A vitamina B12 tem um lugar bem estabelecido na saúde humana. Os médicos pedem análises quando os doentes referem formigueiro, cansaço ou falhas de memória. Corrige-se a deficiência e, em muitos casos, os sintomas aliviam. Esse elo passa pelas células do sangue e pelos nervos - não pelo músculo.
Até agora, ninguém tinha testado o que a vitamina faz, de facto, dentro de uma célula muscular. Uma investigação recente fê-lo - e o que surgiu nas mitocôndrias de fibras musculares privadas de B12 não tinha sido documentado anteriormente.
O papel mais amplo da vitamina B12
A investigação anterior focou-se sobretudo nas consequências visíveis da deficiência de B12 - anemia, lesão nervosa, declínio cognitivo - e menos nos mecanismos biológicos que as explicam. O músculo esquelético quase não entrava no enquadramento.
Martha Field, Ph.D., professora associada na Divisão de Ciências da Nutrição da Universidade de Cornell (Cornell), liderou uma equipa que decidiu procurar respostas nesse tecido. O estudo contou também com colaboradores da University of Alabama at Birmingham.
Se a vitamina B12 tivesse funções para além do sangue e do cérebro, o músculo esquelético era um candidato óbvio para as revelar. Poucos tecidos consomem energia a um ritmo tão elevado.
Dentro da célula muscular
Em cada fibra muscular existem centenas de mitocôndrias - pequenas estruturas que convertem os alimentos em energia utilizável. As mitocôndrias têm o seu próprio ADN, distinto do genoma guardado no núcleo.
Quando estes “motores” falham, os músculos perdem resistência antes de perderem volume de forma visível. A queda começa ao nível celular, muito antes de se tornar evidente.
Este esmorecimento ajuda a explicar por que razão os adultos mais velhos tropeçam com mais frequência e perdem autonomia. A investigação sobre o declínio muscular associado à idade tem enfatizado o treino de força e a proteína, mas falou muito menos das pequenas moléculas de que o sistema energético depende.
Quando a B12 fica em falta
A equipa de Field concebeu duas experiências. Na primeira, ratos machos jovens, já adultos, receberam durante seven weeks uma dieta normal ou uma dieta sem B12. Alguns tinham uma modificação genética que tornava a escassez de B12 mais acentuada no interior das células.
A deficiência fez-se sentir. Num músculo da barriga da perna, a capacidade respiratória máxima caiu para metade. Em músculos mais exigentes do ponto de vista energético, o pico de produção desceu cerca de um quarto. As células continuavam a funcionar, mas com um tecto mais baixo.
Danos no ADN
Surgiu ainda algo mais inesperado. No próprio ADN mitocondrial, começou a acumular-se uma molécula “intrusa” chamada uracilo - a níveis cerca de ten times superiores ao normal no músculo vermelho e na barriga da perna.
O uracilo pertence ao ARN, não ao ADN. Quando se infiltra numa cadeia de ADN, a célula precisa de o recortar repetidamente para o remover. Pensa-se que este processo torna a cadeia mais vulnerável a erro e a dano.
A vitamina B12 ajuda as células a produzir um dos blocos de construção habituais do ADN. Sem B12 suficiente, o uracilo parece entrar por engano. Até este estudo, ninguém tinha registado diretamente este tipo de dano no ADN dentro das mitocôndrias de fibras do músculo esquelético.
Uma produção de energia a duplicar
A segunda experiência olhou para o cenário oposto. Ratos com 20 to 22 months - aproximadamente equivalente a humanos na casa dos 70 anos - receberam pequenas injecções de B12 no músculo da perna traseira, uma vez por semana, durante eight weeks. Um grupo de controlo recebeu apenas soro fisiológico.
Nos animais suplementados, a etapa final da “linha de montagem” energética - um passo chamado complexo IV - funcionou com o dobro da atividade observada em fibras de ratos tratados com soro fisiológico. E isto em músculos envelhecidos, que teoricamente deveriam estar a abrandar.
“Este é o primeiro estudo que mostra que a deficiência de B12 afeta a produção de energia mitocondrial no músculo esquelético”, afirmou Field. A ideia da suplementação partiu da coautora Anna Thalacker-Mercer, da University of Alabama at Birmingham.
Menos B12, menos músculo
A deficiência deixou mais um sinal. Os mesmos ratos jovens pareceram ter mais dificuldade em manter a massa muscular do que os seus pares bem alimentados.
A B12 baixa pareceu associar-se a menor massa muscular e, possivelmente, a força reduzida. Não era o desfecho principal, mas foi difícil ignorar.
O padrão coincide com o que os clínicos observam em doentes mais velhos com valores de B12 no limite inferior. E levanta uma pergunta que a área tem evitado: que parte do declínio muscular tardio é simples desgaste e que parte resulta de uma lacuna de B12 que ninguém rastreou.
A deficiência de B12 afeta o músculo de forma subtil
A deficiência grave de B12 é pouco comum onde os alimentos de origem animal são abundantes. Já a deficiência marginal é outra realidade.
Adultos mais velhos, veganos e pessoas com problemas de absorção têm risco acrescido. As estimativas sugerem que one in four adultos mais velhos, em países ricos, apresenta níveis abaixo do ideal.
O artigo de Cornell não defende que toda a gente precise de mais B12. O ponto, mais específico, é difícil de descartar: mesmo uma falta modesta pode estar a comprometer silenciosamente os sistemas energéticos do músculo envelhecido, muito antes de aparecerem formigueiro, anemia ou lapsos de memória.
Vitamina B12 e saúde muscular
O grupo de Field defende que as medições de B12 no sangue podem orientar recomendações ajustadas ao indivíduo, e não apenas a médias populacionais.
Isto enquadra-se num movimento mais amplo de nutrição de precisão, que procura alinhar recomendações de nutrientes com a biologia e o estilo de vida de cada pessoa.
Antes deste trabalho, ninguém tinha demonstrado diretamente que uma falta de B12 danifica o ADN mitocondrial no músculo esquelético, nem que a suplementação consegue reativar a maquinaria energética em músculo envelhecido. As experiências de Cornell mostraram ambas as coisas.
O estudo foi feito em ratos, e o passo seguinte lógico é um ensaio em humanos. Os médicos que acompanham doentes mais velhos com valores de B12 “normais-baixos” têm agora motivos para levar esses números a sério.
A perda de energia do músculo com o envelhecimento pode vir a revelar-se, em parte, um problema corrigível.
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