A vida consegue ser mesmo injusta. O seu cão pode enfardar ração de marca branca sem lhe aparecer uma única borbulha, enquanto a si basta um quadradinho de chocolate ou uma rodela de chouriço para o rosto parecer uma calculadora. Porquê?
Admitamos: não é exactamente esta a pergunta que nos ocorre quando damos por nós com uma borbulha horrível a ter nascido na testa durante a noite, mesmo antes de um encontro romântico ou de uma reunião profissional importante. Normalmente, resmungamos e experimentamos de tudo (muitas vezes de forma pouco jeitosa) para tentar fazer desaparecer esse intruso.
Ainda assim, nada nos impede de ir mais fundo: porque é que, no grande catálogo da evolução, somos os alvos preferenciais destas erupções cutâneas? Será que o seu gato, que o observa com um desprezo nada subtil desde a borda do lavatório, está imune? E o seu cão, que espera pacientemente pelo passeio matinal?
O privilégio (muito) relativo de Homo sapiens e a acne humana
A resposta pode picar quase tanto como uma borbulha no sítio errado: a acne, na sua forma mais complexa, é uma exclusividade humana. O reino animal não está totalmente livre deste problema cutâneo pouco elegante, mas os mecanismos biológicos por trás dele não são, de todo, os mesmos.
Quando uma borbulha de acne aparece à superfície, é porque algo falhou dentro do folículo pilossebáceo - a estrutura onde estão a raiz do pelo e a glândula que produz a gordura (sebo). No ser humano, este poro funciona, em condições normais, como um sistema de escoamento: as células mortas (queratinócitos) sobem pelo canal para serem eliminadas. Só que, por vezes, esta esfoliação natural abranda ou pára: é a hiperqueratinização; os queratinócitos acumulam-se e formam um tampão que fecha o poro por dentro.
Preso num ambiente sem oxigénio e rico em lípidos, um agente patogénico benigno, mas irritante, desperta: a bactéria Cutibacterium acnes. Ela vive naturalmente na nossa pele, sem levantar ondas, como parte do nosso microbioma. Porém, quando fica enclausurada nesse meio pobre em oxigénio e cheio da sua comida favorita, multiplica-se. À medida que prolifera, liberta substâncias inflamatórias que acabam por romper a parede do poro, derramando esse cocktail irritante na derme. E assim nasce a borbulha!
Os animais: mais sortudos do que nós
Os nossos companheiros de quatro patas não são todos afectados da mesma forma, porque o microbioma e o tecido cutâneo deles não favorecem este tipo de proliferação “à porta fechada”. O cão, por exemplo, pode apresentar algumas borbulhas no focinho, mas, muitas vezes, o problema vem dos próprios pêlos, frequentemente curtos e rijos, que perfuram a pele como micro-espinhos. Ao partirem junto à base, lesionam a parede do poro, provocando uma infecção bacteriana local, a furunculose.
Já o gato tende a desenvolver uma acne no queixo que se parece mais com uma dermatose de contacto. Muitas vezes, é desencadeada por bactérias instaladas em micro-riscos nas tigelas de plástico; isso provoca um excesso de queratina que obstrui os poros, mas sem nunca chegar às crises de acne de que nós sofremos.
Alguns primatas também podem ter este problema, como chimpanzés ou macacos-macaque, que por vezes apresentam comedões e pápulas no rosto. Neles, o fenómeno é menos evidente porque, embora a pele se assemelhe à nossa, o sebo é menos “nutritivo”. O sebo humano é muito rico em gorduras que, depois de digeridas por bactérias, se transformam em ácidos irritantes. E, quando vivem em estado selvagem, a alimentação com poucos açúcares rápidos protege-os dos picos de insulina que, nos humanos, estimulam a produção de sebo.
No fim de contas, estar no topo da evolução (uma ideia que também é relativa) tem um preço: a nossa pele pode ser muito caprichosa, em grande parte por causa do nosso sistema endócrino, mais complexo do que o das outras espécies animais. Por isso, somos os únicos grandes símios obrigados a preocupar-se com isto; membros VIP de um clube muito exclusivo que não interessa a mais criatura nenhuma.
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