Um número crescente de norte-americanos está a experimentar uma forma diferente de consumo de drogas. A intenção não é ficar “pedrado” nem perder o controlo, mas apenas notar algo leve e subtil.
Essa prática chama-se microdosagem e, durante anos, a conversa tem estado quase sempre centrada em psicadélicos como o LSD e os cogumelos de psilocibina.
Relatos sobre maior capacidade de concentração, humor mais estável e picos de criatividade inundaram podcasts, fóruns online e redes sociais. Há quem jure que funciona, enquanto outros continuam desconfiados.
No entanto, um novo estudo nacional indica que é a canábis - e não os psicadélicos - a substância que a maioria dos norte-americanos está a microdosar, com uma diferença muito expressiva.
Uma forma mais discreta de consumir drogas
Em termos gerais, uma microdose corresponde a algo entre um quinto e um vigésimo de uma dose recreativa habitual.
O objectivo é evitar efeitos psicoactivos marcados, mas ainda assim procurar possíveis benefícios, como menos ansiedade, melhoria do humor ou um estado mental mais elevado.
No caso das drogas psicadélicas, a ideia ficou fortemente ligada a tendências de bem-estar e a narrativas de produtividade.
Profissionais de Silicon Valley, artistas e pessoas com depressão estiveram entre os grupos que mais contribuíram para popularizar o tema.
O que mais sobressaiu neste estudo foi o contraste entre essa imagem popular e aquilo que os dados mostram na prática.
Quem é que está, de facto, a microdosar?
O Dr. Kevin Yang é médico interno no Departamento de Psiquiatria da UC San Diego School of Medicine e o primeiro autor do estudo.
“Microdosing is often discussed in the context of psychedelics like psilocybin or LSD, but what surprised us most was that cannabis microdosing was almost twice as common,” disse o Dr. Yang.
“That suggests conversations about microdosing may be overlooking a large group of people who are using small amounts of cannabis in similar ways.”
A canábis domina os números
Os investigadores analisaram dados de um inquérito a 1.525 adultos nos EUA, recolhidos no final de 2023 através do Ipsos KnowledgePanel, um painel probabilístico concebido para reflectir a população norte-americana.
Os resultados chamaram a atenção. Cerca de 9,4% dos adultos nos EUA disseram já ter experimentado microdosagem de canábis pelo menos uma vez. Os investigadores estimam que isto corresponda a aproximadamente 24,1 milhões de pessoas.
Já as percentagens para psicadélicos foram claramente inferiores. Cerca de 5,3% referiram microdosagem de cogumelos de psilocibina, 4,8% referiram LSD e 2,2% referiram MDMA, também conhecido como ecstasy.
O consumo actual foi menor, mas ainda assim relevante. À volta de 3,3% dos adultos disseram que actualmente microdosam canábis.
No caso da psilocibina, a taxa foi de cerca de um por cento, enquanto a microdosagem de LSD e de MDMA ficou abaixo de um por cento.
Tirar “a tensão” sem ficar intoxicado
Os resultados sugerem que muitas pessoas poderão nem se identificar como “microdosadores” no sentido mais mediático associado aos psicadélicos. Para alguns, poderá tratar-se apenas de reduzir a tensão sem ficar muito intoxicado.
O autor sénior do estudo, Dr. Eric Leas, é professor auxiliar na UC San Diego Herbert Wertheim School of Public Health and Human Longevity Science.
“A maioria dos defensores da microdosagem recomenda o uso com protocolos específicos, que envolvem tomar doses baixas de LSD ou psilocibina para aplicações de saúde específicas,” afirmou o Dr. Leas.
“Não foi isso que encontrámos. A maioria das pessoas está a microdosar por motivos recreativos. Isso sugere que muita gente pode encarar o conceito de ‘microdosagem’ mais como uma forma de reduzir a dose. Podem simplesmente querer consumir menos, para não ficarem tão ‘mocados’.”
A saúde mental pode ser parte da explicação
O estudo também revelou uma ligação forte entre microdosagem e saúde mental.
Em todas as substâncias analisadas, quem reportou pior saúde mental teve maior probabilidade de referir microdosagem. Na canábis, uma das diferenças mais claras surgiu nos dados.
Cerca de 21% dos adultos que descreveram a sua saúde mental como “má” disseram ter microdosado canábis, em comparação com aproximadamente 8% entre os que reportaram saúde mental “excelente”.
Os investigadores observaram que a microdosagem de canábis foi mais frequentemente associada a motivos médicos, sobretudo ansiedade, depressão e dor crónica.
Já psicadélicos como o LSD e a psilocibina foram mais ligados ao consumo recreativo e a experiências psicoactivas mais ligeiras.
Ainda assim, os investigadores alertaram que a base científica sobre microdosagem continua a ser limitada.
“Há muito entusiasmo anedótico em torno da microdosagem, especialmente para a saúde mental,” disse o Dr. Leas. “Mas ainda precisamos de estudos rigorosos para determinar se estes benefícios percebidos são reais, quem pode beneficiar e quais poderão ser os riscos.”
As leis sobre drogas estão a mudar rapidamente
Nos Estados Unidos, as leis relacionadas com psicadélicos têm mudado rapidamente. Algumas cidades e estados reduziram penalizações ou descriminalizaram determinadas substâncias, enquanto a canábis legal continua a expandir-se para mais zonas do país.
Os investigadores notaram que a microdosagem de psicadélicos foi mais comum em locais com legislação mais permissiva.
Na sua leitura, essas mudanças de política podem facilitar o acesso a estas substâncias e também fazer com que as pessoas se sintam mais à vontade para admitir o seu consumo.
Isto deixa especialistas de saúde pública a tentar acompanhar uma tendência que está a crescer depressa.
Até agora, apenas um número limitado de estudos controlados por placebo sobre microdosagem foi concluído, e os resultados não têm sido consistentes.
Limitações do estudo e preocupações de segurança
Os investigadores também levantam preocupações de segurança. Muitas pessoas obtêm estas substâncias através de fontes não reguladas, o que aumenta a probabilidade de produtos contaminados ou de dosagens incorrectas.
O próprio estudo tem limitações. Por captar apenas um momento no tempo, não pode demonstrar se a microdosagem influencia a saúde mental, ou se pessoas já com dificuldades de saúde mental são simplesmente mais propensas a experimentar.
“A microdosagem parece ser um comportamento em crescimento, que atravessa diferentes substâncias e motivações,” assinalou o Dr. Leas.
“Compreender como e porquê as pessoas usam estas pequenas doses é essencial se queremos desenvolver políticas e orientações baseadas em evidência para clínicos e para o público.”
O estudo completo foi publicado na revista Revista Americana de Medicina Preventiva.
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