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Misofonia: porque certos sons do dia a dia parecem insuportáveis

Jovem com auscultadores a ouvir música isolado durante refeição com amigos numa mesa ao fundo.

Há aqui muito mais do que simples irritação.

Quem mal consegue suportar certos sons comuns do dia a dia tende a achar que é “esquisito”, demasiado reativo ou “sensível demais”. E, de fora, não é raro que os outros rotulem rapidamente estas pessoas como intolerantes. No entanto, a Psicologia descreve um fenómeno próprio por trás desta experiência - e ele está profundamente ligado à personalidade, ao sistema nervoso e até a recursos internos que muitas vezes passam despercebidos.

Quando engolir vira tortura: o que está por trás da aversão a sons

Os especialistas chamam-lhe misofonia, literalmente “aversão a sons”. Não se trata do barulho típico (ruído intenso), mas sobretudo de sons muito específicos, geralmente discretos e quotidianos: engolir, mastigar, respirar, clicar numa caneta, teclar no teclado, o roçar da roupa.

Para quem vive com misofonia, estes sons não são um incómodo leve: são sentidos como um ataque. O cérebro interpreta-os como ameaça e o corpo entra em estado de alerta. Daí poderem surgir emoções e reações intensas:

  • raiva súbita ou agressividade
  • nojo ou uma rejeição interna muito forte
  • pulso acelerado e tensão muscular
  • “névoa na cabeça” e perda de concentração
  • pensamentos de fuga - a vontade urgente de sair imediatamente do espaço

Misofonia não é uma mania, mas uma reação automática de alarme do sistema nervoso a determinados sons.

Algumas estimativas apontam que até 15% das pessoas podem ter este tipo de resposta - com intensidades diferentes e, muitas vezes, sem saberem que existe um nome para o que sentem.

O que acontece no cérebro quando alguém mastiga alto

Investigações em neuropsicologia sugerem que, em pessoas com misofonia, certas áreas cerebrais disparam de forma exagerada assim que surge um “som-gatilho”. Uma das zonas mais envolvidas é o córtex insular, associado ao processamento de emoções, nojo, ameaça e sensações corporais.

Nesses momentos, o sistema nervoso muda, por assim dizer, para “modo de emergência”. A situação deixa de ser avaliada com distanciamento e passa a ser vivida como perigo. Entra em ação um programa antigo: lutar, fugir ou congelar.

  • Luta: agressividade interna ou externa, comentários irritados, respostas bruscas
  • Fuga: sair do local, colocar auscultadores, afastar-se
  • Congelamento: ficar bloqueado por dentro, como se estivesse “parado” no lugar

Importa sublinhar: esta resposta não é uma escolha consciente. Quem tem misofonia não decide ficar zangado. O sistema nervoso reage mais depressa do que qualquer ponderação racional.

Traços de personalidade típicos: quem é mais afetado?

A misofonia não costuma surgir “do nada”. Muitas pessoas referem contextos de vida e características pessoais que se repetem com frequência. A prática psicoterapêutica e os primeiros estudos apontam alguns padrões.

Elevada sensibilidade a estímulos e ao ambiente emocional

Muitos descrevem-se como muito sensíveis - tanto emocional como fisicamente. Captam com mais intensidade a tensão num espaço, cansam-se mais depressa em multidões, e também reagem mais a cheiros, luz ou ao contacto da roupa na pele.

Esta sensibilidade elevada pode desgastar no quotidiano, mas traz igualmente aspetos que podem ser valiosos:

  • perceção apurada de estados de espírito e conflitos não ditos
  • elevada empatia e compaixão
  • pensamento criativo e vivência intensa das experiências

Pessoas com misofonia têm, muitas vezes, um sistema de alerta extremamente afinado - pesado no dia a dia, mas também sinal de uma sensibilidade particular.

Ligação com ansiedade, trauma e PHDA

Profissionais da área psicológica observam que muitos clientes com misofonia apresentam também outros temas associados:

  • uma base de ansiedade (traço mais ansioso)
  • experiências difíceis na infância ou adolescência
  • sinais dentro do espectro da PHDA

Em muitos casos, a dificuldade começa na puberdade e, frequentemente, dentro da própria família - por exemplo, durante refeições em conjunto. Se, nessa fase, a pessoa é repreendida, gozada ou não é levada a sério, soma-se um peso adicional de vergonha e dúvidas sobre si própria.

Quando a mesa de família se transforma num campo minado

O impacto no quotidiano pode ser considerável. Para evitar os sons, muitas pessoas desenvolvem estratégias de fuga e proteção:

  • evitam refeições em conjunto
  • usam auscultadores no trabalho
  • no comboio, sentam-se apenas em zonas específicas
  • inventam desculpas para não ir a determinadas situações

Com o tempo, pode crescer a sensação de “ser errado”. A falta de compreensão por parte dos outros empurra, por vezes, para o isolamento. Alguns desenvolvem humor depressivo, porque sentem o próprio sistema nervoso como um inimigo.

A situação torna-se particularmente dura quando pessoas próximas classificam a reação como “exagero”. O mastigar alto é visto como inofensivo e a resposta intensa passa a ser considerada “o problema” de quem sofre. Isso alimenta a vergonha e a ideia de não ser normal.

A misofonia é uma doença? O olhar da Medicina

Nos grandes sistemas de diagnóstico, como o DSM-5, a misofonia ainda não aparece como uma perturbação autónoma. Isso complica o cenário:

  • muitos médicos de família mal conhecem o termo
  • ainda não existe um procedimento de diagnóstico padronizado
  • consultas especializadas oficiais são raras

Ainda assim, os profissionais estão a levar o fenómeno cada vez mais a sério. Na prática clínica, torna-se evidente o nível de sofrimento que pode causar. E a mensagem é clara: a hipersensibilidade a sons não é um defeito de carácter, mas a expressão de um sistema nervoso que se mantém “acelerado” durante demasiado tempo.

A misofonia assemelha-se a um vulcão: se o sistema nervoso está sempre em alarme, basta um som mínimo para o fazer entrar em erupção.

Como acalmar o sistema nervoso

Não existe uma “pílula rápida” para a misofonia. Porém, com acompanhamento especializado, é possível aprender a baixar o nível de ativação do sistema nervoso e a reduzir a intensidade das reações.

Em contexto terapêutico, costumam ser usados sobretudo estes caminhos:

  • Exercícios orientados para o corpo: técnicas de respiração, movimento suave, body scan, para ajudar o corpo a sair do modo de alerta.
  • Terapia cognitivo-comportamental: treino de estratégias perante situações desencadeantes, mudança de avaliações internas, desenvolvimento de planos de segurança.
  • Regulação emocional: aprender a identificar emoções fortes, permitir que existam e, depois, acalmá-las - em vez de as suprimir.
  • Métodos focados no trauma, como EMDR: processamento de experiências antigas e difíceis que deixaram o sistema nervoso cronicamente hipersensível.

O objetivo não é “passar a gostar” de todos os sons-gatilho, mas torná-los mais toleráveis. A meta é o sistema nervoso conseguir permanecer mais vezes em repouso, reagindo com menos intensidade aos estímulos do quotidiano.

Porque a misofonia também pode ser uma força

Por paradoxal que pareça, as mesmas características que favorecem a misofonia podem ser úteis noutros contextos. Quem percebe sons e ambientes emocionais com grande intensidade costuma trazer qualidades específicas:

  • atenção elevada a pormenores
  • trabalho preciso, porque pequenas variações saltam rapidamente à vista
  • forte ressonância emocional com as pessoas à volta

Em áreas criativas, sociais ou analíticas, isto pode ser uma vantagem. O desafio está em proteger a sensibilidade em vez de a combater - e, ao mesmo tempo, definir limites para que ela não seja constantemente inundada.

A misofonia não mostra “excesso”, mas um sistema de perceção muito afinado, que precisa de apoio em vez de desvalorização.

Estratégias práticas para o dia a dia

Até que a terapia comece a fazer efeito - ou quando não há vaga disponível - alguns truques simples e realistas ajudam a prevenir escaladas:

  • Auscultadores com redução de ruído: especialmente no escritório, em transportes e em open spaces.
  • Escolha estratégica de lugares: no restaurante, evitar o centro da sala; no comboio, optar por lugares mais periféricos.
  • Pausas curtas: quando o stress sobe, sair um momento, respirar ar fresco e fazer respiração consciente.
  • Conversas abertas: explicar a pessoas próximas o que acontece no corpo, em vez de ficar apenas em “estás a mastigar alto demais”.
  • Proteção de estímulos em casa: deixar música baixa ou ruído branco quando alguém está a comer ou a trabalhar.

Quando a pessoa se compreende melhor, tende também a reagir com menos dureza à própria sobrecarga. A mensagem interna muda de “sou estranho” para “o meu sistema nervoso está a reagir de forma extrema - e eu posso fazer algo para ajudar”.

Porque a informação alivia quem sofre

Muitas pessoas sentem um alívio enorme quando ouvem pela primeira vez a palavra misofonia e percebem: não estou sozinho. Mesmo que no dia a dia seja desgastante, a reação faz sentido do ponto de vista neurológico.

Mais conhecimento também ajuda familiares e parceiros. Quando se entende que o problema é uma resposta corporal de alarme - e não má vontade - surge mais empatia e menos gozo. Pequenos ajustes no quotidiano já conseguem reduzir a tensão em famílias e relações.

No fundo, trata-se de mudar o enquadramento: a misofonia não é um falhanço pessoal, mas um sinal de que um sistema já sensível chegou ao limite. Ao aprender a lidar com essa sensibilidade, a pessoa não só ganha mais tranquilidade no dia a dia, como muitas vezes passa a olhar para a própria personalidade com mais respeito.

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