante:
- Deixar o feijão de molho durante a noite e deitar fora a água da demolha.
- Começar devagar: planear porções pequenas e aumentar aos poucos.
- Cozinhar muito bem; os grãos devem ficar realmente macios.
- Cozinhar com cominhos, funcho, anis ou gengibre - estas especiarias podem reduzir a formação de gases.
- Distribuir várias porções pequenas ao longo da semana, em vez de uma travessa enorme de feijão de uma vez.
Com o tempo, o intestino adapta-se a uma maior ingestão de fibras. Quem passa a consumir feijão com regularidade acaba, na maioria dos casos, por o tolerar melhor do que imaginava no início.
Ideias concretas para usar feijão como substituto de carne
O feijão não tem de ficar preso ao guisado tradicional. Alguns exemplos fáceis de aplicar no dia a dia:
- Chili sem carne: trocar totalmente a carne picada por feijão preto ou feijão vermelho.
- Hambúrgueres de feijão: moldar pastéis com feijão, flocos de aveia e temperos e dourar na frigideira.
- Pasta de feijão branco com alho, azeite e sumo de limão em vez de enchidos no pão.
- Bolonhesa com feijão: metade carne picada, metade feijão - baixa-se a carne sem quase se notar.
- Saladas mais saciantes com feijão, legumes, feta ou tofu para levar como almoço de trabalho.
Mesmo sem eliminar completamente a carne, dá para reduzir produtos de origem animal em algumas refeições e usar o feijão como base. Isso diminui a ingestão de ácidos gordos saturados, aumenta as fibras no prato e alivia a carteira.
O que significam termos como índice glicémico e antocianinas
O índice glicémico (IG) indica o quanto um alimento faz subir a glicemia. Valores altos elevam o açúcar no sangue rapidamente; valores baixos produzem uma subida mais gradual. Os feijões costumam situar-se numa faixa mais baixa, porque as fibras e o amido fazem com que o açúcar entre no sangue de forma mais lenta. O resultado é maior saciedade e menos esforço para o pâncreas.
As antocianinas são pigmentos que dão cor a muitos frutos e legumes escuros - como os mirtilos ou, precisamente, o feijão preto. Têm acção antioxidante, ou seja, ajudam a neutralizar radicais livres de oxigénio. Há anos que a investigação explora a sua possível protecção de vasos sanguíneos, olhos e cérebro.
Ao escolher feijão com mais frequência, não se está apenas a colocar no prato um substituto de proteína: junta-se um conjunto completo de nutrientes e compostos protectores. Um alimento simples de despensa que faz muito mais do que a sua fama sugere.
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