As águas do Cook Inlet, no Alasca, são um lugar duro para se viver. As marés fortes levantam lodo, as correntes são rápidas e, muitas vezes, a visibilidade é extremamente reduzida.
Num cenário tão exigente, um pequeno grupo de belugas consegue persistir graças ao som. É através das vocalizações que se mantêm juntas, localizam alimento e protegem as crias.
Um estudo recente analisou com detalhe a forma como estas baleias comunicam. Os resultados indicam que as vocalizações seguem padrões e não surgem ao acaso: cada tipo de som serve um objectivo.
Ouvir as belugas
A equipa de investigação acompanhou belugas em Eagle Bay, uma zona de habitat relevante. A partir de terra, observaram os animais e registaram o que faziam. Em paralelo, equipamentos subaquáticos captaram as vocalizações.
No total, foram reunidos mais de 1.000 minutos de registos ao longo de dois anos, o que permitiu relacionar sons específicos com comportamentos observados.
A autora principal do estudo, Arial Brewer, é doutoranda em ciências aquáticas e das pescas na University of Washington.
“Sabíamos que o ruído gerado por humanos estava a mascarar as suas chamadas, mas não sabíamos para que é que essas chamadas eram usadas”, disse Brewer.
“Este estudo deu-nos informações importantes sobre o mundo da comunicação das belugas e sobre a forma como é perturbado pela indústria e pelo desenvolvimento.”
Manter a ligação em movimento
As belugas produzem três categorias principais de sons. Os assobios são contínuos e simples, as chamadas pulsadas correspondem a sequências rápidas de cliques, e as chamadas combinadas juntam os dois tipos.
Os investigadores verificaram que os assobios eram a vocalização mais frequente, e que as chamadas pulsadas também surgiam muitas vezes. Já as chamadas combinadas eram muito menos comuns, embora pareçam cumprir uma função relevante.
Um dos resultados centrais foi o facto de estas belugas vocalizarem mais durante deslocações do que quando estavam a descansar ou a permanecer num mesmo local. Este padrão difere do observado noutros grupos de belugas.
A explicação mais provável está no ambiente: em água turva, os animais não se conseguem ver bem e recorrem ao som para se manterem ligados enquanto se movem.
A interação social depende do som
Durante as deslocações, os assobios dominaram. Como se propagam a longas distâncias debaixo de água, ajudam as belugas a acompanhar o paradeiro umas das outras mesmo quando o grupo se encontra mais disperso.
Além disso, os assobios podem facilitar a localização relativa dos indivíduos - algo especialmente útil quando a visibilidade é baixa.
Quando os animais estavam mais próximos entre si, aumentava a proporção de chamadas pulsadas. Estes sons não viajam tão longe, mas tendem a transportar mais detalhe.
A interpretação é que servem para partilhar informação a curta distância. Em água barrenta, o som substitui a visão como base da interação social.
Chamadas especiais para crias
A descoberta mais marcante envolveu as chamadas combinadas. Estas vocalizações só ocorreram quando havia crias presentes.
Num episódio, as belugas repetiram a mesma chamada combinada muitas vezes num intervalo curto. Nesse grupo estavam várias crias.
Isto aponta para um possível papel destas chamadas na manutenção do contacto entre mães e crias.
“Não temos dados para ligar directamente o ruído à separação de crias, mas se uma mãe beluga não conseguir manter contacto acústico com a sua cria, isso pode ser um enorme problema”, disse Brewer.
O papel da dinâmica de grupo
Os grupos maiores produziram mais sons no total, mas, em média, cada beluga vocalizou menos vezes. Isso pode contribuir para reduzir a confusão.
Quando há demasiadas vocalizações simultâneas, torna-se mais difícil ouvir com clareza. Também é possível que, em grupos grandes, as belugas passem mais tempo a escutar.
As belugas emitiram mais sons durante as marés de enchente, quando a água entra no inlet. Estas marés permitem aceder a zonas de alimentação.
Uma comunicação mais intensa pode ajudar o grupo a deslocar-se em conjunto e a encontrar alimento. Este padrão, diferente do observado noutros grupos de belugas, reforça que o comportamento varia conforme as condições locais.
Os investigadores observaram ainda que, muitas vezes, as belugas aumentavam as vocalizações imediatamente antes de mudarem de comportamento - por exemplo, antes de iniciarem uma deslocação.
Depois da transição, o número de chamadas diminuía. Isto sugere que o som é usado para coordenar decisões do grupo.
A poluição sonora cria problemas
O Cook Inlet está repleto de ruído associado à actividade humana, e o tráfego marítimo pode abafar as chamadas das belugas.
Alguns dos sons que ficam mascarados parecem ser importantes tanto para coordenar movimentos como para manter o contacto entre mães e crias.
Com o tempo, esta interferência pode comprometer a capacidade de sobrevivência das belugas.
“Os principais hotspots de alimentação de salmão ficam na parte norte do inlet, perto de Anchorage, e muito próximos do aeroporto, do Port of Alaska e da base militar”, afirmou Brewer.
“Acho que há formas de adaptação, mas para elas é complicado e a poluição sonora está longe de ser a única ameaça.”
Ajudar a gerir habitats críticos
Este trabalho contribui para que os cientistas compreendam o significado de diferentes vocalizações, facilitando a monitorização apenas através do som.
Assim, torna-se possível acompanhar o comportamento do grupo, detectar a presença de crias e estudar como as belugas reagem a mudanças no ambiente.
“O Port of Alaska poderia explorar estratégias semelhantes para mitigar o impacto da indústria”, disse Brewer.
O investigador referiu programas como as reduções voluntárias de velocidade dos navios usadas para proteger orcas ameaçadas no Puget Sound.
“Não podemos parar o transporte marítimo, mas estamos a tentar perceber o que podemos fazer para gerir estes habitats críticos, sobretudo quando os animais estão por perto.”
Proteger as belugas
As belugas do Cook Inlet dependem do som para quase tudo: deslocar-se, manter a coesão do grupo e cuidar das crias.
À medida que o ruído humano aumenta, torna-se ainda mais importante garantir que conseguem comunicar.
Estes animais já vivem num ambiente difícil. Se perderem a capacidade de “ouvir” as vozes umas das outras, a sobrevivência pode tornar-se ainda mais complicada.
O estudo mostra que as vocalizações têm significado. O passo seguinte é assegurar que continuam a conseguir escutar-se mutuamente.
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