A paz armada acabou: a BioNTech decidiu levar a Moderna a tribunal e pede compensação pela alegada utilização ilícita das suas patentes no mais recente imunizante da empresa norte-americana, hoje o seu produto estrela.
Na quinta-feira passada, a BioNTech, gigante alemã, apresentou uma queixa num tribunal federal do Delaware (Estados Unidos) contra a sua rival histórica, a Moderna. O ponto central do processo é uma alegação de violação de patente relacionada com o mNEXSPIKE, a nova versão da vacina contra a COVID-19 da farmacêutica norte-americana. A BioNTech insiste que a Moderna recorreu indevidamente ao seu portefólio de inovações patenteadas para o desenvolver. Pensado para manter eficácia com doses muito baixas (ao contrário da anterior Spikevax), o mNEXSPIKE surge como uma arma competitiva para conquistar o lucrativo mercado dos reforços anuais.
Em termos práticos, trata-se de um ataque directo ao bastião tecnológico da Moderna - a plataforma de ARNm -, uma verdadeira mina de ouro que ajudou a travar a crise sanitária global de 2019-2023 e levou as valorizações bolsistas de ambos os grupos a níveis elevados. Qual dos dois conseguirá convencer os juízes de que detém o “ADN” desta invenção sem ter precisado de espreitar por cima do ombro do outro?
Moderna em tribunal: o reforço vacinal mNEXSPIKE que pode sair caríssimo
Para a Moderna, o mNEXSPIKE é a galinha dos ovos de ouro; de acordo com a queixa apresentada pela concorrente, deverá representar 55 % das receitas da empresa associadas a vírus respiratórios na época de 2025-2026. A dimensão financeira desta disputa é gigantesca: uma eventual condenação penalizaria a Moderna e permitiria à BioNTech exigir indemnizações retroactivas sobre as vendas.
Segundo a acusação, a razão pela qual o mNEXSPIKE consegue ser tão eficaz em doses reduzidas é o facto de usar uma estrutura molecular simplificada, concebida para evitar a degradação prematura do produto - uma inovação que o laboratório alemão reivindica como propriedade exclusiva. Numa declaração oficial, manifestou a intenção de «proteger as suas inovações baseadas no ARN mensageiro que a empresa lançou, desenvolveu e patenteou».
Do outro lado, a Moderna já prepara a sua defesa e limitou-se a indicar, segundo a Reuters, que tenciona «defender-se vigorosamente contra as acusações da BioNTech». Como o mNEXSPIKE é a coluna vertebral das suas contas, uma derrota neste processo poderia cortar o seu volume de negócios para metade, afastando investidores.
Também está em causa a reputação: a Moderna sempre reclamou a autoria da plataforma de ARNm, e a sua narrativa de marketing assenta por completo na ideia de que domina as chaves desta tecnologia desde 2010. Fala-se mesmo de «narrativa», porque, tal como é descrita, esta plataforma seria totalmente impraticável, uma vez que depende de um mosaico de patentes de terceiros. A empresa reuniu - com sucesso - investigação pública e privada já existente, mas não criou tudo sozinha.
Além disso, o mercado de vacinas contra a COVID-19 está em forte queda desde a pandemia, o que já deixa a Moderna numa posição frágil. Para agravar, desde o regresso de Donald Trump ao poder, Robert F. Kennedy Jr. passou a ocupar o cargo de secretário da Saúde e dos Serviços Sociais dos Estados Unidos. Uma figura antivacinas conhecida, com posições científicas muito duvidosas, cuja presença no Governo poderá enfraquecer ainda mais a posição da Moderna perante os seus credores. Se se confirmar que a Moderna de facto se apoiou no trabalho da concorrente, a empresa poderá ser forçada a pagar indemnizações elevadas ou a aceitar contratos de licenciamento de patentes. Assim seguem as duas empresas por um labirinto jurídico complexo, que poderá só terminar em 2028 se não houver acordo antes.
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