Resultados, geopolítica e planos de contingência no grupo Impresa
Em 2025 o grupo voltou aos lucros. Como está a correr este ano? Sentem os efeitos da guerra no Médio Oriente?
Por motivos regulatórios, não me é possível comentar os nossos resultados deste ano. Ainda assim, de um ponto de vista geral, o mercado publicitário não tem evidenciado um impacto direto destes acontecimentos geopolíticos - e isso pode explicar-se por vários fatores. Em Portugal, felizmente, não estamos no centro do problema e, por essa razão, não se tem sentido um efeito relevante no mercado publicitário.
Dito isto, temos planos de contingência em curso, trabalhados internamente, para responder a eventuais quedas de receitas ou a aumentos de custos de energia. Infelizmente, nos últimos 10 anos, já tive de lidar com vários choques: a pandemia da covid-19, o ataque informático e a guerra na Ucrânia foram três situações especialmente difíceis.
Ainda há margem para reduzir os custos?
Sim. Existe um plano que arrancou no ano passado e que se prolonga até ao final de 2028, centrado em três frentes: conteúdos, serviços gerais e administrativos, e operações e tecnologia. A meta é maximizar a eficiência, algo que sempre fez parte da nossa forma de trabalhar, mas desta vez fomos mais longe e recorremos a um consultor externo para identificar oportunidades de cortes estruturais nestas três áreas.
No primeiro ano, 2025, não só atingimos como excedemos a meta em mais de €1,5 milhões. E o plano é manter esse caminho.
Trust in News e o negócio das revistas
A Impresa vendeu em 2018 as revistas que tinha à Trust in News, de Luís Delgado, mas continua a ter bastante dinheiro a receber desse negócio, na sequência da insolvência daquele grupo. Ainda espera recuperar aquele dinheiro?
Não temos acesso a informação detalhada sobre o que aconteceu dentro da Trust in News. Conhecemos o que é público: os resultados degradaram-se de forma muito acentuada, o que acabou por conduzir ao processo de insolvência. Nesse processo, somos parte interessada - para não dizer diretamente afetada - e teremos de aguardar para perceber o que o tribunal vai decidir.
Luís Delgado disse que não comprou o que estava a pensar. Como viu essas declarações?
Estamos de consciência tranquila. Não vendemos gato por lebre, nem nas revistas nem em qualquer outro aspeto. Se o comprador não fez o trabalho que lhe cabia fazer, então essa questão deve ser colocada ao comprador.
Direitos de futebol, FIFA e a entrada do YouTube
O futebol é um produto muito cobiçado. A Media Capital tem os direitos de transmissão de jogos do Moreirense e a RTP transmitiu os jogos da Taça de Portugal. A Impresa não joga neste campeonato. Não quer jogar?
A Impresa participa onde existam oportunidades de negócio sólidas. Avaliámos essas possibilidades e concluímos que, neste caso, não se tratava de boas oportunidades; por isso, optámos por não entrar.
O presidente executivo da Media Capital criticou o preço que a FIFA pede pelos direitos de transmissão dos jogos do Mundial de Futebol. A SIC ainda está a analisar a hipótese de transmitir alguns jogos?
Sim. O valor em discussão é muito alto. Concordo plenamente com o que disse o Pedro Morais Leitão, mas há um ponto ainda mais sério: o preço é superior ao habitual e, ao mesmo tempo, os jogos já foram vendidos ao YouTube.
Vai haver um jogo por dia, por cada jornada do Mundial, e o melhor jogo foi atribuído ao YouTube, incluindo os jogos de Portugal. Naturalmente, nos dias em que Portugal joga, será esse o jogo que eles escolherão como “melhor jogo” e, do nosso ponto de vista, isso desvaloriza automaticamente o preço que a FIFA está a praticar. Logo, nós deveríamos pagar menos.
No imediato, e no muito curto prazo, isto está errado: não faz sentido, é irrazoável. Já numa perspetiva de médio e longo prazo, e do ponto de vista estratégico, é muito inquietante a forma como o YouTube está a entrar em Portugal - o único país da Europa onde vai ter estes direitos sobre o Mundial. Era desejável que existisse preocupação por parte dos governantes, que não parecem estar a olhar para esta situação.
Como conseguiu o YouTube entrar em Portugal? Porque é uma exceção em relação a outros países?
Não sabemos; essa pergunta tem de ser feita à FIFA. Podemos admitir que Portugal esteja a ser usado como “laboratório”, um piloto para testar o modelo e recolher dados, como estas plataformas tecnológicas fazem. E, depois, é provável que tentem alargar esse teste-piloto a outros países europeus.
RTP, serviço público e financiamento da publicidade
É justo um canal como a RTP, que não depende das audiências, ter transmissão de jogos de futebol?
A RTP tem a sua estratégia, o seu orçamento e um contrato de concessão, e deve cumprir as regras que lhe são aplicáveis e que estão previstas na lei. O que nós consideramos injusto - e já o afirmámos várias vezes - é o modelo de financiamento da RTP.
Quanto ao uso que a RTP faz do seu dinheiro, isso é outra questão. Se a transmissão dos jogos da seleção portuguesa for interpretada como serviço público, então temos de aceitar. O que importa é olhar “a montante”: e, de facto, não concordamos com o financiamento.
Estamos a falar de mais de €20 milhões em publicidade e pode surgir a frase “ah, mas não faz mossa”. Faz. Gostaríamos de poder competir por esses €20 milhões; não iria tudo para a SIC e para a TVI, mas deveria existir uma parcela disponível, além de outras receitas comerciais que a RTP tem e que não se resumem à publicidade.
E, acima de tudo, aqui não é apenas o montante: é o princípio. Ou seja, existe uma contribuição para o audiovisual tão elevada que, pela sua dimensão, já supera toda a faturação do grupo Impresa.
O anterior Governo chegou a querer retirar a publicidade à RTP, mas o processo foi bloqueado no Parlamento. Acredita que poderá voltar a ser colocado à consideração por este Executivo?
Eu gostaria que isso viesse a acontecer, mas para tal é necessário que existam condições políticas para o efeito.
Plano do Governo para a comunicação social e exportação de conteúdos
O Governo anunciou em outubro de 2024 um plano para a comunicação social. O que regista como positivo e o que ainda está por fazer?
Antes de mais, importa esclarecer que não estamos de mão estendida a pedir ajuda ao Estado, independentemente do Governo. O jornalismo é, e bem, encarado como um pilar do Estado democrático: serve o escrutínio do poder, informa e permite que as pessoas se mantenham informadas.
Mas os media também cumprem outras funções. Uma delas, ligada aos conteúdos - incluindo informativos, mas sobretudo entretenimento e ficção - é a exportação. Se existirem condições, podemos contribuir para o PIB do país.
O Governo interiorizou que apoiar o audiovisual é relevante para Portugal, mas esse apoio não pode limitar-se a atrair grandes estúdios de Hollywood para virem cá fazer o “Fast and Furious” e o “Game of Thrones” e, depois, irem embora. Também tem de contribuir para criar e reforçar uma indústria nacional.
Telenovelas portuguesas como produto de exportação
Em Portugal as novelas ainda são consideradas um género menor?
Sim - e isso é um erro. As novelas retratam uma realidade portuguesa que é importante na exportação da nossa identidade cultural para o mundo. Para qualquer Governo, é fundamental comunicar o que se passa em Portugal: os nossos costumes e a nossa forma de estar.
No novo ecossistema das plataformas de streaming, é preciso muito conteúdo. E temos vindo a perceber, nos últimos tempos, que as telenovelas são particularmente valiosas para essas plataformas. Com parcerias com a Amazon e a Disney Plus, temos conseguido vender as nossas novelas e, pelos dados que nos partilham, o desempenho tem sido positivo: é um tipo de conteúdo que atrai e retém utilizadores nas plataformas de streaming.
Falta o Governo ver as novelas como um produto de exportação?
Exatamente. Está a dar os primeiros passos nessa direção, mas é importante que ganhe maior consciência desse potencial.
Quando digo que não estamos de mão estendida, refiro-me também à necessidade de harmonizar condições de mercado. O YouTube vai transmitir jogos de Portugal e pode definir livremente o investimento publicitário e a colocação de publicidade durante os jogos, porque o digital não está regulado. Isto é um ataque enorme - uma facada, se quiserem - à concorrência leal. É concorrência desleal, por completo.
Muitos jogos vão passar durante o dia. Nós não podemos colocar publicidade a cervejas ou uísques antes das 22h30, mas eles podem fazer o que entenderem.
O Governo não está a olhar com a devida atenção para os media?
Têm de perguntar ao Governo; não sei. A PMP - Plataforma de Media Privados, de que fazemos parte e que reúne os cinco principais grupos portugueses de media - entregou ao Governo um documento com aquilo que entendemos que deve ser alterado em matéria de publicidade, para existirem condições equitativas de concorrência.
Não tiveram resposta?
Até agora, não. Existem matérias que não dependem diretamente do Governo, porque decorrem de diretivas europeias; ainda assim, no documento distinguimos o que vem dessas diretivas, o que pode ser decidido pela Assembleia da República e o que cabe ao próprio Governo.
Plataformas digitais, direitos de autor e inteligência artificial
Há 10 anos dizia que plataformas como a Google ou o Facebook revelavam uma postura arrogante. Continuam?
Diria que, passados 10 anos desde essa entrevista, essa arrogância não diminuiu; pelo contrário, tornou-se ainda mais evidente. Costuma dizer-se que com grande poder vem grande responsabilidade, mas aqui parece que com grande poder vem grande arrogância.
Em 2016, tentávamos negociar acordos para que estas grandes plataformas respeitassem os nossos direitos de propriedade intelectual - os direitos sobre os nossos conteúdos -, mas isso nunca se concretizou. Houve momentos em que pensámos estar perto, mas nunca reconheceram que aquilo que utilizam dos nossos conteúdos deve ser pago e licenciado.
Entretanto, existiu um avanço na Europa com os direitos dos editores (publisher’s rights), a diretiva dos direitos de autor, que nos confere o direito de fazer exatamente o que defendo. Mesmo assim, quando nos sentamos à mesa com as plataformas, a arrogância é cada vez mais visível - até descarada. Apresentam propostas absolutamente ridículas, não há poder negocial do nosso lado e, no fim, tudo fica na mesma.
Mas há sempre a ideia de que a luta dos media contra as plataformas tem de partir de uma posição comum na Europa. Continua a ser assim ou esse é um argumento fraco?
Diria que - e regressando ao tema da MFE - só a união faz a força. Por isso, estamos a organizar-nos, juntando broadcasters, jornais e editores em coligações. Integramos o European Publishers Council e, em Portugal, a PMP.
Essa postura das plataformas tem sido reforçada porque detêm tecnologia que mais ninguém tem, e tem havido um crescimento muito significativo destas empresas com a inteligência artificial (IA). Em 2025 e em 2026, a economia americana tem estado fortemente dependente da IA e destas grandes empresas; se um dia essa bolha rebentar, será um problema.
Para nós, com a IA generativa, a situação tornou-se ainda mais difícil: voltámos à mesa de negociações, mas, neste momento, já perdemos praticamente o controlo e o “comboio”, porque os modelos de linguagem de grande escala (LLM) estão a ser treinados com base nos nossos conteúdos. Estamos a recuar; para nós, isto está a piorar, porque a tecnologia avança e nós ficamos sempre mais prejudicados. Ou pagam pelos conteúdos, ou então estas empresas têm de ser processadas.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário