Um grupo de trabalho francês descreveu um processo que, até agora, parecia ter passado despercebido e que poderá estar a impulsionar de forma decisiva a progressão do Alzheimer. No centro da descoberta estão células cerebrais muito específicas - até aqui, conhecidas sobretudo por especialistas - que aparentam desempenhar um papel-chave na acumulação patológica da proteína Tau, um dos sinais mais marcantes da doença.
O que o Alzheimer provoca no cérebro
O Alzheimer está entre as doenças neurodegenerativas mais frequentes. Afeta sobretudo pessoas com mais de 65 anos e surge de forma claramente mais comum em mulheres do que em homens. À medida que a doença avança, as pessoas perdem memórias, sentido de orientação, linguagem e, por fim, capacidades para as tarefas do dia a dia.
No cérebro, observam-se duas alterações típicas: por um lado, depósitos da proteína beta-amiloide entre as células nervosas; por outro, agregados das chamadas proteínas Tau no interior dos neurónios. Ambos os processos interferem com a comunicação entre neurónios e conduzem, gradualmente, à morte dessas células.
"A quantidade e a distribuição de depósitos de Tau correlacionam-se fortemente com a gravidade das alterações de memória e de pensamento."
Apesar disso, permanecia apenas parcialmente esclarecido por que motivo a Tau se acumula de forma tão intensa. É precisamente aqui que entra o trabalho recente de investigação realizado em Lille.
As células subestimadas: o que são os tanícitos
A equipa liderada pelo neuroendocrinologista Vincent Prévot estuda, há mais de duas décadas, um grupo celular que durante muito tempo teve um papel discreto na literatura científica: os chamados tanícitos. Estas células localizam-se sobretudo em torno do terceiro ventrículo, isto é, junto de cavidades cerebrais por onde circula o líquido cefalorraquidiano.
Os tanícitos desempenham várias funções:
- Facilitam a troca de substâncias entre o líquido cefalorraquidiano e o tecido cerebral.
- Respondem a hormonas e mensageiros químicos, incluindo sinais ligados ao metabolismo.
- Influenciam a forma como determinados sinais do sistema circulatório chegam ao cérebro.
- Contribuem para manter estável o meio interno do cérebro.
Até aqui, eram vistos principalmente como intermediários de informação sobre fome, balanço energético e hormonas. A nova investigação sugere, porém, que os tanícitos participam diretamente nos processos que desencadeiam e alimentam o Alzheimer.
O mecanismo recentemente identificado, em resumo
De acordo com a equipa de Lille, os tanícitos assumem um papel central na acumulação de proteínas Tau. De forma simplificada, o mecanismo pode ser entendido assim:
- As proteínas Tau desprendem-se dos neurónios e chegam ao líquido cefalorraquidiano.
- Os tanícitos captam a Tau a partir desse líquido e processam-na.
- Quando os tanícitos estão comprometidos ou ficam sobrecarregados, este sistema deixa de funcionar de forma equilibrada.
- A Tau começa então a acumular-se em regiões específicas do cérebro.
- Os neurónios dessas zonas sofrem danos e surgem novos sintomas, ou os existentes agravam-se.
"Os tanícitos funcionam como uma espécie de instância de filtragem e controlo da Tau - quando essa instância falha, a doença pode propagar-se sem entraves."
O estudo foi publicado numa revista científica da família Cell Press e assenta em experiências laboratoriais com modelos animais, culturas celulares e análises de tecido cerebral.
Porque é que esta descoberta é tão relevante
As terapias contra o Alzheimer têm-se centrado, até agora, sobretudo na beta-amiloide ou nas consequências diretas da neurodegeneração. A Tau tem ganho destaque, mas permanecia em aberto a questão de como se poderia controlar a sua distribuição no cérebro. As conclusões agora apresentadas apontam para um alvo concreto.
Se os tanícitos regulam o fluxo de Tau entre o líquido cefalorraquidiano e o tecido cerebral, abrem-se várias possibilidades:
- Diagnóstico precoce: alterações na função destas células poderão constituir um sinal muito inicial de risco futuro.
- Terapia: poderá ser possível desenvolver fármacos que atuem diretamente nos tanícitos, reforçando a sua função de “filtro”.
- Evolução da doença: um controlo mais estável da Tau poderá abrandar de forma percetível a progressão.
Muitos especialistas consideram particularmente interessante o facto de os tanícitos se situarem na interface entre sistema nervoso, hormonas e metabolismo. Isto liga várias áreas já há algum tempo associadas ao risco de Alzheimer - como excesso de peso, diabetes ou hipertensão.
Ligação ao metabolismo e às hormonas
Trabalhos anteriores mostraram que os tanícitos respondem a hormonas como a leptina ou a insulina, que regulam o equilíbrio energético. Processos inflamatórios e alterações no metabolismo do açúcar também deixam marcas nestas células. Este quadro encaixa-se bem com o que se observa na prática clínica: pessoas com diabetes tipo 2 ou com obesidade marcada apresentam um risco aumentado de demência.
"A descoberta sugere que, no Alzheimer, não devem estar em foco apenas os próprios neurónios, mas também as suas células 'fornecedoras' e guardiãs."
É precisamente neste ponto que surgem as primeiras ideias para novas abordagens terapêuticas. Ao proteger os tanícitos de influências nocivas, poderá ser possível manter a sua estabilidade por mais tempo - e, assim, gerir melhor a Tau.
O que isto significa para futuras terapias
Ainda não existe um medicamento que vise especificamente os tanícitos, mas os investigadores já delineiam um conjunto de estratégias possíveis:
- Reforçar a função de limpeza dos tanícitos, para que degradem a Tau mais rapidamente ou a removam do sistema.
- Proteger estas células da inflamação crónica, por exemplo através de substâncias anti-inflamatórias.
- Modular vias de sinalização pelas quais hormonas e parâmetros metabólicos influenciam os tanícitos.
- Desenvolver biomarcadores no sangue ou no líquido cefalorraquidiano que reflitam a atividade destas células.
Em paralelo, estão a decorrer, em vários países, tentativas de capturar a própria Tau com anticorpos. A longo prazo, uma combinação entre bloqueio de Tau e estabilização dos tanícitos poderá revelar-se mais eficaz do que uma única abordagem isolada.
Risco de Alzheimer: o que doentes e familiares podem fazer hoje
As novas evidências não alteram o facto de, atualmente, não existir cura. Ainda assim, tornam mais evidente a ligação estreita entre cérebro, metabolismo e estilo de vida. Por isso, muitas neurologistas e muitos neurologistas recomendam um conjunto de medidas para reduzir o risco individual ou para abrandar a evolução:
- Controlar regularmente a glicemia, a tensão arterial e os lípidos no sangue, mantendo-os bem ajustados.
- Alimentação equilibrada, com muitos legumes, fruta e cereais integrais, e pouco consumo de alimentos ultraprocessados.
- Atividade física suficiente, idealmente combinando treino aeróbio e de força.
- Sono de qualidade, com horários tão regulares quanto possível.
- Estimulação cognitiva através de leitura, conversas e aprendizagem de novas competências.
- Manter contactos sociais e evitar o isolamento.
Todos estes fatores influenciam processos inflamatórios e o metabolismo - e, provavelmente, também células como os tanícitos, que trabalham na fronteira funcional com os neurónios.
Termos que geram dúvidas: Tau, amiloide e neurodegeneração
Quem recebe um diagnóstico de Alzheimer depara-se rapidamente com conceitos técnicos. Uma orientação básica ajuda a interpretar melhor as notícias sobre investigação:
| Termo | Significado |
|---|---|
| Tau | Proteína estrutural nos neurónios; normalmente estabiliza o “esqueleto” interno da célula, mas no Alzheimer agrega-se e danifica as células. |
| Beta-amiloide | Fragmento proteico que forma depósitos entre neurónios e perturba a sua comunicação. |
| Neurodegeneração | Termo abrangente para a perda progressiva de neurónios no cérebro ou na medula espinal. |
| Tanícitos | Células especializadas junto das cavidades cerebrais; regulam a troca entre líquido cefalorraquidiano, sangue e tecido nervoso. |
Os dados agora apresentados colocam os tanícitos de forma clara nesta sequência: funcionam como um ponto de controlo que ajuda a determinar até que ponto a Tau se dissemina no cérebro.
Como a investigação poderá avançar
Antes de este novo mecanismo se traduzir numa terapia concreta, serão necessários vários passos. Os resultados terão de ser confirmados por equipas independentes, não apenas em modelos animais, mas sobretudo em estudos mais amplos com seres humanos. Em paralelo, serão necessárias ferramentas que permitam observar a atividade dos tanícitos em doentes vivos - por exemplo, através de técnicas de imagiologia ou de biomarcadores no líquido cefalorraquidiano.
Ao mesmo tempo, cresce o interesse por abordagens interdisciplinares: neurologistas, endocrinologistas, imunologistas e especialistas em imagiologia estão a colaborar mais estreitamente para compreender melhor a interação entre cérebro, hormonas e sistema imunitário. É precisamente nessa fronteira que se encontram os tanícitos - e o seu novo lugar em destaque na investigação sobre Alzheimer parece, por isso, difícil de ignorar.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário