Um teste de laboratório que se tornou viral sugere agora o seguinte: estes aparelhos podem produzir exactamente o efeito contrário ao pretendido.
Cada vez mais casas de banho públicas abandonam o papel e apostam em secadores eléctricos de mãos. A promessa é apelativa - mais “verde”, sem contacto e com um ar moderno. Uma cientista do Reino Unido decidiu pôr essa ideia à prova em laboratório. O resultado fez muita gente passar a olhar para o jacto de ar com algum desconforto.
Como uma experiência simples volta a pôr a questão dos micróbios em cima da mesa
A investigadora, que partilha conteúdos online sob o nome “Devon Science”, quis perceber o que os jactos de ar quente ou frio estão, na prática, a soprar para a nossa pele. Em vez de montar um ensaio sofisticado, recorreu a um método clássico e directo: placas de Petri com meio de cultura.
Para o teste, colocou uma placa imediatamente por baixo da saída de ar de um secador de mãos numa casa de banho pública. Uma segunda placa ficou no laboratório como controlo - isto é, uma amostra de comparação exposta apenas ao ar “limpo” da sala.
Depois de 24 horas num incubador, a diferença foi evidente. A placa de controlo manteve-se praticamente sem crescimento, enquanto a placa exposta ao secador apareceu coberta de pontos amarelos, pretos e brancos.
"A placa de Petri da zona do secador de mãos estava cheia de colónias de bactérias - em comparação directa com a amostra de controlo quase vazia."
O ensaio aponta para uma hipótese inquietante: os aparelhos podem levantar microrganismos presentes no ar da casa de banho e projectá-los, de forma concentrada, sobre mãos acabadas de lavar.
Que micróbios aparecem no jacto de ar
As colónias que cresceram na experiência podem ser agrupadas, de forma geral, em vários tipos - incluindo alguns microrganismos conhecidos por causarem problemas:
- Staphylococcus aureus: comum na pele e no nariz, mas capaz de provocar inflamações e abcessos em pequenas feridas ou, em casos extremos, septicemia.
- Escherichia coli (E. coli): bactéria típica do intestino e presente em matéria fecal; em casas de banho, pode passar facilmente para superfícies e daí seguir viagem.
- Esporos de fungos: os pontos negros sugerem fungos, que podem irritar as vias respiratórias e afectar pessoas com alergias ou com o sistema imunitário fragilizado.
Ou seja, o ar não transportaria apenas flora ambiental inofensiva, mas sim uma mistura que pode incluir agentes potencialmente patogénicos - algo difícil de controlar, sobretudo em instalações muito utilizadas.
Porque é que os secadores de mãos conseguem dispersar micróbios com tanta eficácia
O problema não é apenas “mexer o ar”, mas sim a intensidade do fluxo e a forma como muitos destes equipamentos estão concebidos.
Velocidade elevada do ar como catapulta de micróbios
Os secadores modernos do tipo “jacto” conseguem velocidades de ar comparáveis a uma tempestade. Há fabricantes que falam em até 400 milhas por hora, ou seja, bem acima dos 600 km/h no fluxo de ar.
Isso tem, pelo menos, dois efeitos:
- gotículas de água e micróbios podem ser arrancados de fendas e superfícies da casa de banho e lançados para o ar;
- tudo o que se depositou no chão, nas paredes ou no próprio corpo do equipamento pode voltar a ser levantado.
Quem seca as mãos mesmo debaixo deste jacto fica, na prática, no centro de uma “máquina de vento” carregada de partículas microscópicas.
Sujidade acumulada no interior do aparelho
Numa segunda parte do teste, a cientista recolheu amostras com cotonetes, esfregando o interior do secador e inoculando esse material num meio de cultura. O cotonete escureceu de forma visível - um indício de que o próprio equipamento pode guardar uma mistura de contaminantes.
No interior de muitos secadores é frequente existir:
- poeiras do ar ambiente;
- depósitos resultantes de salpicos e aerossóis da sanita;
- matéria orgânica como células mortas da pele e microgotículas provenientes da respiração.
Quando o secador é activado, parte desse conteúdo pode fragmentar-se em gotículas muito finas e ser expelido a grande velocidade para o espaço - precisamente na zona onde as pessoas colocam as mãos e, por vezes, aproximam o rosto.
Os filtros HEPA e a luz UV ajudam mesmo?
Nos últimos anos, algumas marcas têm respondido às críticas com modelos “higiénicos”, concebidos para tratar o ar antes de o libertarem. Duas soluções são especialmente promovidas.
Filtros HEPA - como nos aviões ou nos aspiradores
Os filtros HEPA (High Efficiency Particulate Air) são desenhados para reter uma grande parte das partículas finas, muitas vezes até cerca de 0,3 micrómetros. Em teoria, isso permite capturar bactérias e muitos esporos de fungos no filtro, em vez de os deixar assentar nas mãos.
A ideia é convincente, mas na utilização real surgem dúvidas importantes:
- com que frequência o filtro é efectivamente substituído pela equipa de limpeza?
- a eliminação do filtro é feita de forma correcta, para não voltar a libertar micróbios durante a troca?
- todos os percursos do ar passam mesmo pelo filtro, ou existem “atalhos” que contornam a filtragem?
Alguns estudos indicam que os aparelhos com HEPA podem ter um desempenho claramente superior ao dos modelos tradicionais. Ainda assim, mesmo nestes casos, o fluxo de ar não fica completamente livre de microrganismos.
Luz UV - efeito germicida, mas com muitas condições
Alguns secadores mais recentes incluem luz ultravioleta no interior, com o objectivo de danificar micróbios presentes no ar ou nas superfícies internas. A radiação UV pode afectar o ADN e, assim, inactivar microrganismos.
No entanto, a eficácia depende de pormenores técnicos:
- intensidade da radiação;
- tempo de exposição;
- localização exacta do módulo UV dentro do equipamento.
Se a exposição for curta ou se o ar atravessar o sistema demasiado depressa, muitos micróbios podem sobreviver à passagem. Na prática do dia-a-dia, isto significa que os secadores com UV podem reduzir o risco, mas não o eliminam.
O que isto significa no uso diário da casa de banho
Online, a experiência gerou uma avalanche de reacções - desde profissionais de saúde a pais de crianças pequenas. Muitos comentaram que, em hospitais ou escolas, passam a evitar secadores de mãos sempre que possível.
É evidente que ninguém pode “deixar de ir à casa de banho”. Ainda assim, há formas simples de reduzir a exposição:
- Sempre que der: optar por papel - as toalhas de papel removem uma parte dos micróbios por acção mecânica, ao absorvê-los durante a secagem.
- Evitar superfícies de contacto - depois de lavar as mãos, não tocar directamente em maçanetas e botões com os dedos limpos; usar, por exemplo, um pedaço de papel.
- Lavar as mãos a sério - pelo menos 20 segundos com sabão, incluindo entre os dedos e debaixo das unhas. Uma lavagem apressada deixa mais micróbios para “entrar” no secador.
- Usar o secador pelo mínimo tempo possível - se não houver alternativa ao jacto de ar, reduzir o tempo pode diminuir um pouco a “dose”.
- Manter o rosto fora do fluxo - mãos mais baixas e a cabeça o mais afastada possível da saída de ar.
Quando os secadores de mãos se tornam especialmente problemáticos
Há contextos em que estes aparelhos podem representar um risco adicional, como hospitais, lares e consultórios médicos. Nestes locais, é mais comum haver pessoas com imunidade fragilizada e uma maior circulação de microrganismos resistentes.
Em várias unidades de saúde no Reino Unido e nos Estados Unidos, equipas de controlo de infecção têm optado por remover secadores de mãos em determinadas áreas e voltar a adoptar consistentemente toalhas de papel. A preocupação é que os jactos de ar possam transportar micróbios de zonas de sanitários para corredores e quartos de doentes.
Como é que os micróbios se espalham com tanta facilidade
Um dos mecanismos mais relevantes ocorre antes mesmo de alguém accionar o secador: o fenómeno da “nuvem da sanita”. Ao puxar o autoclismo, formam-se gotículas muito finas que sobem de forma invisível no ar. Essas gotículas podem transportar bactérias e vírus e dispersar-se a distâncias de vários metros.
Se a tampa ficar aberta - ou se nem existir tampa -, essas partículas depositam-se no chão, no lavatório, nas maçanetas e também sobre o secador de mãos ou dentro dele. A seguir, basta o próximo utilizador ligar o aparelho para as levantar novamente.
Quando se compreende melhor o risco, torna-se mais natural prestar atenção a gestos pequenos, mas relevantes: fechar a tampa antes de descarregar, evitar levar as mãos à cara e não pousar o telemóvel em superfícies dentro da casa de banho.
O que teria de mudar a longo prazo
A médio e longo prazo, surge uma questão prática para autarquias, gestores de centros comerciais e cadeias de restauração: vale mesmo a pena eliminar o papel se os secadores aumentarem a carga microbiana no espaço?
Algumas medidas possíveis para melhorar a higiene no dia-a-dia incluem:
- mais casas de banho com aparelhos HEPA bem mantidos e planos de manutenção claros;
- combinação de toalhas de papel e secadores, em vez de uma escolha rígida “ou um ou outro”;
- sistemas de ventilação mais eficazes, para remover aerossóis mais depressa;
- avisos visíveis sobre higiene correcta das mãos junto ao lavatório.
Independentemente da tecnologia, há um ponto que se mantém: lavar as mãos com cuidado reduz muito a quantidade de micróbios na pele. O que acontece depois depende bastante do método de secagem. Os secadores parecem práticos e actuais, mas o jacto de ar pode esconder um problema de higiene que muitos ainda subestimam.
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