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Café: dois médicos alertam quem deve reduzir ou parar

Jovem a beber café com expressão de desconforto, segurando o peito numa cozinha iluminada.

Em Portugal, o café também é um hábito quase sagrado: no trabalho, a estudar, depois das refeições. Ainda assim, dois médicos deixam um aviso claro: perante determinados sintomas ou doenças pré-existentes, faz sentido rever os hábitos - e, em caso de dúvida, reduzir bastante ou fazer uma pausa total.

Porque o café não é inofensivo para toda a gente

A cafeína actua directamente no sistema nervoso central. Ajuda a manter a vigilância, pode melhorar a concentração e até estimular o trânsito intestinal. O problema é que, em pessoas mais sensíveis ou já fragilizadas, este “empurrão” pode transformar-se rapidamente num efeito contrário.

Quando a quantidade é excessiva ou a tolerância é baixa, o café pode, entre outras coisas:

  • aumentar a pressão arterial,
  • agravar palpitações, batimentos acelerados e extra-sístoles,
  • perturbar seriamente o sono,
  • intensificar ansiedade e inquietação,
  • irritar o estômago e piorar a azia,
  • interferir com a absorção de ferro.

"Se depois do café fica a tremer, tem palpitações, dorme mal ou se sente ‘ligado’ por dentro, muitas vezes são sinais de alerta muito claros do corpo."

Quem deve limitar o café de forma rigorosa

Os médicos apontam, sobretudo, para alguns grupos de risco em que a cafeína deve ser consumida com grande prudência - ou evitada. Um médico de urgência e uma neurocientista chegam a conclusões semelhantes.

Coração e circulação: quando o pulso dispara

Em quem tem problemas cardiovasculares, o café exige atenção redobrada. A cafeína estimula o coração; em pessoas saudáveis e estáveis isso costuma ser bem tolerado, mas em quem já tem patologia cardíaca pode tornar-se problemático.

É particularmente relevante em casos de:

  • hipertensão grave ou mal controlada (a partir de cerca de 160/100 mmHg)
  • arritmias conhecidas
  • insuficiência cardíaca crónica

Nestas situações, o café pode provocar picos de tensão arterial ou intensificar alterações do ritmo cardíaco. Se, após poucos goles, surgir palpitação marcada, pressão no peito ou tonturas, convém levar a sério e parar de beber.

Estômago, intestino e refluxo: quando o café “se vira contra si”

O café é naturalmente ácido e pode estimular a produção de ácido no estômago. Para algumas pessoas isso não tem impacto; para outras, é realmente difícil de tolerar.

O consumo torna-se especialmente delicado em:

  • azia crónica e refluxo (retorno do ácido do estômago para o esófago),
  • gastrite (inflamação da mucosa gástrica),
  • úlceras do estômago,
  • tendência para diarreia e síndrome do intestino irritável.

Sinais de alarme típicos após tomar café:

  • ardor atrás do esterno, sobretudo ao deitar,
  • arrotos ácidos,
  • sensação de pressão no estômago,
  • diarreia súbita ou cólicas na parte inferior do abdómen.

Metabolismo, fígado e rins: quando o organismo abranda

A velocidade a que cada pessoa metaboliza a cafeína varia muito. Diferenças genéticas nas enzimas do fígado determinam o ritmo de eliminação: há quem beba um espresso e fique bem pouco depois, e há quem ainda esteja a tremer horas mais tarde.

Atenção especial em:

  • diabetes, porque a cafeína pode afectar a sensibilidade à insulina,
  • doença renal crónica,
  • doença hepática,
  • capacidade comprovadamente reduzida de metabolizar cafeína (por exemplo, por factores genéticos).

Se um café pequeno for suficiente para provocar, durante horas, agitação interna, palpitações, sensação de frio nas mãos e nos pés ou dificuldade em adormecer, é muito provável que seja um “metabolizador lento” da cafeína - e, nesse caso, a dose deve ser reduzida de forma drástica.

Gravidez, amamentação e crianças: aqui cada miligrama conta

Durante a gravidez, a cafeína atravessa a placenta e chega ao feto. O organismo do bebé, porém, elimina a substância muito mais lentamente. Estudos apontam para um risco mais elevado de parto prematuro e de restrição do crescimento quando a ingestão de cafeína é muito alta.

Na amamentação, a cafeína também passa para o bebé através do leite materno. O resultado pode ser sono mais agitado, períodos de choro e nervosismo.

Para crianças, adolescentes e jovens adultos até cerca dos 21 anos, a preocupação adicional é o desenvolvimento do cérebro. Substâncias que actuam directamente no sistema nervoso são mais sensíveis nesta fase - e a cafeína inclui-se aqui, venha ela do café, da cola ou de bebidas energéticas.

Saúde mental e sistema nervoso: quando o café alimenta a ansiedade

Pessoas com perturbações de ansiedade ou com dificuldades de sono tendem a reagir com especial sensibilidade à cafeína. Algumas chávenas podem bastar para desencadear uma crise de pânico ou noites consecutivas de ruminação.

Sinais de aviso após consumir café incluem:

  • inquietação intensa, sensação de estar “a mil”,
  • tremor nas mãos,
  • coração acelerado acompanhado de sensação de medo,
  • pensamentos em espiral e dificuldade em adormecer ou em manter o sono.

"Quem já luta com ansiedade, nervosismo ou insónia pode fazer um teste simples - duas semanas sem cafeína - para perceber se o café está a agravar o problema."

Quanto café por dia ainda é considerado seguro

Em adultos saudáveis que toleram bem a cafeína, os estudos sugerem uma margem relativamente confortável. Como referência geral, os investigadores apontam para:

  • até 200 miligramas de cafeína de uma só vez e
  • até 400 miligramas ao longo do dia.

Na prática, isto corresponde aproximadamente a:

Bebida Teor médio de cafeína
Uma chávena de café de filtro (150–200 ml) 80–120 mg
Um espresso (30 ml) 40–80 mg
Uma caneca grande de café (300 ml) 150–200 mg
Uma lata de bebida energética (250 ml) 80 mg
Uma chávena de chá preto 40–60 mg

Quem se ficar por cerca de quatro chávenas “normais” por dia tende a manter-se dentro destes valores - desde que não acrescente ainda muitos refrigerantes com cafeína ou bebidas energéticas.

Armadilhas de cafeína escondidas no dia-a-dia

O café não é, de longe, a única fonte. A cafeína também aparece, por exemplo, em:

  • chá preto e chá verde,
  • chá-mate,
  • bebidas de cola e alguns refrigerantes,
  • bebidas energéticas,
  • alguns suplementos para desporto e “fatburners”,
  • chocolate e cacau para beber (em quantidades menores).

Para avaliar a exposição de forma realista, pode ser útil registar durante alguns dias: a que horas bebeu, que bebida foi, quantas chávenas e como se sentiu depois. Esta auto-observação simples mostra muitas vezes se o seu limite individual já foi ultrapassado.

Quando é melhor cortar o café por completo

Vale a pena procurar avaliação médica, sobretudo quando já existem doenças diagnosticadas ou quando vários dos pontos seguintes surgem em simultâneo:

  • pressão arterial muito instável ou persistentemente elevada,
  • arritmias ou palpitações sem explicação,
  • azia intensa, refluxo ou dores gástricas,
  • perturbações importantes do sono que melhoram ao reduzir café,
  • crises de pânico frequentes ou ansiedade que se agrava após café,
  • doença hepática ou renal conhecida,
  • gravidez, tentativa de engravidar ou período de amamentação.

O médico pode ajudar a decidir se faz sentido parar totalmente, impor um limite rigoroso ou apenas reduzir ligeiramente. Em alguns casos, uma pausa completa de cafeína também é útil para reavaliar a tolerância.

Alternativas práticas e como tornar a redução mais fácil

Passar, de um dia para o outro, de cinco chávenas para zero pode trazer dores de cabeça, cansaço e irritabilidade. A abstinência de cafeína existe - embora, na maioria das pessoas, passe ao fim de alguns dias.

Uma transição mais suave costuma resultar com:

  • diminuir a quantidade diária de forma gradual ao longo de uma a duas semanas,
  • substituir, passo a passo, uma chávena por café descafeinado,
  • evitar cafeína a partir do início da tarde,
  • beber bastante água - a desidratação pode agravar as dores de cabeça,
  • garantir sono suficiente e luz pela manhã, para apoiar a vigilância natural.

Como alternativas, muitas pessoas optam por infusões, café de cereais, café de tremoço (lupino) ou simplesmente água quente com uma rodela de limão. Se o que aprecia é o ritual da pausa para café, pode mantê-lo - mudando apenas o que está dentro da chávena.

Como interpretar melhor os sinais de alerta

Muitas queixas parecem vagas no início: alguma palpitação, um tremor discreto, sono leve - aparentemente “nada de especial”. No entanto, quando se juntam a doenças pré-existentes ou a stress crónico, podem evoluir facilmente para um problema real.

Uma regra prática pode ajudar: se, nos 30 a 60 minutos após beber café, o seu estado piorar de forma evidente, é muito provável que não seja imaginação. Nessa situação, compensa olhar com honestidade para a rotina e falar abertamente no consultório - antes que uma bebida de prazer se torne um acelerador de saúde na direcção errada.

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