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Como os ratos-toupeira-pelados substituem a rainha sem violência

Um grupo de ratos rosa rodeia um rato amarelo sentado no centro em tocas de terra.

A grande profundidade, sob o solo de algumas regiões de África, os ratos-toupeira-pelados organizam-se como um reino rigidamente gerido.

Uma única rainha é responsável por gerar toda a descendência, enquanto os restantes indivíduos trabalham sem parar. Escavam túneis, procuram alimento e tratam das crias. Toda a vida da colónia gira em torno dessa fêmea.

Durante muito tempo, os cientistas assumiram que, quando a rainha deixava de conseguir reproduzir-se, a colónia entrava em desordem.

A ideia era a de que surgiriam confrontos, com rivais a lutarem pelo controlo. Soava brutal, mas parecia lógico num sistema montado à volta de uma única governante. Só que, agora, investigadores revelaram que a história pode ser bem diferente.

Quando a ordem não se desfaz

Uma equipa acompanhou recentemente uma colónia de ratos-toupeira-pelados durante seis anos. O objectivo foi observar o que acontecia quando a capacidade reprodutiva da rainha começava a falhar.

O resultado surpreendeu: em vez de violência, a colónia reorganizou-se de forma serena e gradual.

O estudo chama a atenção para algo que muitos investigadores tinham subestimado: estes animais conseguem cooperar mesmo em momentos de pressão que põem em causa a estrutura social.

“A resiliência é a capacidade dos sistemas biológicos recuperarem ou regressarem ao seu estado normal após stresse e é central para a nossa compreensão da saúde e da doença”, explicou a Dra. Janelle Ayres, professora no Salk Institute.

“Embora muita investigação se foque no conflito, o meu laboratório estuda a cooperação como um princípio organizador fundamental. Estudámos isto sobretudo em sistemas hospedeiro-patógeno e expandimos para sistemas sociais complexos, como o rato-toupeira-pelado.”

“Ao investigar como a cooperação impulsiona a resiliência, podemos descobrir mecanismos que permitem aos sistemas biológicos recuperar e funcionar eficazmente após desafios.”

Importância dos ratos-toupeira-pelados

Os ratos-toupeira-pelados podem parecer estranhos, mas há décadas que despertam o interesse dos cientistas. Foram levados para laboratórios pela primeira vez nos anos 1960, em parte devido à forma como conseguem sobreviver debaixo de terra.

Cerca de dez anos depois, os investigadores perceberam que partilhavam uma característica rara com formigas e abelhas: são mamíferos eussociais. Isto significa que vivem em colónias com papéis bem definidos e uma única rainha reprodutora.

Além disso, os ratos-toupeira-pelados vivem muito mais do que a maioria dos roedores, frequentemente mais de 30 anos. Mostram resistência ao cancro e não sentem certos tipos de dor associados à inflamação.

Estas particularidades tornam-nos úteis para estudar envelhecimento e doença. Neste caso, foi o próprio sistema social que levantou uma nova questão.

“Há anos que sabemos que apenas uma fêmea, a rainha, se reproduz, e que a sucessão da rainha ocorre através de guerras violentas entre rainhas. Queríamos ver se várias rainhas poderiam coexistir pacificamente”, afirmou Shanes Abeywardena, co-primeiro autor do estudo.

O stresse muda as regras

Na natureza, estas colónias vivem, em geral, em condições relativamente estáveis. Essa estabilidade pode permitir que dependam de regras rígidas - e por vezes agressivas - relacionadas com a reprodução.

Uma única rainha simplifica o funcionamento: reduz potenciais conflitos e concentra os recursos num só grupo de crias de cada vez. Ainda assim, existe um custo. Se essa rainha tiver dificuldades, toda a colónia fica em risco.

Para testar o que acontece sob pressão, os investigadores alteraram o ambiente da colónia. Primeiro, aumentaram o número de animais no grupo.

A rainha continuou a parir, mas sobreviveram menos crias. Em seguida, a colónia foi transferida para um novo local - uma mudança com impacto mais forte.

A rainha deixou de produzir ninhadas por completo, e foi aí que o padrão esperado se desfez.

Uma transferência de poder tranquila

Em vez de uma luta violenta, iniciou-se um processo mais lento. Ao longo do ano seguinte, uma fêmea subordinada começou a assumir um novo papel. Não afastou a rainha à força. Durante algum tempo, ambas funcionaram em paralelo, com gravidezes sobrepostas que ajudaram a manter a colónia.

Mais tarde, outra fêmea subiu de estatuto. Acabou por substituir a rainha. A antiga rainha não resistiu nem reagiu com agressividade. Passou para um papel não reprodutivo e permaneceu integrada no grupo.

A colónia manteve-se coesa: sem caos e sem colapso. Esta observação sugere que as sociedades de ratos-toupeira-pelados são mais adaptáveis do que se pensava.

“Os modelos de dinâmica reprodutiva de colónias de ratos-toupeira-pelados que tínhamos antes não captavam totalmente a complexidade e a flexibilidade destas colónias”, disse a Dra. Alexandria Schraibman, co-primeira autora do estudo.

“O nosso estudo revela um lado ‘oculto’ da organização reprodutiva nas colónias de ratos-toupeira-pelados, o que abre uma linha de investigação totalmente nova ao estudar ratos-toupeira-pelados.”

A possibilidade de uma sucessão pacífica altera a forma como os cientistas interpretam estes animais. Mostra que, quando a sobrevivência está em causa, a cooperação pode prevalecer.

Lições para além dos ratos-toupeira-pelados

As conclusões não se ficam pelos ratos-toupeira-pelados. O trabalho toca numa ideia mais ampla da biologia: os sistemas que perduram tendem a ter formas de recuperar após stresse. Por vezes, isso implica competição. Noutras situações, passa por colaboração.

“A resiliência é o princípio central para a saúde e a doença. Ao estudar a resiliência em vários sistemas biológicos, os princípios podem ser aplicados a outros sistemas para compreender melhor a saúde e a doença”, disse a Dra. Ayres.

Sem que se veja à superfície, estes pequenos animais mostram como um grupo consegue adaptar-se sem se desagregar. Mesmo com uma hierarquia rígida, existe espaço para mudança quando é realmente necessário.

O estudo completo foi publicado na revista Science Advances.

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