A camada de ozono foi, durante muito tempo, um exemplo claro de cooperação internacional. Com o Protocolo de Montreal, os países alinharam esforços e reduziram os químicos que estavam a abrir uma brecha no escudo protector do planeta.
Durante anos, a comunidade científica considerou que a recuperação estava bem encaminhada. Investigações mais recentes, porém, indicam que o cenário é mais intricado do que parecia.
Um estudo recente dos Laboratórios Federais Suíços de Ciência e Tecnologia de Materiais (Empa) mostra que existe uma fonte de emissões pouco visível que está a travar o avanço.
O problema não vem do uso directo desses compostos, mas sim de substâncias empregues como matérias-primas em processos industriais. A constatação levanta uma dúvida importante: estamos mais perto da recuperação do que imaginamos, ou afinal mais longe?
“Estas substâncias não só destroem ozono como também são extremamente nocivas para o clima. Emissões mais baixas beneficiariam, portanto, tanto a camada de ozono como o clima”, disse Stefan Reimann, autor principal do estudo.
A recuperação do ozono já pareceu estar controlada
Assinado em 1987, o Protocolo de Montreal apontou directamente a químicos prejudiciais, como os clorofluorocarbonetos. No alto da atmosfera, estes compostos contribuem para a degradação do ozono.
Com o passar do tempo, regras rigorosas reduziram o seu uso, e os cientistas projectaram que a camada de ozono poderia recuperar a meio deste século.
No que toca às emissões directas, a estratégia revelou-se eficaz. Contudo, o acordo assentou numa premissa essencial: a de que os químicos usados como matérias-primas na indústria praticamente não chegariam à atmosfera.
As primeiras estimativas situavam essas perdas em apenas 0.5 percent da produção. Durante décadas, essa expectativa influenciou a forma como se definiram políticas e prioridades.
As fugas industriais estão a aumentar
As matérias-primas são substâncias químicas utilizadas para fabricar outros produtos. Em teoria, não deveriam escapar para o ar. Na prática, há perdas ao longo da produção, do transporte e do processamento.
“Mas esta avaliação já não tem sido exacta há bastante tempo”, disse Reimann.
“Os químicos usados como matérias-primas estão agora a ser libertados em quantidades maiores durante a produção, o transporte e o processamento subsequente, e os volumes actualmente produzidos são significativamente superiores ao que se assumia há 30 anos.”
De acordo com o novo estudo, as emissões reais ficam muito acima do esperado. Em vez de 0.5 percent, as estimativas actuais apontam para cerca de 3.6 percent da produção a escapar para a atmosfera.
À escala global, uma diferença que parece pequena torna-se relevante. Além disso, desde 2000, o uso industrial destes químicos cresceu mais de 160 percent.
Uma parte destas substâncias é essencial para materiais modernos, como refrigerantes, polímeros e componentes usados em baterias de veículos eléctricos. E, à medida que a procura aumenta, cresce também a probabilidade de ocorrência de fugas.
A procura por químicos continua a crescer
O estudo identifica vários compostos por trás desta tendência. O tetracloreto de carbono, por exemplo, continua a apresentar emissões significativas apesar de ter sido eliminado para uso directo. Hoje, os cientistas calculam uma taxa de emissão superior a quatro por cento da produção.
Outras substâncias, como o HCFC-22 e o HCFC-142b, também evidenciam um aumento de utilização. Estes químicos são importantes na produção de polímeros e de agentes de arrefecimento mais recentes.
A transição para alternativas, como as hidrofluoroolefinas, criou nova procura por estas matérias-primas.
“Nós medimos as concentrações destas substâncias na atmosfera. Com base nos seus tempos de vida, conseguimos calcular quanto deveriam estar, de facto, a diminuir. Se não estiverem, é porque as emissões ainda estão a ocorrer”, observou Martin Vollmer.
Esta rede complexa de vias de produção torna mais difícil localizar e reduzir emissões.
“As quantidades de matérias-primas não estão a diminuir, e continuarão a crescer, pelo menos nos próximos anos”, disse Reimann.
A recuperação da camada de ozono pode sofrer atrasos
O que significam estes resultados para a camada de ozono? O estudo modela diferentes cenários futuros. Se os níveis actuais de emissão se mantiverem, a recuperação do ozono em latitudes médias poderá ser adiada em cerca de sete anos.
Em cenários de melhor controlo, nos quais as emissões regressam às estimativas antigas, a recuperação poderia ocorrer por volta de 2065. Mas, seguindo a trajectória actual, a previsão desloca-se para mais perto da década de 2070.
A diferença pode parecer gradual, mas torna-se importante ao longo de décadas. E estas emissões não afectam apenas o ozono: também interferem com o clima.
Muitas substâncias destruidoras de ozono são gases com forte efeito de estufa. O estudo estima que reduzir emissões associadas a matérias-primas poderia cortar uma fatia perceptível do aquecimento futuro.
Até 2050, a diferença entre cenários de emissões altas e baixas poderia equivaler a cerca de 0.8 percent das emissões globais de dióxido de carbono.
Mesmo quando algumas emissões descem, outras mantêm-se estáveis devido à procura industrial contínua.
As políticas precisam de se actualizar já
As conclusões sugerem que as políticas em vigor podem necessitar de ajustes. Quando o Protocolo de Montreal foi concebido, as emissões ligadas a matérias-primas pareciam demasiado pequenas para terem impacto. Hoje, isso deixou de ser verdade.
Se for possível reduzir fugas nos processos industriais, a recuperação do ozono poderá acelerar e o impacto climático também poderá diminuir. Para isso, podem ser necessários mais monitorização, tecnologia melhorada e regras de reporte mais exigentes.
“O Protocolo de Montreal teve sucesso porque ciência, política e indústria trabalharam em estreita colaboração. Essa cooperação é novamente crucial hoje para enfrentar novos desafios”, disse Reimann.
A camada de ozono continua numa trajectória de recuperação. No entanto, esta investigação mostra que o progresso não é automático. Pequenas fugas, multiplicadas por toda a economia global, podem influenciar o futuro da atmosfera.
A lição é directa: resolver um problema ambiental não fecha a história. Apenas torna visível o desafio seguinte.
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