Muito ao longe, começa a desenhar-se uma Terra quase irreconhecível face ao mapa actual - continentes a chocar entre si, oceanos a fechar.
Os geólogos antecipam que, dentro de aproximadamente 250 milhões de anos, as placas voltarão a reunir as massas continentais num novo supercontinente. A relação entre terra e mar inverter-se-á, e o clima ficará marcado por calor intenso e actividade vulcânica. Curiosamente, o norte da Europa poderá tornar-se um dos últimos locais ainda relativamente habitáveis do planeta.
Um planeta em movimento: porque é que os continentes não ficam parados
Ao observar um planisfério, é fácil supor que a configuração actual sempre foi assim. No entanto, as massas continentais deslocam-se continuamente. A explicação está na tectónica de placas: enormes placas que derivam lentamente e que transportam, à superfície, continentes e bacias oceânicas.
Há cerca de 200 milhões de anos, existia um único supercontinente, conhecido na investigação como Pangéia. Com o tempo, esse bloco fragmentou-se e as porções resultantes deram origem, entre outras, a África, Europa, América e Ásia tal como as conhecemos. Mas essa separação foi apenas um instante num processo geológico muito mais longo.
"A Terra comporta-se como uma mesa de puzzle extremamente lenta: as peças deslocam-se, chocam, partem-se - e voltam a encaixar-se vezes sem conta."
No interior do planeta, rochas quentes circulam e, com isso, arrastam as placas. Em alguns pontos, afastam-nas; noutros, forçam colisões. Foi assim que o Atlântico se abriu entre a Europa e a América. E é precisamente esse oceano que, num futuro geológico, poderá voltar a desaparecer.
Pangéia Última: o próximo supercontinente
O geólogo Christopher Scotese, juntamente com outros investigadores, usou modelos computacionais para estimar como as placas poderão evoluir. No cenário mais conhecido, dentro de cerca de 250 milhões de anos, os continentes actuais voltariam a juntar-se num supercontinente frequentemente chamado Pangéia Última.
As consequências, segundo este quadro, seriam marcantes:
- O Atlântico fechar-se-ia, com a América a embater em África e na Eurásia.
- O oceano Índico transformar-se-ia num mar interior quase totalmente encerrado.
- Ilhas como Cuba ficariam "soldadas" ao continente norte-americano.
- A Gronelândia ligar-se-ia ao Canadá, e o leste asiático aproximar-se-ia ainda mais.
O mapa-múndi familiar tornar-se-ia difícil de reconhecer. Linhas costeiras actuais deixariam de existir, mares de hoje poderiam secar e, em contrapartida, surgiriam novas cadeias montanhosas e cinturões vulcânicos. Zonas costeiras actuais poderiam, numa Terra distante, converter-se em planaltos ou desertos.
Europa numa nova posição: mais perto do Pólo Norte, mais perto de África
Nos modelos, a Europa desloca-se de forma clara para latitudes mais elevadas. Um dos focos mais interessantes é a região correspondente à França actual e países vizinhos - usada como referência para grande parte da Europa Ocidental.
As simulações indicam que a massa terrestre que hoje associamos a França, Alemanha, Benelux e Península Ibérica migraria em direcção a áreas polares. Em paralelo, África e Europa continuariam a convergir. O Mediterrâneo desapareceria gradualmente, à medida que a placa africana é empurrada sob a Europa.
No horizonte longínquo, isso poderia traduzir-se em:
- A actual costa mediterrânica passar a situar-se no interior do supercontinente.
- O norte da Europa ficar directamente contíguo ao norte de África, sem grandes superfícies de água entre ambos.
- Países hoje separados por mar virem a partilhar uma fronteira terrestre.
À escala humana, parece ficção científica. À escala geológica, encaixa no padrão: já houve, no passado, colisões entre África e Europa com força suficiente para contribuir para a formação dos Alpes.
Cinturões vulcânicos, choque de CO₂ e um supercontinente abrasador
A mudança geográfica seria apenas parte do enredo. A existência de um supercontinente também altera o clima. Um estudo publicado na revista científica Nature descreve um cenário pouco optimista para esse futuro distante.
Quando as massas continentais se comprimem, formam-se longos cinturões vulcânicos nas zonas de colisão. Esses vulcões libertariam enormes quantidades de CO₂ para a atmosfera. Em simultâneo, dentro de 250 milhões de anos, o Sol terá aumentado ligeiramente a sua luminosidade - estimativas apontam para cerca de 2,5% mais brilho.
"Mais energia solar mais mais gases com efeito de estufa no céu resultam numa caldeira de calor, capaz de transformar grandes áreas do supercontinente em zonas hostis à vida."
Os modelos projectam temperaturas generalizadas acima de 40 °C em grande parte das superfícies continentais. Com evaporação elevada, pouca precipitação no interior e secura em larga escala, muitas regiões tenderiam a tornar-se vastas estepes e desertos extremamente quentes.
Nesta projecção, Mammalia (mamíferos) surge como um grupo particularmente vulnerável. Muitas espécies poderiam não conseguir lidar com o novo nível de calor e com a escassez de água. Os investigadores referem a possibilidade de uma grande vaga de extinção que afectaria uma parte significativa dos grupos animais hoje dominantes.
Zonas próximas do Norte como último refúgio
Apesar do panorama geral ser sombrio, as simulações destacam algumas áreas onde o clima permaneceria relativamente mais ameno. Entre elas estão as altas latitudes - regiões que hoje se situam perto do Círculo Polar Ártico ou que, com a deriva continental, passariam a aproximar-se dessas latitudes.
Aí, as temperaturas tenderiam a manter-se em níveis mais moderados, segundo os cálculos. A precipitação poderia ser suficiente para alimentar rios, lagos e solos. Num planeta sobreaquecido, seriam refúgios particularmente valiosos.
| Região no supercontinente | Condições prováveis |
|---|---|
| Zonas interiores do supercontinente | Extremamente quente, seco, dificilmente habitável de forma duradoura |
| Zonas a norte, próximas dos pólos | Clima mais ameno, mais água, potencialmente habitável |
| Costas de mares interiores | Variável, adequado à vida apenas de forma regional e limitada |
Como a Europa Ocidental, nos modelos, se desloca para latitudes elevadas, a área em torno do que hoje é França, Reino Unido e Portugal surge repetidamente como uma dessas “ilhas climáticas”. Também certas partes do norte de África - que, então, estariam bastante mais a norte - poderiam integrar esse conjunto.
Essas regiões funcionariam como derradeiros espaços de recuo - para plantas, animais e, possivelmente, para civilizações futuras, caso ainda existam formas de vida inteligente na Terra.
Para que servem hoje cenários tão distantes
É evidente que um mundo daqui a 250 milhões de anos não tem impacto directo na nossa vida. Ainda assim, estes modelos oferecem alguns pontos de reflexão relevantes.
Em primeiro lugar, lembram como a Terra e o clima mudam naturalmente ao longo do tempo. O aquecimento actual impulsionado por emissões humanas sobrepõe-se a esse ritmo lento e intensifica-o a uma velocidade perigosa. Embora a Pangéia Última esteja num futuro quase incompreensível, os mecanismos físicos - gases com efeito de estufa, albedo, ciclo da água - são os mesmos que actuam hoje.
Em segundo lugar, olhar para escalas de tempo profundas ajuda a enquadrar melhor o papel do CO₂: a actividade vulcânica pode, a longo prazo, produzir efeitos comparáveis aos de chaminés industriais e automóveis, apenas em escalas temporais muito maiores. A natureza já desencadeou várias fases de calor extremo, incluindo episódios associados a extinções em massa.
Como os geólogos calculam mapas do futuro
Os modelos usados assentam em diversas fontes de dados. Investigadores analisam rochas antigas, registos magnéticos no solo e fósseis para reconstruir como as placas se moveram no passado. A partir daí, inferem velocidades e direcções prováveis.
Depois, programas de computador prolongam essa dinâmica para o futuro. Estas previsões trazem, naturalmente, incertezas: pequenas variações na velocidade de uma placa podem, ao longo de milhões de anos, conduzir a configurações muito diferentes.
Ainda assim, as simulações estabelecem um enquadramento: oceanos abrem e fecham, continentes deslocam-se, supercontinentes aparecem e desaparecem. O princípio mantém-se, mesmo que alguns pormenores possam mudar.
Que papel os humanos poderão ter num futuro tão longínquo
Se existirão humanos - ou descendentes da humanidade actual - dentro de 250 milhões de anos é uma incógnita total. Civilizações tecnológicas podem ter desaparecido, ou persistir de formas que hoje mal conseguimos imaginar. É possível que espécies futuras encontrem maneiras de enfrentar calor e aridez - ou que tenham deixado o planeta.
Apesar disso, os modelos colocam uma questão estimulante: até que ponto a vida, em geral, consegue adaptar-se? E que regiões continuam a oferecer margem para evolução mesmo sob condições extremas? As zonas próximas dos pólos, hoje muitas vezes vistas como inóspitas, poderiam transformar-se em habitats desejados num mundo dominado pelo calor.
Quem estuda riscos climáticos, a evolução de longo prazo da Terra ou a procura de zonas habitáveis em exoplanetas pode retirar destes cenários pistas importantes. Um supercontinente como a Pangéia Última não seria apenas um novo mapa - seria um ambiente muito mais duro, um teste totalmente diferente para a vida.
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