As flexões podem ser difíceis até para quem já treina há muito tempo. Ainda assim, muitas mulheres têm dificuldade em fazê-las - mesmo depois de meses de treino no ginásio.
Por isso, quando um alegado "truque de flexões para mulheres" começou a ganhar destaque nas redes sociais, não surpreende que alguns desses vídeos se tenham tornado virais.
Um "truque" simples nas flexões: rodar as mãos para acompanhar a anatomia feminina
A ideia do truque é fazer um pequeno ajuste na colocação das mãos. Em vez de manter as mãos apontadas para a frente, alinhadas com o corpo, diz-se que as mulheres devem colocar as mãos mais “de lado”, com os dedos orientados para fora, afastando-se do tronco.
A anatomia ajuda a perceber porque é que esta alteração pode tornar as flexões mais fáceis para muitas mulheres. E a explicação passa por uma zona do corpo que nem sempre se associa a este exercício: a pelve.
A pelve influencia a posição do braço em relação ao tronco. Nas mulheres, o ângulo formado onde o antebraço e o braço se encontram no cotovelo (o chamado ângulo de transporte), em relação à pelve, é em média de cerca de 15 graus, enquanto nos homens é em média de cerca de 10 graus. Este ângulo tende a ser maior nas mulheres para permitir maior “folga” da pelve durante o movimento.
O ângulo de transporte não afeta apenas a forma como os ossos do membro superior se articulam entre si e com o tronco. Também condiciona a direção em que os músculos exercem a sua contração.
Isto ajuda a explicar porque é que algumas mulheres sentem mais dificuldade em executar flexões no modelo convencional. Ao afastar ligeiramente as mãos e ao rodá-las um pouco para fora, permite-se que ossos e músculos sigam padrões de movimento mais naturais.
Além disso, as mulheres tendem a ter ligamentos e tendões mais flexíveis, o que se traduz, muitas vezes, numa maior amplitude articular. Quando a biomecânica do movimento não está bem alinhada, essa maior mobilidade pode aumentar a sobrecarga nas articulações ou tornar a dor mais provável.
Também há diferenças no tronco e na cintura escapular: o tronco (a estrutura que liga a parte superior do ombro ao braço) é 12,4% maior nos homens do que nas mulheres. Este fator contribui igualmente para variações biomecânicas, como o centro de gravidade e os músculos que se tornam mais eficientes em determinados exercícios.
Ombros e exercícios acima da cabeça: adaptações úteis
As flexões não são o único exercício que as mulheres podem querer ajustar para respeitar melhor a sua anatomia. Também pode fazer sentido adaptar a forma como executa outros exercícios de braços - sobretudo aqueles em que o braço fica elevado acima da cabeça.
As mulheres têm maior probabilidade de lesionar o ombro por uso excessivo ou por movimentos repetitivos. Uma das razões é que as articulações do ombro nas mulheres tendem a ser mais pequenas e mais móveis do que nos homens, o que aumenta a amplitude de movimento.
No entanto, sendo o ombro uma articulação altamente móvel, essa mobilidade adicional vem acompanhada de mais instabilidade. Assim, o ombro depende muito dos músculos da coifa dos rotadores para manter a articulação estável e bem posicionada.
A agravar este cenário está o facto de as mulheres terem, em média, menos massa muscular, uma zona de contacto entre os ossos da articulação do ombro com formato diferente e clavículas mais curtas e mais finas.
Somadas, estas diferenças anatómicas aumentam o risco de lesão em exercícios que envolvam rotação interna do ombro ou trabalho acima da cabeça. Entre eles estão o press de ombros, os fundos para tríceps, as elevações laterais, a remada ao queixo e os press acima da cabeça.
Como alternativas mais seguras para o ombro, podem ser boas opções as extensões de tríceps deitado (um exercício de tríceps em que se deita num banco e baixa lentamente uma barra em direção à cabeça), as elevações laterais com pega neutra (polegares para cima) e o press com halteres sentado.
Se os fundos forem o seu exercício preferido, manter o tronco perpendicular ao chão pode ajudar a reduzir a tensão no ombro.
Outra possibilidade é usar barras inclinadas em vez de barras paralelas. Como as barras inclinadas convergem ligeiramente, permitem uma posição do punho mais natural, em contraste com barras paralelas, onde os polegares ficam a apontar diretamente para a frente.
Exercício e anatomia
A pelve também pode condicionar a forma como os exercícios para a parte inferior do corpo são executados.
Cada uma das duas metades da pelve é composta por três ossos distintos que se fundem ao longo do crescimento. Nas mulheres, a pelve é cerca de 25% mais larga do que nos homens para permitir a passagem de um feto durante o parto. Esta diferença influencia a posição do membro inferior.
Uma pelve mais larga nas mulheres leva a um ângulo Q (ângulo do quadricípite) maior. O ângulo Q é definido pelas linhas que se cruzam entre a rótula (a “tampa” do joelho) e a pelve, e entre a rótula e a tíbia (osso da perna).
O alinhamento do ângulo Q afeta a forma como os músculos da perna promovem o movimento. Por isso, as mulheres podem precisar de especial atenção ao executar exercícios como agachamentos, passadas, levantamentos terra e saltos para a caixa, porque a combinação destas diferenças anatómicas com a técnica pode aumentar o risco de lesão.
De um modo geral, as mulheres têm oito vezes mais probabilidade de sofrer uma lesão do ligamento cruzado anterior (LCA) do que os homens, e o ângulo Q é um dos fatores de risco associados. Assim, exercícios que colocam uma carga elevada através das articulações podem exigir algumas modificações.
A maior largura da pelve também pode favorecer que os joelhos colapsem para dentro - um padrão conhecido como “valgo dinâmico”. Isto pode aumentar de forma significativa o risco de lesão ao aterrar após saltos ou durante o agachamento. Rodar os pés cerca de 30 graus para fora ao fazer estes exercícios pode reduzir esse colapso até 50% e diminuir o risco de lesões no joelho.
Ao agachar, procure manter a pelve sempre nivelada (paralela ao chão) e evite que os joelhos colapsem para dentro. Os joelhos também não devem avançar demasiado para a frente em relação aos dedos dos pés, e os pés devem manter contacto com o chão durante todo o movimento. Algumas mulheres podem ainda beneficiar de uma postura ligeiramente mais ampla, com os pés um pouco mais afastados do que a largura dos ombros, tendo em conta a pelve mais larga.
Pequenos ajustes para respeitar estas diferenças anatómicas podem ajudar as mulheres a reduzir o risco de lesão e a melhorar a eficiência do treino.
Adam Taylor, Professor de Anatomia, Universidade de Lancaster
Este artigo foi republicado a partir de A Conversa ao abrigo de uma licença Commons Criativas. Leia o artigo original.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário