As tartarugas-verdes marinhas havaianas estão a consumir uma alga que se espalha rapidamente e que pode sufocar e danificar os recifes de coral.
A descoberta sugere que um animal classificado como ameaçado pode, afinal, desempenhar a função de “defensor” do recife.
Ainda assim, há indícios de que estas tartarugas poderão transportar o problema para além do que é benéfico para o ecossistema.
Um novo interveniente na proteção dos recifes
Em Kuaihelani, no Atol de Midway, no noroeste do Havai, câmaras que monitorizavam o recife registaram uma tartaruga de grandes dimensões a alimentar-se da alga invasora.
Ao analisar as imagens de vídeo, a Dra. Celia M. Smith, da University of Hawaiʻi at Mānoa (UH Mānoa), associou cada dentada a um papel inesperado das tartarugas.
A equipa observou três animais a alimentar-se durante cerca de 50 minutos, tempo suficiente para indicar que o comportamento não foi ocasional.
Isto altera a forma como se encara a praga das algas. Proteger recifes remotos continua a significar proteger as tartarugas - mas também implica acompanhar com atenção o que elas podem transportar.
Mecânica da propagação da alga
A espécie em causa é Chondria tumulosa, uma alga vermelha que forma mantos sufocantes com mais de 6,1 cm de espessura.
Partes do tapete podem soltar-se e voltar a fixar-se no recife duro, permitindo que diferentes manchas “semeiem” umas às outras.
No interior do Papahānaumokuākea Marine National Monument, uma área oceânica protegida a noroeste do Havai, manchas iniciais transformaram-se em cobertura extensa ao longo de apenas alguns anos.
Como ninguém demonstrou que a alga tenha vindo de fora do Havai, os responsáveis pela gestão classificam-na como uma espécie incómoda com características invasoras.
Expansão a uma velocidade invulgar
A partir de imagens captadas do espaço, o mapeamento por satélite revelou que a alga se tornou uma infestação de grande escala.
Até 2021, as acumulações cobriam cerca de 101 km², depois de a área ter aumentado 115 vezes desde os primeiros vestígios visíveis.
Essas manchas escuras também se estenderam 56 vezes em comprimento, evidenciando quão depressa a alga solta consegue ocupar o fundo do recife.
Quando o crescimento não é travado, os corais ficam com menos luz e menos espaço, o que fragiliza o habitat recifal para peixes e outras formas de vida marinha.
Prova direta de alimentação
Gravações de vídeo de junho e julho de 2025 mostraram três tartarugas a alimentar-se do tapete durante cerca de 50 minutos.
Num dos períodos mais intensos, uma fêmea deu 18 dentadas em 95 segundos, abrindo falhas com 5,1 cm a 15,2 cm de largura. Os peixes e os ouriços-do-mar nas proximidades não removeram a alga com a mesma rapidez nem com dentadas de dimensão comparável.
Por isso, um único herbívoro de grande porte, como uma tartaruga, torna-se relevante: cada bocada retira biomassa viva antes que esta possa cobrir ainda mais coral.
Uma fêmea adulta que morreu recentemente forneceu uma segunda linha de evidência. Numa necropsia, os investigadores encontraram fragmentos de Chondria tumulosa na parte superior do trato digestivo e nas fezes.
A matéria vegetal recém-ingerida observada nesse trato parecia corresponder a cerca de 25% da alga invasora. Este resultado confirmou que as tartarugas não estavam apenas a remexer o tapete - estavam efetivamente a engoli-lo.
Fragmentos sobreviventes podem espalhar-se
Este comportamento de alimentação torna-se arriscado quando os pedaços arrancados são suficientemente pequenos para viajar.
As tartarugas marinhas migram entre áreas de nidificação e de alimentação, e o seu intestino pode transportar material engolido ao longo dessas rotas.
Os cientistas ainda não demonstraram que os fragmentos expelidos pelas tartarugas sobrevivem sempre, pelo que o risco permanece em aberto e exige testes diretos.
Mesmo uma probabilidade reduzida tem importância, porque um único fragmento sobrevivente pode iniciar uma nova mancha de alga num recife limpo.
Importância das rotas de migração
As tartarugas-verdes marinhas havaianas são répteis marinhos herbívoros, com o nome formal Chelonia mydas, e estão listadas como ameaçadas ao abrigo da legislação federal.
Cerca de 96% da sua nidificação ocorre em Lalo, uma ilha coralina remota, em forma de anel, a noroeste das principais ilhas havaianas.
Após nidificarem, os adultos dispersam-se ao longo do arquipélago do Havai, ligando recifes distantes através do seu movimento natural, e não por transporte humano.
Assim, as ações de conservação não podem limitar-se a “adicionar” tartarugas a áreas específicas; é igualmente necessário acompanhar para onde seguem depois da nidificação.
Sinais na água
A análise da água com ADN ambiental - vestígios genéticos libertados na água do mar - consegue indicar a presença da alga antes de se formarem tapetes visíveis.
Em trabalhos anteriores, a ferramenta detetou locais ocupados em pelo menos 92% das vezes quando vários testes laboratoriais deram positivo.
As deteções falso-positivas, quando o alvo está ausente, mantiveram-se em 3% ou menos, enquanto as falhas de deteção ficaram em 11% ou menos.
Estes valores tornam a monitorização útil, sobretudo onde as equipas de campo não conseguem deslocar-se com frequência. Ao mesmo tempo, exigem confirmação antes de os gestores declararem um recife como livre da alga.
Novos caminhos para a infestação
Perto de Oʻahu, a ilha mais populosa do Havai, uma nova infestação seria mais difícil de isolar do que no monumento remoto.
“Nosso esforço conjunto com múltiplos parceiros para impedir que esta alga se fixe nas principais ilhas havaianas tem de incluir um plano para aumentar o número de tartarugas-verdes nativas”, afirmou Smith.
Esse plano tem um limite claro: nenhum animal consegue resolver uma invasão se os humanos continuarem a abrir novos caminhos para a infestação.
A evidência sobre as tartarugas reformula a invasão como uma relação em movimento entre coral, alga, recuperação animal e análise da água - mas não oferece uma solução simples.
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