A Organização Mundial da Saúde (OMS/WHO) alerta para uma “avalanche” silenciosa de custos: em muitos países, as bebidas açucaradas e o álcool estão mais baratos do que nunca, ao mesmo tempo que aumenta de forma marcada o número de doenças associadas ao seu consumo. Perante este cenário, a organização insta os Estados a avançarem para impostos de saúde muito mais fortes - não como uma intenção vaga, mas com um roteiro definido até 2035.
Porque é que a OMS defende impostos mais altos sobre bebidas açucaradas e álcool
A lógica apresentada pela OMS é direta: quando o álcool e os refrigerantes açucarados têm preços baixos, mais pessoas os consomem com frequência - e isso repercute-se na saúde, na vida social e nas finanças públicas.
Na perspetiva da organização, a acessibilidade destes produtos está intimamente ligada a:
- aumento da obesidade
- mais casos de diabetes
- doenças cardiovasculares
- determinados tipos de cancro
- acidentes e crimes violentos
- problemas de dependência
A OMS fala de produtos que prejudicam a saúde e, ainda assim, continuam tão baratos que acabam por impor, a longo prazo, custos enormes aos sistemas de seguro de saúde e aos orçamentos públicos.
Este peso recai com particular intensidade sobre os sistemas de saúde, sobretudo nos países com menos recursos, que ficam cada vez mais pressionados. O tratamento das doenças subsequentes consome milhares de milhões. Em paralelo, produtores e retalhistas beneficiam de uma procura estável - ou até em crescimento - por estes produtos de risco a baixo preço.
Álcool barato, refrigerantes baratos: como os impostos falham hoje
Nos relatórios mais recentes, a OMS analisou em detalhe as regras fiscais em vigor para o álcool e as bebidas açucaradas em todo o mundo. A conclusão é pouco animadora.
Álcool: muitos impostos, pouca eficácia
Pelo menos 167 países cobram impostos sobre o álcool. No entanto, na prática, estes tributos são frequentemente demasiado baixos ou desenhados de forma pouco eficaz. Entre 2022 e 2024, a cerveja ficou, em termos reais, mais barata em 56 países e apenas encareceu em 37.
A OMS aponta os seguintes valores de referência:
- carga fiscal mediana sobre a cerveja via impostos especiais de consumo: cerca de 14%
- carga fiscal mediana sobre bebidas espirituosas: cerca de 22,5%
- o vinho está totalmente isento deste tipo de impostos em pelo menos 25 países
A proposta passa por alargar os impostos especiais de consumo a todas as bebidas alcoólicas - incluindo o vinho, que em muitos Estados continua a ser protegido por razões culturais ou económicas.
Bebidas açucaradas: taxadas, mas pouco travadas
No caso das bebidas açucaradas, o padrão repete-se. Pelo menos 116 países já aplicam algum tipo de taxa, normalmente dirigida aos refrigerantes clássicos. Mesmo assim, o impacto costuma ser limitado.
Na mediana, o imposto sobre uma bebida refrescante típica representa apenas cerca de 2% do preço de venda - demasiado pouco para alterar de forma séria o comportamento de compra.
Acresce um problema adicional: muitos outros produtos com elevado teor de açúcar passam ao lado do imposto:
- sumos de fruta com 100% de fruta, mas com muito açúcar
- bebidas lácteas adoçadas
- cafés e chás prontos a beber no frigorífico
- bebidas energéticas, quando são enquadradas em categorias específicas
Poucos países atualizam estas taxas de forma regular em função da inflação e da evolução dos rendimentos. Quando os valores ficam anos sem mexer, estes produtos tornam-se, comparativamente, cada vez mais acessíveis. É precisamente isso que a OMS diz estar a observar em várias regiões.
A estratégia “3 a 35”: o que deve mudar até 2035
A exigência da OMS liga-se a uma iniciativa global, conhecida internamente como “3 a 35”. O objetivo é concreto: tornar o tabaco, o álcool e as bebidas açucaradas significativamente mais caros em termos reais até 2035, reduzindo a sua atratividade.
Para o conseguir, a organização identifica três alavancas principais:
- Aumentar as taxas: subir de forma clara os impostos especiais de consumo sobre álcool e bebidas açucaradas, e não apenas com aumentos simbólicos.
- Alargar a base tributária: incluir todos os produtos relevantes, incluindo vinho, sumos de fruta e bebidas mistas com muito açúcar.
- Indexar os impostos: ajustar automaticamente à inflação e à evolução dos rendimentos, evitando que os produtos fiquem “mais baratos” de forma gradual.
O raciocínio é que, quanto mais elevado for o preço, maior é a redução do consumo - algo bem documentado na política fiscal do tabaco. Ao mesmo tempo, estas receitas podem acrescentar milhares de milhões aos cofres do Estado, ajudando a financiar programas de saúde, prevenção e tratamentos.
Quem paga - e quem ganha com o aumento de preços?
Num primeiro momento, impostos mais altos sobre o álcool e as bebidas açucaradas recaem sobre os consumidores, sobretudo sobre os agregados com menores rendimentos, que tendem a gastar uma fatia maior do orçamento nestes produtos. É por isso que alguns críticos lhes chamam “impostos punitivos para os pobres”.
A OMS enquadra a questão de outra forma: é precisamente nas populações com menos recursos que os danos para a saúde são, muitas vezes, mais graves. Menos consumo traduz-se, nesses grupos, em mais anos de vida com qualidade. E se as receitas adicionais forem canalizadas de forma direcionada para creches e jardins de infância, escolas, centros de saúde e prevenção local, a medida pode até ter um efeito de compensação social.
Para a OMS, trata-se de uma situação clássica de win-win: menos casos de doença, menos custos hospitalares e, a longo prazo, sociedades mais produtivas - financiadas por taxas sobre bens de consumo de risco.
Os representantes da indústria, previsivelmente, discordam. Alertam para perdas de emprego, deslocalização da produção e crescimento da economia paralela. A OMS contrapõe que a experiência com impostos sobre o tabaco ou taxas sobre o açúcar em países como o México, a África do Sul ou o Reino Unido mostrou, na maioria dos casos, uma descida clara do consumo, sem colapso do setor.
O papel do quotidiano das pessoas
Os impostos não atuam num vazio. Funcionam num contexto em que a bebida doce no intervalo escolar, a cerveja ao fim do dia ou o cocktail ao fim de semana já fazem parte de rotinas. E quando, na cantina, na estação ou no estádio, a oferta é dominada por refrigerantes baratos, cerveja e bebidas mistas, a escolha tende a repetir-se - independentemente do que a OMS recomende.
Por isso, a organização insiste que impostos mais altos devem ser acompanhados por outras medidas:
- rotulagem nutricional clara na frente da embalagem
- restrições à publicidade, sobretudo dirigida a crianças e adolescentes
- maior acesso a água potável gratuita em escolas e espaços públicos
- programas de incentivo a alternativas mais saudáveis no comércio e na restauração
Só a combinação de pressão no preço, regulação e melhor informação consegue, a prazo, alterar hábitos de consumo. A OMS vê, assim, os impostos como uma ferramenta poderosa, mas não como a única.
Como o açúcar e o álcool sobrecarregam o corpo
Por trás desta discussão fiscal estão riscos médicos concretos. Quem consome regularmente bebidas com muito açúcar ingere grandes quantidades de “calorias líquidas”. O organismo tende a registá-las pior do que os alimentos sólidos e a sensação de saciedade surge mais tarde. O resultado pode ser um excedente calórico persistente e gradual - um terreno fértil para o aumento de peso.
Juntam-se ainda perturbações metabólicas: oscilações fortes da glicemia sobrecarregam o pâncreas e os vasos sanguíneos, elevando o risco de diabetes tipo 2. Já o álcool pode aumentar a tensão arterial, afetar o fígado e o cérebro, influenciar o risco de cancro e contribuir para acidentes, violência e dependência.
A situação torna-se mais sensível quando ambos se combinam. Quem bebe, por exemplo, bebidas mistas doces ou alcopops consome ao mesmo tempo muito açúcar e álcool. Isso intensifica a carga sobre o fígado, o coração e o metabolismo. Entre os jovens, estes produtos facilitam ainda a subestimação da quantidade de álcool já ingerida.
O que poderia mudar, na prática, para os consumidores
Se os governos seguirem as recomendações da OMS, o impacto poderá tornar-se evidente na caixa do supermercado. Entre as mudanças possíveis estão:
- aumentos de preço percetíveis em cerveja barata e bebidas espirituosas
- refrigerantes, bebidas energéticas e cafés prontos a beber significativamente mais caros
- novos impostos sobre bebidas lácteas adoçadas e sumos de fruta
- maior promoção de água, chás sem açúcar e versões light
Ao mesmo tempo, existem oportunidades. Sempre que o açúcar ou o álcool passam a ser mais tributados, os fabricantes tendem a ajustar receitas: menos açúcar significa menos imposto - e, idealmente, produtos mais saudáveis na prateleira. Em alguns países, já se observaram reformulações em iogurtes, refrigerantes ou cereais de pequeno-almoço após a introdução de novas taxas.
Quem já hoje procura moderar o consumo pode obter ganhos com escolhas simples: água em vez de refrigerante, cerveja sem álcool em vez de cerveja forte, café sem açúcar em vez de latte pronto a beber em lata. Mesmo que o debate fiscal ainda se prolongue por anos, os efeitos mais rápidos acabam, muitas vezes, por começar no copo de cada pessoa.
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