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Terapia psicadélica com psilocibina: quem beneficia e quem pode ser prejudicado, segundo o novo estudo da Charité Universitätsmedizin Berlin

Paciente com máscara nos olhos sentado no sofá, expressões coloridas atrás, conversa com médica anotações.

O interesse recente pela terapia psicadélica tem crescido de forma acentuada e tem alimentado entusiasmo na medicina, na investigação e também no debate público.

As notícias tendem a dar destaque a recuperações impressionantes, sobretudo em pessoas com depressão que não obtiveram resposta com os tratamentos habituais.

Para muitos doentes, esta promessa soa credível - e pode representar esperança depois de anos de sofrimento.

No entanto, por baixo deste optimismo, impõe-se uma questão mais difícil: o que acontece quando o tratamento não corre como esperado? Ou, pior ainda, quando em vez de ajudar, provoca dano?

Um novo estudo da Charité Universitätsmedizin Berlin coloca este problema no centro da discussão. Em vez de se concentrar apenas na eficácia da terapia psicadélica, desloca o foco para uma pergunta decisiva: para quem é que ela funciona.

Resultados dos ensaios clínicos

No discurso público, a terapia psicadélica é muitas vezes apresentada como um avanço capaz de beneficiar quase toda a gente. Porém, os dados clínicos apontam para uma realidade mais irregular.

Há doentes que melhoram de forma marcada, outros que não registam alterações e um grupo mais pequeno que refere efeitos negativos.

Esta variabilidade não é um pormenor: está no núcleo da discussão sobre se a terapia pode ser aplicada em maior escala com segurança. Sem perceber com clareza quem tende a beneficiar e quem pode não beneficiar, o campo arrisca-se a avançar mais depressa do que a evidência sustenta.

A metáfora da lâmina afiada

O Dr. Felix Betzler, responsável pelo estudo, propõe uma imagem simples para enquadrar este tipo de intervenção.

“Tratar doentes com substâncias psicadélicas é semelhante a usar uma lâmina afiada. Com isso em mente, é muito importante saber quando a usar - e quando não a usar”, afirmou.

As substâncias psicadélicas, capazes de alterar a percepção e o sentido de identidade em poucas horas, têm um nível de intensidade comparável.

Resultados que se separam de forma acentuada

O estudo descreve duas doentes que, no papel, parecem quase iguais. Ambas são mulheres de meia-idade e vivem com depressão há vários anos.

Nenhuma respondeu a medicação ou a psicoterapia. Têm uma rede de apoio social sólida e aceitam participar numa sessão guiada com psilocibina.

Uma das doentes relata a sessão como exigente, mas cheia de significado. Diz que foi como atravessar uma tempestade antes de chegar à calma. Algumas semanas depois, a depressão deixa de ser mensurável.

A segunda doente vive a sessão com sofrimento do início ao fim. Sente alívio quando termina. A depressão mantém-se sem mudanças.

Estes exemplos ilustram a imprevisibilidade que ainda marca esta área.

Aprender com terapeutas

Para compreender melhor esta diversidade de respostas, os investigadores recorreram a quem tem experiência directa no terreno. Foi aplicado um inquérito a 158 terapeutas que conduzem sessões assistidas por psicadélicos em diferentes países.

Alguns trabalhavam em contextos clínicos regulados. Outros actuavam em ambientes clandestinos, onde as substâncias continuam a ser ilegais.

O questionário abordou métodos de tratamento, características dos doentes e resultados observados. A intenção era detectar padrões que estudos clínicos isolados podem não conseguir captar.

Características associadas a benefícios

Nas respostas começou a emergir um quadro mais consistente. Determinadas características surgiam com maior frequência em doentes que beneficiavam da terapia.

“Uma abertura a novas experiências, a capacidade de lidar com certas circunstâncias, aceitá-las e deixá-las ir, e a capacidade de estabelecer vínculos seguros são factores decisivos”, afirmou Grace Viljoen, autora principal do estudo.

Também foi referido que doentes com vidas mais estáveis e relações de apoio tendiam a ter melhores resultados. Estes factores podem facilitar a gestão das mudanças emocionais e cognitivas intensas que podem ocorrer durante uma sessão.

A experiência também conta

A familiaridade com estados mentais alterados revelou-se igualmente relevante.

Doentes que praticavam meditação ou exercícios respiratórios pareciam chegar mais preparados. Mostravam-se mais capazes de lidar com as sensações e os pensamentos invulgares que surgem durante as sessões.

Isto sugere que a preparação não se resume à triagem clínica: envolve também prontidão mental.

O estudo identificou ainda padrões consistentes em pessoas com determinados hábitos. O consumo regular de substâncias como cocaína, anfetaminas, álcool ou canábis foi associado a piores resultados.

As causas permanecem incertas. Pode estar relacionado com a neuroquímica, com padrões de comportamento, ou com ambos. Ainda assim, a associação é suficientemente robusta para influenciar decisões clínicas.

A personalidade tem influência

Os traços de personalidade mostraram ligações fortes aos resultados. Doentes com traços evitantes, dependentes ou compulsivos responderam frequentemente bem. Já pessoas com traços paranóides ou esquizotípicos exigiam prudência.

No caso de traços narcisistas, anti-sociais ou borderline, os terapeutas relataram resultados mistos. Esta inconsistência evidencia áreas onde é necessária investigação adicional.

“O conhecimento de que perfis de doentes são, em termos fundamentais, adequados a esta forma de terapia - e de que perfis podem ser prejudicados - permitir-nos-á controlar melhor quem recebe este tipo de tratamento. Representa mais um passo rumo à psiquiatria de precisão num campo altamente dinâmico”, assinalou Betzler.

Factores para além da substância em si

Um dos pontos-chave contraria uma ideia comum: o resultado não depende apenas da substância psicadélica.

A preparação, o contexto e a integração moldam de forma determinante a experiência. Antes da sessão, constrói-se confiança e definem-se intenções.

Durante a sessão, o ambiente precisa de ser percebido como seguro. Depois, a integração serve para transformar os insights obtidos em mudanças aplicáveis no quotidiano.

Se algum destes passos for removido, a probabilidade de sucesso diminui.

O futuro da terapia psicadélica

Com base nestes resultados, a equipa pretende desenvolver um quadro de triagem. O objectivo é ajudar os clínicos a estimar, antes do início do tratamento, a probabilidade de um doente beneficiar.

“Num cenário ideal, os parâmetros que identificámos como decisivos serão usados no futuro na selecção de doentes”, disse Betzler.

Ferramentas deste tipo podem melhorar resultados e reduzir riscos.

Este estudo faz avançar a conversa sem cair nem no entusiasmo exagerado nem na rejeição apressada. Em vez disso, apresenta a terapia psicadélica como uma ferramenta poderosa que exige utilização criteriosa.

As duas doentes descritas anteriormente não são casos isolados. Representam o espectro de desfechos possíveis - e compreender esse espectro é essencial.

O próximo passo para esta área está bem definido: aprender a antecipar resultados antes de o tratamento começar. Só então a terapia psicadélica poderá passar da promessa para uma prática fiável.

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